Enfim estamos de volta à Terra-Média, após um longo e pesaroso ano, “ O Hobbit: A Desolação de Smaug “ chega aos cinemas para matar a saudade de todo e qualquer fã do universo criado por Tolkien e adaptado por Peter Jackson.
Comparando ao 1º filme, o Desolação tem algumas diferenças óbvias. Por se tratar de um filme que representa a metade de uma trilogia, a estória não tem um início e fim, o que alguns críticos apontaram como um erro, discordo. Não acho que alguém em sã consciência tenha ido conferir o filme sem ter visto a viagem inesperada, acho até que pouquíssimas pessoas que foram conferir o filme, ainda não tenham se familiarizado com a franquia do anel. Ou seja, o público sabe onde a trama parou, e que o seu fim só nos será apresentado em 2014.
Mas voltando ao assunto principal, Desolação tem aspectos muito mais sombrios do que seu antecessor, que buscava nos apresentar aos personagens e sua jornada. O clima se assemelha muito mais ao de Senhor dos Anéis. Com esse peso a menos, Peter absteve-se a trama e com isso teve muito mais liberdade para explorar os apêndices e relacionar o novo filme a trilogia do anel. Enquanto o arco principal(anões) se desenrola, nos é mostrado a missão secundária, mas não menos importante, de Gandalf para descobrir quem é o Necromante. Como temido, se tratava de Sauron, que continuava vivo, ao contrário do que Saruman defendia calorosamente. As cenas envolvendo Gandalf e a “sombra “ de Sauron são espetaculares, ali vemos claramente a clássica representação da luta bem x mal, ou luz x escuridão. E assim, já relaciona o filme com a antiga trilogia, mostrando como o poder de Sauron foi crescendo durante todo esse tempo em que o conselho branco o considerou derrotado.
Também temos a introdução de novos personagens, Beorn surge imponente e temível, apesar do pouco tempo em tela, o que impede de nos identificarmos mais com o personagem, mas quando o vemos como urso, fica claro que estamos diante de uma criatura extremamente poderosa. Mas se tratando de novas aparições, o destaque vai mesmo para os elfos, são graciosos, belos e esguios, mas isso em nada reflete em sua verdadeira natureza, perigosa e fatal. Orlando Bloom revive seu Legolas mais imaturo e perigoso, e ao mesmo tempo, mais “humano”, mostrando que mesmo os elfos, com sua imortalidade, beleza e força, podem sofrer desilusões e desejos carnais. Lee Pace vive com extrema dignidade o rei-elfo Thranduil, e através de gestos e roupas extravagantes, expõe sua vaidade e arrogância, mas com sua voz grave, deixa claro que apesar de tudo, possui um imenso poder.
Agora vamos a um ponto crítico, onde muitos fãs torceram o nariz, a elfa Tauriel, ausente no livro e acrescentada ao filme para Peter dar às mulheres alguém com quem se identificar. Confesso que nunca me mostrei receoso quanto sua escolha, pois “ In Peter We Trust “, mas se já estava confiante, sai do cinema maravilhado. Evangeline Lilly se sai maravilhosamente bem como elfa, é bela, poderosa, hábil e letal. Saí do cinema apaixonado pela personagem, e estou totalmente disposto a aceitá-la como se fosse uma personagem do livro. Posso dizer que essa invenção foi um ponto para o diretor, extremamente corajoso em sua escolha, afinal, contrariou muitos fãs, os principais geradores de bilheteria.
Assim como a Sociedade do Anel e quase todo início de trilogia com objetivo definido, “ Uma Jornada Inesperada “ sofreu com a falta de ritmo, problema que não vi neste segundo filme. Apesar de quase tão grande quanto o 1º, não senti o tempo passar, e isso se deve ao fato do ritmo irrefreável e da ação quase ininterrupta do filme, a paz parece inexistente. Só que ao contrário de Transformers, onde a ação simplesmente acontece para maravilhar o público com efeitos digitais, desolação nos brinda com algo crível e tenso. A ação acontece em prol de algo, a história anda pra frente e para atingir certo objetivo, os personagens tem de passar por obstáculos.
Após a esplendorosa fuga nos barris(espetáculo visual protagonizado por Legolas e Tauriel), chegamos a cidade lago e somos apresentados a outro personagem: Bard. Sendo muito mais explorado e desenvolvido do que no livro, e interpretado magistralmente por Luke Evans, Bard surge como um anti-herói ambíguo, que luta pelo bem do povo, mas que não hesita em aceitar barganha dos anões e assim os colocar na cidade sem nem ao menos pedir suas intenções.
Mas é na hora final do filme que vemos as melhores cenas, tudo que acontece do lado de fora da montanha é fiel ao livro, e então chegamos ao antológico encontro entre Bilbo e Smaug. O dragão, aliás, é um dos grandes feitos já realizados pela indústria de efeitos visuais, justificando seu título de magnífico. Smaug surge não apenas imponente, mas, através do vozeirão do Benedict Cumberbatch, inteligente, de certa forma até sábio, e emana uma áurea de medo. Todas as suas cenas são de grande tensão.
Assim, “ Desolação de Smaug “ é um deleite visual, Howard Shore cria uma trilha linda e emocionante(destaque para músicas élficas), e além de tudo tem-se um roteiro crível e sucinto, nos brindando com um grande filme. Agora nos resta aguardar pelo seu capítulo final, Peter faz da cena final um termômetro de ansiedade para aguardarmos “ There and Back Again “.
Obs: Como de praxe, evite o 3D, os óculos escurecem demais a tela, o que não beneficia em nada um filme em que a maioria das cenas se passa em ambientes já pouco iluminados. O 3D também prejudica muito a belíssima fotografia e o criativo figurino, além das estonteantes locações.