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    Espiral – O Legado de Jogos Mortais
    Críticas AdoroCinema
    2,5
    Regular
    Espiral – O Legado de Jogos Mortais

    Mudaram os jogos, mas os problemas permanecem

    por Bruno Botelho
    Em 2004, James WanLeigh Whannell lançaram Jogos Mortais, um filme de terror de baixo orçamento que acabou se tornando um sucesso de bilheteria. Assim surgia uma das franquias mais populares de terror no século 21, seguindo o estilo torture porn (traduzido para "pornô de tortura") – termo usado para definir um subgênero onde temos a combinação de violência gráfica e imagens sexualmente sugestivas. Com oito capítulos, que foram ficando com uma qualidade progressivamente mais duvidosa, a franquia chegou ao esgotamento de sua fórmula. Espiral - O Legado de Jogos Mortais (2021) surge com a ideia de renovação para esse universo, prometendo se diferenciar dos demais exemplares ao focar no suspense policial. 

    Na história do filme acompanhamos o detetive Ezekiel "Zeke" Banks (Chris Rock), que se une ao seu parceiro novato Willem (Max Minghella) para desvendar uma série de assassinatos terríveis que estão acontecendo na cidade. Durante as investigações, Zeke acaba se envolvendo no mórbido jogo do assassino. 

    Espiral - O Legado de Jogos Mortais não convence como suspense policial



    Desde o começo das divulgações, foi apresentada a ideia para o público de uma renovação e amadurecimento na saturada franquia Jogos Mortais com o lançamento de Espiral - O Legado de Jogos Mortais. O diretor Darren Lynn Bousman revelou sua grande influência em filmes de suspense policial, principalmente o clássico Seven - Os Sete Crimes Capitais (1995), de David Fincher. Porém, ele falha em todos os aspectos da narrativa e cinematografia.

    O conceito de suspense policial partiu do protagonista e produtor Chris Rock e foi passada para os roteiristas Josh Stolberg e Pete Goldfinger, com a missão de criarem um enredo denso, parecido com  Seven, mas conciliado com a mitologia de Jogos Mortais. A premissa é excelente, no papel, colocando um imitador dos famosos do serial killer Jigsaw – que está morto há muito tempo – para assassinar policiais corruptos. O problema entra na execução do filme, que não consegue convencer na criação de tensão e desenvolver a relação entre os personagens da corporação policial.

    A escolha de Chris Rock como protagonista é, definitivamente, um dos maiores erros da produção. O ator e comediante é conhecido por estrelar filmes de comédia Golpe Baixo (2005) e Gente Grande (2010), além da criação de Todo Mundo Odeia o Chris, e não encaixa no papel de "Zeke" Banks. Ele fica completamente perdido no tom do personagem, resultando em uma atuação problemática e caricata que peca nos momentos de drama e rende alívios cômicos sem necessidade.  

    Isso é agravado com a relação entre os personagens policiais, que não é plausível e desenvolvida de forma abrupta, fazendo com que o público não se envolva com nenhum deles. Ao invés de ser um suspense investigativo consistente e instigante, como são as suas inspirações, Espiral beira a sátiras como Corra Que a Polícia Vem Aí! (1988) e Anjos da Lei (2012) por causa de seu humor deslocado e dificuldade em aprofundar sua narrativa. Samuel L. Jackson acaba sendo a melhor coisa do filme, mesmo não tendo muito tempo de tela. Ele convence como o detetive Marcus Banks, especialmente no choque conturbado com seu filho "Zeke". 

    Armadilhas sangrentas são a melhor coisa do filme, ainda que sejam mais do mesmo na franquia



    Darren Lynn Bousman tem experiência na franquia – ele comandou Jogos Mortais 23IV – e não consegue inovar na direção desse novo capítulo, utilizando a mesma linguagem frenética dos filmes anteriores, o que não combina com o roteiro voltado para o suspense psicológico. Ele faz bastante uso da câmera tremida e close-up nos rostos do personagem, que acabam virando uma bagunça visual quando esses elementos são somados ao ritmo frenético da montagem e um argumento que transita rapidamente entre a parte policial para o terror clássico de Jogos Mortais – com a presença das armadilhas. Por falar nelas...

    A franquia Jogos Mortais ficou conhecida por suas armadilhas brutais e sangrentas. Elas estão presentes aqui, ainda que bem reduzidas, e acabam sendo a melhor coisa de Espiral – o que prova a falha na proposta de reinventar a franquia. Mesmo que elas não sejam nada inventivas (em alguns casos nem têm lógica), a experiência de Darren Lynn Bousman no terror ajudam a implementar um clima brutal e ameaçador.

    A parte final da produção melhora significativamente ao se encaminhar para seu desfecho e reviravolta sobre a identidade secreta do assassino de policiais, fazendo claros paralelos ainda mais explícitos com a trama de Seven - Os Sete Crimes Capitais. A revelação sobre o imitador Jigsaw é previsível, pois os roteiristas apresentam a todo momento dicas de quem é essa pessoa, mas é o ponto alto de toda a narrativa. Temos motivações plausíveis e um final que consegue prender a tensão do espectador, sem deixar de ser visceral. Aqui, finalmente, tivemos um vislumbre do conceito original da fusão entre suspense policial e mitologia Jogos Mortais, uma pena que acabou sendo tarde demais.

    Espiral - O Legado de Jogos Mortais tinha boas ideias para promover uma renovação na saturada franquia Jogos Mortais, levando ela para um caminho mais psicológico do suspense investigativo. Porém, o filme falha em todos os aspectos de sua execução, com uma narrativa rasa e personagens problemáticos, sobrando apenas alguns conceitos interessantes e elementos mais brutais que cansamos de assistir nos outros filmes de terror da saga.

     

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    Comentários

    • Alan Bitencourt
      Tanto potencial e é desperdiçado é triste.
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