Maldição da Múmia se ancora excessivamente em A Morte do Demônio e entrega uma incursão pouco inspirada
por Rafael FelizardoSe você é apaixonado por terror como este que vos escreve, definitivamente conhece Lee Cronin. Em 2018, o cineasta ficou responsável por assinar A Morte do Demônio: A Ascensão, um filme aclamado que faz parte de uma das franquias mais cultuadas do gênero.
Dito isso, 2026 marca o retorno de Cronin aos holofotes, agora, com Maldição da Múmia. O projeto surge com a proposta de revisitar um dos mitos mais emblemáticos do cinema sobrenatural, sob uma nova perspectiva, deslocando-o dos cenários grandiosos do passado para um contexto mais íntimo e contemporâneo.
A trama gira em torno de uma família marcada por uma tragédia inexplicável: a filha de um jornalista norte-americano é sequestrada no Egito e é dada como desaparecida. Oito anos depois, porém, ela reaparece de forma chocante, após ser encontrada dentro de um antigo sarcófago.
Assim, o que deveria ser um reencontro emocionante rapidamente se transforma em um pesadelo, visto que a jovem retorna profundamente alterada. À medida que eventos cada vez mais perturbadores se intensificam, a família percebe que algo antigo e maligno foi trazido de volta à vida.
Para a tristeza dos terrormaníacos, Maldição da Múmia parece menos interessado em construir uma identidade própria e mais inclinado a repetir a cartilha já estabelecida por Cronin em A Morte do Demônio: A Ascensão. Entretanto, se Evil Dead brilha em sua proposta, Maldição da Múmia parece muitas das vezes impotente, limitado a um roteiro insosso e frequentemente preguiçoso.
Maldição da Múmia até abraça o exagero, a violência estilizada e o caos como essência, mas a carência de substância textual acaba prejudicando o projeto como um todo. No geral, Cronin cria um filme que, em vez de potencializar seu próprio conceito, parece preso a uma fórmula que já funcionou antes, mas que, neste contexto, perde parte de seu impacto e também originalidade.
Sensorialmente, o espectador é mergulhado em um festival gore de olhos esbugalhados, dentes desconcertantes, fluídos corporais e sons que propositalmente incomodam, além de câmeras fechadas que mostram o bom trabalho do design de produção. Maldição da Múmia também conta com um humor que não é dos piores, ajudando a quebrar o gelo em momentos mais densos.
Warner Bros. Pictures
Desde o início de sua divulgação, uma das propagandas de Maldição da Múmia era de que o produto em questão seria diferente dos demais filmes de múmia espalhados por aí. A proposta de Cronin era de levar a entidade maligna para dentro do lar e da vida cotidiana mais comum, rompendo com símbolos de grandiosidade, riqueza, monarquia e hierarquia. De fato, o longa cumpre com seu objetivo, posicionando a múmia no seio da família vivida por Jack Reynor, Laia Costa, Shylo Molina e Billie Roy, em detrimento de dinastias faraônicas.
"Quando você pensa em múmias da maneira tradicional, pensa em faraós, reis, rainhas, pessoas ricas. Uma das coisas que discutimos logo no início foi: e se fossem pessoas comuns?”, colocou Lee Cronin em entrevista para a Entertainment Weekly.
Contudo, por mais que o conceito aposte em uma "originalidade" até certo ponto interessante, sua execução deixa lacunas evidentes - sobretudo ao não explorar com a devida profundidade os conflitos familiares. É verdade que a ideia de relações parentais fragilizadas é abordada em certo momento do desenvolvimento, entretanto, a aplicação arranha apenas a superfície, resultando em uma obra que não alcança todo o potencial sugerido.
No fim das contas, presenciamos um enredo familiar subaproveitado, diluído em pouco mais de duas horas de duração, mas que ao menos apresenta um ritmo ágil, sem dar muito espaço para que o espectador perca o foco.
Warner Bros. Pictures
A pergunta acima é daquelas que só se respondem com outra indagação: quanto tempo livre você tem? É provável que ao ler este texto, haja filmes mais interessantes em cartaz em um cinema próximo, tornando a escolha por Maldição da Múmia menos uma questão de entusiasmo e mais de conveniência.
Como ponto positivo, o longa abandona os sustos fáceis para apostar no grotesco como forma de desconforto - elemento que pode pesar para quem não está acostumado com o subgênero gore. Como dito, a narrativa carece de densidade e originalidade, apoiando-se em A Morte do Demônio: A Ascensão em uma tentativa de sucesso.
E para finalizar, Maldição da Múmia até tem êxito em empilhar cenas desconfortáveis para a audiência, mas falha em transformar o produto final em algo mais coeso, parecendo uma sucessão de momentos soltos que pouco evoluem narrativamente.