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    Forever Young
    Críticas AdoroCinema
    2,5
    Regular
    Forever Young

    Mais inconstante do que a própria juventude

    por Aline Pereira

    Os anseios da juventude parecem ser uma fonte fértil e inesgotável para o cinema: são incontáveis as obras e os pontos de vista sobre as dores do amadurecimento e, em 2022, o gênero ganhou um novo título. Forever Young, uma das estreias do Festival de Cannes, é inspirado na história da própria diretora, Valeria Bruni Tedeschi, já premiada no festival francês e nome de destaque no teatro europeu, que trouxe para as telas uma representação poética e cheia de vida (como o próprio teatro), mas que cai em seus excessos (como a própria juventude). 

    Les Amandiers, que recebeu o título em inglês de Forever Young, acompanha um grupo de jovens franceses recém-aprovados em uma famosa escola de atuação, comandada por um diretor excêntrico, mas “exigente” (se é que podemos colocar essa forma) e admirado pelos estudantes. Os novos alunos estão montando uma peça de teatro e passam um período de tempo nos Estados Unidos, onde se passa boa parte da história. Longe de casa, todas as experiências parecem ganhar mais intensidade, além de torná-los ainda mais próximos em uma terra de desconhecidos.  

    Amigos, amantes e rivais 

    O longa parte de uma competição e, a partir do ponto de vista da protagonista Stella (Nadia Tareszkiewicz), acompanhamos os testes para o curso disputado, com muito menos vagas do que concorrentes. Cada um dos candidatos precisa entregar 100% do que tem e os momentos de pressão revelam muito do que os veremos viver dali em diante - levados ao limite não só da própria maturidade, mas da autoestima e da preocupação com o futuro, os personagens de Les Amandiers se mostram intensos em tudo.   



    Neste clima de precisarem provar o próprio valor (para eles mesmos e para os outros), os protagonistas desenvolvem relações muito particulares entre eles e tudo é visceral: os romances, as amizades e, claro, as inimizades. Nesse sentido, o longa não faz muito mais do que dar uma roupagem mais “artística” a dramas vistos em diversas outras produções adolescentes com abordagens mais adultas - das mais sérias, como Euphoria, às grandes franquias da Netflix, como Elite

    Assim, o abuso de substâncias e a dinâmica sexual nada saudável entre os personagens também são tema do filme, mas pode incomodar a sensação de que todos os riscos e excessos são tratados de uma forma romantizada, como se fossem fruto de uma “intensidade” característica daquelas almas artísticas. Não queremos dar spoilers, é claro, mas ainda dentro destes temas, Forever Young toca em questões muito delicadas, que mereciam um tratamento mais refinado - embora, no fim, não falhe em transmitir uma mensagem tocante sobre elas.  

    Forever Young tem ótimos personagens, mas nem todos são aproveitados 

    O principal trunfo do filme de Valeria Bruni Tedeschi é o elenco que reuniu: Forever Young tem um grupo de personagens muito entrosados e que impulsionam uns aos outros. É como se aqueles jovens atores estivessem vivendo, no mundo real, uma fase muito parecida com a da ficção e as trocas entre eles parecem muito realistas. Além disso, a cineasta trouxe figuras marcantes e com boas tramas próprias para as telas, como o jovem que se recusar a fazer um teste de HIV, mesmo sabendo que sua esposa contraiu o vírus, ou a jovem que está grávida e deixa claro que o teatro é sua prioridade. 



    Vale notar ainda que os dois personagens mais cativantes estão fora deste grupo: uma delas é uma candidata que não passou no teste para o curso de atuação, mas está determinada a se manter por perto a qualquer custo e acaba arrumando um emprego próximo ao teatro - todas as suas tentativas de se infiltrar naquele meio são ótimos. O outro é o diretor artístico Patrice Chéreau, inspirado em uma pessoa real e interpretado no filme por Louis Garrel (Adoráveis Mulheres e Os Sonhadores) e que já foi casado com Valeria Bruni Tedeschi há alguns anos. 

    Chéreau é uma figura de autoridade que os alunos temem e admiram na mesma medida. Nenhum deles sabe muito bem qual é o limite para interagir com o diretor porque ele nunca é apresentado realmente como um professor ou mentor, de alguma maneira. Essa relação indefinida cria todo tipo de situação embaraçosa à medida que Chéreau também se mostra uma figura insensível e instável. Para quem está assistindo, fica a sensação de que ele diz ser muito mais do que realmente é, mas seus alunos não percebem e o mantém em um pedestal invisível. 

    Um filme sobre a arte de atuar 

    Também não são poucos os filmes que se inspiram na vida de seus próprios criadores (na mesma edição do Festival de Cannes, tivemos o drama Armageddon Time, do diretor James Gray) e, muitas vezes, histórias muito pessoais também se mostram incrivelmente universais. Mas a sensação é de que Forever Young para um pouco no meio do caminho neste aspecto: embora algumas complexidades do amadurecimento sejam fáceis de se identificar, ainda falta uma “cola” que nos aproxime mais desta trama. 



    É nítido o envolvimento emocional da diretora Valeria Bruni Tedeschi na trama e isso torna a história de Forever Young muito realista (mesmo seus exageros são justificados), mas sem esses elementos de maior conexão com quem está assistindo, fica a sensação de que a trama está conversando com algo ou alguém que não conhecemos). 

    De um modo universal, o filme fala sobre o ofício da atuação e tudo o que um trabalho tão importante exige de quem se aventura nele - um tema excelente e cheio de possibilidades -, mas as ferramentas escolhidas para tratar o assunto não são tão convincentes. Há uma boa discussão sobre o que torna um ator realmente bom, sobre egos inflados, hierarquia e sobre o quanto trabalhar com arte pode definir toda a vida das pessoas ali retratadas, mas nada disso nos toca como poderia. 

    Forever Young é um filme tão inconstante quanto os personagens que apresenta (o que até faz sentido de algumas maneiras), mas, para uma história que fala, justamente, sobre a profundidade da arte e seus bastidores, faltou um melhor proveito dos recursos que tinha à mão. A famosa máxima do “viva rápido, morra cedo” é bem retratada por aqui, mas já assistimos tantas vezes a estas histórias (e com tantas boas inovações), que fica difícil se encantar por uma história que nos mantenha tão distantes. 

     
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