"Vitória" é mais do que um bom filme, é um cortejo de glória para Fernanda Montenegro, já que o filme é basicamente um espaço livre para ela preencher com sua imensidão titânica e expressividade miraculosa demonstradas por meio de uma atuação colossal.
É certo dizer que também todo o elenco se sai bem, as atuações são boas, mas especialmente Laila Garin e Alan Rocha conseguem te imergir com facilidade na desafiadora vida de uma delegada e um jornalista que serão aliados da então protagonista, eles são pontuais nos tons que dão, te ajudam a continuar querendo saber mais de cada passo da história, isso se deve muito a direção que dá território para que os atores usem bem esse texto, que é simples, mas muito eficaz. Dirigido com muita maturidade e imagens sólidas por Andrucha Waddington, genro de Fernanda, que aqui provavelmente revela o quanto sua visão se apurou com o tempo, apesar de eventualmente o filme soar como produção de tv, o que pode incomodar.
"Vitória" narra a história real de uma mulher que cansada do crime organizado que manifestava toda violência diante da janela de seu apartamento, decide gravar as cenas com uma pequena câmera e então tendo as provas em mãos, inicia um êxodo maçante entre os órgãos da segurança pública, mas sem sucesso, revelando em determinando ponto como de alguma maneira eles acabam se relacionando com aquilo que deveriam combater, enquanto o povo sofre a mazela da omissão. Essa mulher, que na época das gravações estava sob o programa de proteção a testemunha não podia ter sua identidade revelada e tampouco, ainda que soubessem, ser interpretada por alguém fisicamente semelhante.
Para honrar sua coragem extraordinária, Fernanda Montenegro foi escalada e ela simplesmente galvaniza tudo que existe aqui, não há uma cena em que ela não esteja presente e não há roteiro que não se renda a presença onipotente dela em cena, para além de tudo, com 94 anos durante as gravações, é impossível deixar de notar sua disposição física e como o papel exigiu a demonstração disso, porque o pavor da violência gratuita, da bala perdida e inclusive da dor empática com o garoto Marcinho que vem da favela e a ajuda eventualmente a subir as compras em troca de alguma ajuda ou afeto (mas é também o agente que revela a verdade do abismo social para a protagonista), pedem que ela se movimente de formas ágeis a transmitir esses sentimentos adornados pelo pavor, mas especialmente pela indignação. Algumas cenas dela vem carregadas de tanta força que é impossível não se impressionar com a robustez da atuação, é de uma potência magnética.
Outro aspecto muito importante é a noção cômica tão pontual que ela tem, muito frequentemente a gente se pega sorrindo em meio a tristeza que tantas vezes se estabelece, digo isso porque há mais tristeza do que tensão aqui, por mais que o enredo desse muito espaço pra isso, não se aproveita dessa brecha, mas é porque acho que a ideia não é fazer um thriller porém falar exatamente dos passos dessa mulher que motivada pela necessidade de paz, dá um salto corajoso rumo a mudança que lhe trará aquilo que deseja, ainda que sacrifique seu nome ou moradia para tal e existe uma boa mensagem nisso: sua nova vida te custará a sua velha vida.
E por mais que toda mudança venha carregada de dúvidas, talvez elas te levem onde você realmente gostaria de estar, caso contrário a vida será como uma xícara que após quebrada e mal colada, não terá a mesma razão de ser.