Um roteiro é um conjunto de passos narrativos fundamentais construídos através de método e precisão acadêmica, apresentando um tema intrínseco inequívoco. Ou quase sempre. Pode parecer que O voo é um filme sobre alcoolismo. Mas não é. Não é um filme sobre nada, sobre tema algum. John Gatins simplesmente sentou o traseiro na cadeira e pôs-se a digitar. Outra característica fundamental de um roteiro, também presente na literatura em algum nível, é a necessidade de vasta pesquisa técnica a fim de executar a história. Nesse aspecto, John Gatins é um verdadeiro campeão, pois foi fundo em todos os aspectos da pesquisa que o permitiu redigir o filme. A pesquisa feita foi tão milimétrica que, mesmo sem tema, O Voo soa coeso e consistente, a ponto de brotarem sentidos profundos em cada cena conferindo uma ilusão de tema a tudo. Sendo assim, se formos falar de pesquisa, John Gatins é um verdadeiro líder.
Mas um filme não é apenas um conjunto de habilidades sutis de buscar e assimilar informações. O que parece é que O John está inventando algo novo a cada cena, deixando o diretor Robert Zemeckis em maus lençóis, e, apesar de conhecer intimamente seus personagens, ele os explora como se estivessem o tempo todo tendo epifanias profundas. Até o advogado escalado para defender Will Whitaker, cujas habilidades técnicas são inquestionáveis, parece estar agindo sem premeditação, como um artista de circo tentando se equilibrar em uma droga de corda bamba.
Sendo assim, John Gatins mostra com muita eficácia e uma alta dose de segurança que um filme sem tema pode, sim, ser bem amarrado. Apesar de um resultado estranho, dado que o roteiro parece ser escrito por uma pessoa influenciada por Ritalina, o filme cativa quem assiste, mas também os engana, dado que o protagonista de fato não é alcóolatra. Sim, assista com atenção e afinco e você perceberá isso. Ele não é viciado em álcool e esse não é o tema do filme, porque não há tema específico. Um grande experimento cinematográfico que nos choca e nos impressiona.
Será que o álcool pode nos inspirar a fazer coisas extraordinárias? Será que o álcool nos habilitaria a pilotar um avião quebrado como nenhum outro profissional poderia e fazer o impossível? Bem, há uma resposta simples a essas perguntas. O álcool não faz milagres. Ele não é fonte de epifanias e não produz em nós nenhum efeito remotamente genial. Whitaker só conseguiu inverter o avião porque ele é um piloto experiente e profissional. Então, o álcool deve ser descartado em nossa lista de alternativas criativas que visam derrubar os bloqueios cognitivos. Aquele branco que sentimos às vezes pode ser superado por um meio mais eficaz. Mas, no fim, o protagonista vai para a cadeia (peço perdão pelo spoiler) e lá ele se sente livre do que o atrapalha: o ressentimento que os outros nutrem por sua genialidade. Se houver algum tema nesse filme, com certeza seria esse. Mas temos que debater a respeito. Com uma boa dose de vodca.