Sinopse:
Vitória é uma senhora solitária que, aflita com a violência que passa a tomar conta da sua vizinhança, começa a filmar da janela de seu apartamento. A idosa registra a movimentação de traficantes de drogas da região durante meses, com a intenção de cooperar com o trabalho da polícia. A atitude consegue chamar a atenção de um jornalista, que faz amizade com Vitória e tenta ajudá-la nessa missão.
Crítica:
“Vitória” é um filme que se propõe a ser um poderoso testemunho da luta pela justiça em meio à adversidade, e embora tenha momentos impactantes, ele deixa a desejar em alguns aspectos fundamentais.
A direção de Andrucha Waddington e Breno Silveira é uma tentativa de capturar a essência da vida de Joana Zeferino da Paz, mas em certos pontos, o filme não consegue equilibrar a intensidade do drama com a construção narrativa. A jornada de Nina, interpretada com maestria por Fernanda Montenegro, é envolvente, mas a narrativa, em alguns trechos, tropeça em clichês e cadências previsíveis. O ponto alto é, sem dúvida, a performance de Montenegro, que traz uma profundidade emocional que carrega a história.
O roteiro, adaptado por Paula Fiúza, tem boas intenções, mas em sua execução, parece se perder em abordagens redundantes, especialmente ao explorar a burocracia e a ineficácia das autoridades. A presença do Major Messias, que se opõe à ação, parece uma caricatura de uma resistência ao progresso, em vez de um antagonista bem desenvolvido. A falta de nuances nesse personagem prejudica a tensão dramática que poderia ser explorada.
Além disso, a relação de Nina com os jovens da comunidade, como Marcinho e Bibiana, é um aspecto que poderia ter sido mais explorado. A conexão dela com esses personagens apresenta um potencial incrível de desenvolvimento. Contudo, o filme parece se concentrar tanto na luta de Nina que acaba deixando algumas dinâmicas pessoais de lado, o que poderia ter enriquecido a narrativa.
Por outro lado, a cinematografia e a direção de arte conseguem retratar a vivacidade e a dureza da comunidade em questão. As imagens capturam tanto a beleza da resistência quanto a crueza da realidade cotidiana, mas em alguns momentos, a resistência à violência poderia ter sido tratada com um pouco mais de sutileza e complexidade. O filme, em sua busca por dramatização, acaba por marginalizar algumas nuances que poderiam ter dado maior profundidade à história.
“Vitória” acerta ao colocar uma mulher idosa em uma posição de protagonismo, desafiando estereótipos sociais sobre a idade e a força feminina. No entanto, o filme poderia ir além, questionando o que significa ser uma heroína em uma sociedade que frequentemente ignora vozes como a de Nina.
Em suma, “Vitória” é um filme que instiga a reflexão sobre a coragem e a luta pela justiça, muito embora suas falhas na narrativa e desenvolvimento de personagens o impeçam de ser mais impactante. É uma obra que, apesar de suas limitações, merece ser vista e discutida, especialmente por abordar questões relevantes no contexto brasileiro contemporâneo.