Vitória tem a difícil missão de contar a história de Joana da Paz e seu embate contra o tráfico e a corrupção em seu bairro no Rio de Janeiro. Dirigido por Andrucha Waddington, o filme se apresenta como uma adaptação livre do livro Dona Vitória da Paz, e, como toda adaptação, precisa transformar sua fonte original em uma narrativa cinematográfica envolvente. Desde o início, fica claro que algumas escolhas criativas foram feitas para dar maior dinamismo à trama, como a escalação de Fernanda Montenegro no papel principal — uma decisão que não busca semelhança física com Joana da Paz, mas sim valorizar o peso dramático da personagem. Além disso, algumas passagens da história real foram modificadas ou deixadas de fora, algo comum em qualquer adaptação de livro para cinema.
Com esse ponto esclarecido para aqueles que esperavam uma fidelidade absoluta à história real, é importante destacar a importância do timing de lançamento do filme. Vitória estava programado para chegar aos cinemas no segundo semestre de 2025, mas, com a indicação de Fernanda Torres ao Oscar, a Sony Pictures antecipou sua estreia para aproveitar o momento. Essa decisão se prova acertada, pois a produção merece ser vista na tela grande. Embora não seja uma obra-prima do cinema nacional, o filme se sustenta como uma história envolvente, que se torna grandiosa graças à presença de Fernanda Montenegro. Aos 93 anos, a atriz deu indícios de que este pode ser seu último filme, o que, por si só, já torna a experiência obrigatória para qualquer fã de cinema.
Mas não se engane: o filme não é apenas um veículo para a consagração de Montenegro. Sua atuação é impecável, demonstrando um controle absoluto da narrativa e extraindo o máximo de sua protagonista. A trajetória de Joana da Paz já renderia um excelente filme por si só, mas a presença de uma atriz dessa magnitude eleva a obra a outro nível. Ainda assim, há momentos em que o filme parece genérico, comprometendo parte do seu impacto. A direção de Andrucha Waddington é segura e eficaz, permitindo que Montenegro brilhe sem grandes interferências. Mesmo com suas limitações físicas, a atriz é conduzida com maestria em cada cena. A reconstrução do Rio de Janeiro dos anos 2000 também é um dos pontos altos, transmitindo com autenticidade a atmosfera da época.
Entretanto, o roteiro apresenta falhas que enfraquecem o conjunto da obra. Um dos exemplos mais notáveis é o arco do major envolvido na corrupção, que, apesar de ter todo o seu esquema registrado por Vitória, não toma nenhuma atitude contra ela. Além disso, algumas relações construídas ao longo da trama, como as interações de Vitória com Marcinho e Bibiana, são trabalhadas de forma a gerar uma conexão emocional, mas acabam sendo subaproveitadas e parecem existir apenas para amarrar pontos soltos da narrativa. Ainda assim, Alan Rocha merece destaque por sua atuação marcante, conseguindo brilhar mesmo ao lado de uma atriz tão grandiosa.
No final das contas, Vitória é um filme que se engrandece mais pela força de Fernanda Montenegro e pela potência da história real que inspirou a trama do que propriamente pela maneira como essa história é contada. Montenegro entrega mais uma atuação memorável, conferindo carisma e profundidade à personagem, a ponto de eclipsar as deficiências do roteiro. Seu desempenho é tão impactante que, por vezes, faz com que o público esqueça das inconsistências narrativas e apenas se deixe levar pelo seu talento. Com uma história envolvente, uma protagonista inesquecível e uma direção competente, mas um roteiro que carece de maior refinamento, Vitória emociona e instiga, mesmo sem revolucionar