Cara de Um, Focinho de Outro
Críticas AdoroCinema
4,5
Ótimo
Cara de Um, Focinho de Outro

Pixar se entrega ao caos sem abandonar próprio DNA em um dos melhores filmes originais do estúdio

por Diego Souza Carlos

Em uma época em que grandes estúdios estão se fundindo, é sempre bom lembrar do legado que essas empresas deixaram na cultura pop. Ainda que a Pixar seja, ela mesma, protagonista de uma aquisição no passado, seu DNA segue praticamente intacto desde a fusão com a Disney.

Momentos bons ou ruins, qualquer empresa tem. Mesmo em épocas de crise, dos lançamentos no streaming devido à pandemia aos fracassos comerciais de Lightyear e Elio, a Casa d’Os Incríveis sempre entregou ótimas histórias. Nessa toada, é bom poder afirmar que Cara de Um, Focinho de Outro, novo projeto do estúdio, não é apenas bom, mas consegue sair um pouco da zona de conforto sem abandonar elementos familiares.

Pixar

A trama acompanha a história de Mabel, uma jovem amante dos animais que usa uma tecnologia revolucionária para se conectar com o mundo animal de uma maneira única. Graças a uma invenção que permite transferir sua consciência para o corpo de um castor robótico, ela pode agora explorar os mistérios do reino animal, vivenciando o mundo de uma perspectiva completamente nova, além de acessar suas próprias emoções e imaginação.

Enquanto Mabel se aventura nesse universo fascinante, ela se depara com uma grande ameaça: Jerry, o prefeito de sua cidade, cuja postura hostil coloca os animais em risco. Determinado a acabar com a convivência entre humanos e animais e, portanto, Mabel deve agir disfarçada como uma marmota robô para desvendar seus planos e proteger seus amigos de patas e penas. Saltadores é uma história divertida, com coração e muita ação, sobre empatia, coragem e o poder de entender o outro - sejam eles humanos ou animais.

Cara de Um, Focinho de Outro é puro - e ótimo - caos

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O público brasileiro teve a sorte de receber uma ótima localização quanto ao título e à dublagem de Hoppers (no original). Intitulado, Cara de Um, Focinho de Outro - uma expressão que condiz totalmente com a premissa da animação -, o filme da Pixar mais original em anos é um verdadeiro caos. Com ritmo acelerado e uma bem-vinda chuva de cores, especialmente em uma era cada vez mais opaca em Hollywood, o filme parece ter sido pensado com carinho para a Geração Z. Isso, obviamente, não exclui os demais, já que está na cartilha do estúdio sempre contar histórias universais.

Falando em coloração, o longa consegue abusar da fauna e da flora da clareira, onde boa parte da história se desenrola, com uma beleza única não apenas nas texturas dos bichinhos, mas especialmente nas paisagens naturais. Embora muita coisa aconteça no foco da cena em menos de 2 horas, é possível que muitos acabem apreciando os cenários bem construídos com aquarela ao fundo, com profundidade de tela que aparenta um mix entre 2D e 3D.

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Para muitos, incluindo este jornalista, a animação é uma das linguagens mais prolíficas do cinema. Enquanto tropeça e acerta tudo em sua acalorada empolgação, este projeto consegue se destacar com o encaixe das estratégias animadas ao enredo. Por exemplo: ao assumir uma dinâmica de perspectivas diferentes de acordo com o uso da tecnologia apresentada no filme, à la Avatar, o diretor também brinca com o visual dos animais.

Já sob a visão dos humanos, eles até são bonitinhos, mas passam um distanciamento principalmente pelo olhar; já com o uso dos dispositivos de comunicação ou dentro do reino animal, a expressividade é explosiva. Neste caso, com um bom uso de exageros que compõem toda a comicidade caótica da produção, ele mostra como tudo ganha outra vida e imensa vibração dentro do mundinho dos castores, lagartos, veados, pássaros, cobras, minhocas, esquilos, entre outros. Tudo ganhando brilho com a energia contagiante da protagonista.

DNA Pixar intacto meio à ousadia de Hoppers

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Ainda que Cara de Um, Focinho de Outro seja um dos filmes mais ousados e criativos da Pixar, ele não deixa de apresentar camadas de densidade. Caso o contrário, sua história seria oca, formada apenas por elementos de uma comédia urgente e acelerada - e ouso afirmar que ainda seria divertido. Apesar dos relatórios apontando uma possível diminuição nas mensagens socioambientais da produção, a trama encara com certa maturidade a relação de Mabel com o prefeito quanto à preservação da natureza.

É possível acessar camadas visivelmente complexas na trama que vai da proteção dos animais à coexistência de todos os seres vivos no meio ambiente. Com o uso de questões familiares e o reconhecimento de que não conseguimos nada sozinhos, ainda mais quando o preço de correr atrás dos sonhos pode ser a solidão, o filme se abre para o fluxo de subjetividades. Isso torna a animação ainda mais atraente, pois combinado aos contínuos acontecimentos, parece existir um turbilhão de histórias a serem contadas.

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A impulsividade da protagonista à leva a lugares extremos, e com uma boa junção de comédia e absurdo consegue tirar algumas boas risadas de muitas situações, mas também estabelece certas reflexões sem ser panfletário. Além da relação de Mabel com sua avó, o passado do Rei George, por exemplo, faz parte dessa costura de dramas. Citada brevemente, essa história demonstra como houve cuidado em construir este mundo fantástico mesmo com o que está fora da tela.

Quando pensamos que tudo ainda está conectado a um problema relacionável ao mundo real, a narrativa se torna ainda mais interessante, pois a conversa entre a fantasia e o pé-no-chão nos gera certos insights. Esse evocar de sentimentos e reflexões tem um agente fundamental: Mark Mothersbaugh. O compositor conduz uma trilha sonora responsável por conduzir a trama com elegância e muita energia, com faixas que evocam o clima do clima de espionagem de Os Incríveis a momentos grandiosos de Soul.

Um dos melhores filmes da Pixar e um acerto bem-vindo ao cinema

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Uma vez que Elio passou por muitas mudanças em relação à ideia original, é um alívio assistir Cara de Um, Focinho de Outro e perceber um filme autêntico, mesmo sob possíveis mudanças no caminho. São tantas ideias que transbordam na tela que o fator replay, inclusive, vai se tornar o desejo de muitos ao sair do cinema. Sempre falam sobre o poder da Pixar em conseguir construir laços entre bons personagens e histórias poderosas, algo que, sem sombra de dúvidas, esta animação consegue atingir.

Cara de Um, Focinho de Outro poderia ser um filme de dualidades, já que apresenta muitas delas, mas tenta surfar em liberdades criativas que disputam espaço entre a fantasia e a realidade. Há pequenos percalços no caminho em uma piada que não funciona ou o apego à fórmula clássica do estúdio que torna certos momentos um tanto previsíveis, mas quando você vê uma cena que evoca a franquia Sharknado ou quando há trechos horripilantes que brincam com a monstruosidade humana, qualquer questão mal executada se desfaz.

O pertencimento dos seres humanos, dos animais e dos demais seres vivos com o todo é bem trabalhado, uma vez que a animação tenta demonstrar que existem muitos meios de se lidar com problemas de convivência. Deixa-se a superficialidade de lado para abraçar uma área cinzenta na qual muitos aprendizados são possíveis. Em uma década prolífica, mas vivida em uma montanha-russa de erros e acertos, a Pixar conquistou este triunfo ao não se levar tão a sério, sem subjugar o público ou abandonar o que a tornou tão especial.

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