Nine
Críticas AdoroCinema
4,0
Muito bom
Nine

Cinema Italiano

por Francisco Russo

Nine é um filme de citações. A Bob Fosse, mestre dos musicais, pela densidade apresentada ao exibir o bloqueio criativo de Guido Contini (Daniel Day-Lewis), célebre diretor que se vê perdido em meio às figuras femininas que marcaram sua vida. A Fellini, cujo Oito e Meio é inspiração óbvia. E, em especial, ao cinema italiano. As locações, o estilo de vida, o sotaque, os carros, as paisagens, os cartazes de filmes, o Cinecittà, a letra da canção "Cinema Italiano"... todos são pequenas pílulas, deliciosamente encaixadas para que o cinéfilo mais atento as note e reconheça sua influência. Nine usa o cinema para fazer cinema. Apenas isto já é um bom motivo para assisti-lo.

Entretanto, o diretor Rob Marshall apresenta mais. Os cenários musicais grandiosos deixam explícita a origem na Broadway, bem como a influência do diretor de Chicago. Já a primeira cena musical é impactante, com a apresentação de todas as mulheres da vida de Guido Contini. Há outras ao longo de sua duração, várias delas de repercussão ainda maior. O solo de Penélope Cruz, por exemplo, faz com que sua personagem seja a personificação do sexo. A coreografia da canção "Be Italian" é belíssima, envolvendo o uso de areia. Marion Cotillard desfila sua linda voz em uma música triste sobre a vida de sua personagem com Guido. E há "Cinema Italiano", nítido videoclipe inserido no filme, que empolga e apresenta uma Kate Hudson estonteante.

Nine é também palco para que os vários talentos nele reunidos demonstrem o porquê de serem vencedores do Oscar. Daniel Day-Lewis compõe um Guido em crise, às vezes agindo como um menino assustado. Sempre perfeccionista, aprendeu italiano para as filmagens. Este pequeno detalhe transparece no sotaque criado, inserindo divertidos cacos na língua materna de Fellini. Penélope Cruz e Marion Cotillard também se destacam, apesar de serem também auxiliadas pela variedade emocional que suas personagens passam ao longo da trama. E Kate Hudson enfim consegue se destacar novamente, algo que não acontecia desde Quase Famosos.

Curiosamente, quem destoa em cena é justamente aquela que mais tem a ver com o cinema italiano: Sophia Loren. Sua presença é uma grande homenagem à era de ouro do cinema local, mas apenas isto. Suas aparições têm mais valor simbólico do que de excelência.

Nine é um filme extremamente charmoso, que aborda os caprichos e excessos cometidos pela indústria cinematográfica, em especial a retratada. O lado sexual é onipresente, seja pela imaginação de Guido ou pelos próprios atos dos personagens. Em determinado trecho do filme, bastante simbólico, um religioso diz que a imaginação das pessoas deve ser educada, para evitar "pensamentos impuros". A resposta de Guido é não apenas a ele, mas para o público em geral: "como?" A revolução sexual é mais um tema abordado, enfocando seus prós e contras de forma subjetiva. São pequenos detalhes que fazem deste um filme especial, um musical com algo mais a apresentar além de boas canções e coreografias. Excelente.

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