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    A Casa Sombria
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    A Casa Sombria

    O vazio existencial preenchido pelo sombrio

    por Bruno Botelho
    Recorrentemente, as produções de terror lidam em seus enredos com temáticas sobre medos, dores e ansiedades, utilizando metáforas e simbolismos que se aprofundam no psicológico e até mesmo no existencialismo do ser humano em relação aos seus problemas ou experiências – um dos principais motivos que torna o gênero tão rico e incisivo em suas observações sobre a vida. A Casa Sombria (2021) sabe muito bem dessas características e investe pesado em uma narrativa de terror psicológico, com as mãos de David Bruckner, diretor que vai se estabelecendo aos poucos (e de maneira interessante) no gênero depois de participar da antologia V/H/S (2012) e comandar O Ritual (2017) da Netflix.
     
    Na história do filme, Beth (Rebecca Hall) vive sozinha em sua casa à beira do lago, lutando por conta da morte inesperada de seu marido Owen (Evan Jonigkeit). Ela tenta o melhor que pode para se manter bem, mas possui dificuldades por conta de seus sonhos. Visões perturbadoras de uma presença na casa a chamam, acenando com um fascínio fantasmagórico. Indo contra o conselho de seus amigos, ela começa a vasculhar os pertences do falecido, ansiando por respostas. O que ela descobre são segredos terríveis e um mistério que está determinada a resolver.

    O luto de Beth em uma interpretação poderosa de Rebecca Hall



    Rebecca Hall brilha em A Casa Sombria, o que é um fator primordial para as pretenções do filme, pois ele quer explorar o psicológico de sua protagonista enfrentando o luto depois do suicídio de seu marido. Somente com essa descrição, fica claro que a produção aborda temas pesados e importantes. E faz isso dando total destaque para Beth de Rebecca Hall, que consegue passar toda a fragilidade emocional de sua personagem e, em grande parte do filme, aparece sozinha em cena – o que reforça a ideia de isolamento. A amiga de Beth, Claire (Sarah Goldberg), e o caseiro Mel (Vondie Curtis-Hall) não recebem muito desenvolvimento, mas não atrapalham a progressão da história, sendo funcionais quando é necessário.

    Todas as características do luto são apresentadas bem no início do longa, com ela afogando sua tristeza ao ingerir bebida alcoólica e assistindo aos vídeos de seu casamento, momentos de um drama com forte carga psicológica. Mas o sobrenatural entra em cena de vez quando Beth passa a ter sonhos enigmáticos e sentir presenças sobrenaturais em sua casa, o que a faz questionar seu lado cético sobre a existência ou não de fantasmas, e procurar resposas nos pertences de Owen. Esse é um dos aspectos mais interessantes da narrativa, pois Beth entra em uma espiral de paranoia entrando em contato com o sombrio, fazendo o público questionar a todo instante o que é real e o que está apenas na mente da protagonista.  

    Cada pessoa enfrenta os seus fantasmas internos (e muitas vezes não sabemos)



    Usar uma assombração como metáfora para depressão e vazio existencial não é nenhuma novidade no cinema de terror, afinal, acompanhamos isso desde clássicos como O Iluminado (1980) até produções recentes como The Babadook (2014). Mesmo assim, os roteiristas Ben CollinsLuke Piotrowski acertam nos aspectos de horror materializado na degradação da saúde mental da protagonista enquanto ela precisa entender e lutar contra seus próprios demônios internos. 

    A Casa Sombria aborda diferentes camadas e temas ao longo de sua duração. De maneira superficial, o horror aparece no relacionamento de Beth e Owen, com essa mulher de luto descobrindo que seu falecido marido escondia muitos segredos obscuros, mostrando elementos mais visuais do terror e suspense, o que se assemelha bastante ao realizado em O Homem Invisível (2020). Para além disso, encontramos temáticas mais profundas sobre depressão, suicídio, dor da perda (o luto), autodestruição e questionamentos existencialistas, como se existe vida após a morte. Ele cresce em significado quando examina de forma visceral problemas que muitas são invisíveis e estão escondidos dentro de nós, mas que podem nos assombrar se não lidarmos com eles. Todos enfrentam suas próprias batalhas pessoais e, para Beth, é doloroso se deparar com feridas que não são do sobrenatural, mas do nosso próprio psicológico. 

    A Casa Sombria acerta na trama psicológica, mas pode frustrar quem espera algo mais assustador



    David Bruckner mostra muita confiança na direção de A Casa Sombria com uma progressiva desconstrução e expansão das dimensões dos cenários da casa de Beth, fazendo com que o público se perca na realidade e fique imerso em uma espécie de pesadelo dentro do psicológico da protagonista – o que é reforçado pela fotografia com toques surrealistas de Elisha Christian, assim como o design de produção de Kathrin Eder. Bruckner brinca com ilusões, sombras e reflexos para desafiar as percepções do público, assim como da personagem principal, e passeia por diversos subgêneros do terror, desde psicológico e assombrações, até o encontro com elementos de rituais de ocultismo e histórias de assassinos em série. 

    Apesar do acerto em mesclar diversas influências do gênero e se aprofundar em aspectos psicológicos, o filme acaba se arrastando em alguns momentos por causa da escolha de focar no drama pessoal de Beth, o que pode não agradar um público que procura por uma trama mais convencional e assustadora, o que não acontece durante a maior parte da produção. Mesmo assim, quando o longa sai disso e começa a desvendar seus mistérios, acaba fazendo de forma atrapalhada e repleta de sustos mais convencionais, além de entregar um final que vai ser divisivo conforme cada experiência pessoal – ele encerra perfeitamente o filme com relação ao drama pessoal da protagonista, mas pode soar abrupto e inconclusivo para muitos pessoas.  

    Vale a pena assistir A Casa Sombria?


    A Casa Sombria é o típico filme de terror que proporciona impressões diferentes de cada espectador. Se você espera uma trama psicológica profunda, tem um prato cheio aqui. Rebecca Hall entrega uma performance poderosa de uma mulher enfrentando o luto, o que é representado de forma impactante com o medo e a dor sendo materializados pela presença progressiva do sombrio. Caso espere um horror mais convencional e com sustos frequentes nos famoso molde de filmes de casas assombradas, A Casa Sombria pode decepcionar, pois muitas vezes a produção prefere o drama existencial ao terror chocante.

     

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    Comentários

    • João
      Crítica um tanto incoerente. Primeiro diz pode não agradar um público que procura por uma trama mais convencional... e depois continua repleta de sustos mais convencionais.
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