Uma sociedade onde as memórias do passado da humanidade foram removidas, eliminadas, suprimidas. Um lugar onde as emoções mais instintivas são proibidas e onde você não é livre para sentir de verdade. A igualdade é plena e todas as diferenças que podem causar conflito são apagadas. Não há mais inveja, ódio, raiva, confusão, medo. Sobre os escombros da ruína e do aniquilamento da raça humana, uma nova sociedade se ergue. Mas, nela, não há alegria ou amor. Dor ou perda. Um regime totalitário de controle e repressão onde não há o que nos torna humanos de verdade e onde as respostas são escondidas pelos governantes (os anciões), que à todo custo tentam manter aquele sistema de regras absurdas e de falsa ordem. A desordem é temida, por isso é suprimida. Diante de tal realidade, um jovem põe tudo à prova ao questionar. Ao simplesmente se contrapor aquele sistema repressivo. Ele descobre que é diferente, que por alguma razão pode ver coisas que os demais não podem, como as cores. Jonas, o protagonista, é especial e é escolhido para ser o receptor de memórias.
Ele é capaz de enxergar coisas que ninguém mais pode. Ao longo de sua educação e de seu treinamento, ele tem seus sentimentos liberados, suas emoções são agora parte de sua vida e ele pode cometer crimes antes impensáveis (como mentir). Ele ganha uma responsabilidade importante e deve fazer algo com isso. O passado se revela para ele, com toda a sua complexidade, com toda a carga sentimental esmagadora de perdas e sofrimento, mas também de união, diversidade e realização profunda. Ele descobre a música, algo antes proibido. Jonas começa a entender o que nos faz humanos de verdade e que aquela aparente igualdade estava sufocando as pessoas. Ele aprende o valor do passado, do conflito e das tragédias e como isso é indispensável para pensar o futuro e para mudar a sociedade. Ele não é apenas um visionário. Ou um gênio. Um esquisito ou um inadequado. Ele é um doador de memórias e pode ver e compreender coisas impossíveis, proibidas e extremamente perigosas. A ordem e a harmonia (falsas) estão em xeque agora.
O Doador de Memórias é um filme muito intimista dedicado a mostrar o que faz de nós humanos, nossas experiências, compreensões, falhas, equívocos, emoções indescritíveis e, claro, as tão temidas memórias. Baseado no livro de Lois Lowry, é um filme necessário, emotivo, profundo, que nos faz questionar nossos ideais de sociedade e imaginar um mundo real onde todos possam ser livres, sem repressões ou supressões totalitárias sob a falsa alegação de uma igualdade ilusória. O filme é intenso e significativo, apresentando uma excelente direção e sacolejando nossa mente para a verdade de que o que nos torna humanos (seja positivo ou negativo) não deve ser ignorado, negligenciado ou suprimido. Mas administrado. Um filme que não pode ser subestimado ou ignorado. Como toda obra de arte, O Doador de Memórias incita ideias que, apesar de simples, são necessárias, nos levando a vislumbrar perspectivas que, se não proibitivas, são inusitadas. E é nisso que reside sua beleza.