Extermínio: O Templo dos Ossos
Críticas AdoroCinema
4,0
Muito bom
Extermínio: O Templo dos Ossos

Extermínio: O Templo dos Ossos expande franquia de forma ousada e brutal, com atuações surpreendentes de Ralph Fiennes e Jack O’Connell

por Bruno Botelho dos Santos

Em 2002, Extermínio revolucionou os filmes de zumbi, com o diretor Danny Boyle e o roteirista Alex Garland apresentando a queda da sociedade por uma infecção viral, focando na luta por sobrevivência neste mundo em colapso. O filme foi um sucesso, influenciando Madrugada dos Mortos, Todo Mundo Quase Morto, The Walking Dead e Guerra Mundial Z com sua narrativa frenética e infectados velozes, e também ganhou uma continuação, Extermínio 2 (2007) – com envolvimento de Boyle e Garland apenas como produtores.

Muitos anos desde o original, a dupla retornou ao comando da franquia de terror e ficção científica em Extermínio 3: A Evolução (2025), primeiro capítulo de uma trilogia. O filme explora a decadência da sociedade décadas após o surgimento do vírus, com o Reino Unido isolado. Após nossa reintrodução ao mundo pós-apocalíptico cheio de camadas e violência, Nia DaCosta assume a direção no lugar de Danny Boyle em Extermínio: O Templo dos Ossos (2026), uma continuação direta que expande a franquia de forma ousada, emocionante e brutal.

Qual é a história de Extermínio: O Templo dos Ossos?

Sony Pictures

Extermínio: O Templo dos Ossos acompanha Dr. Kelson (Ralph Fiennes), ex-médico humanista que vive isolado, e Jimmy Crystal (Jack O’Connell), líder de uma seita aterrorizante. Enquanto Dr. Kelson arca com as consequências de uma relação chocante capaz de despertar uma mudança sem precedentes no mundo em que vivem, o contato de Spike (Alfie Williams) e Jimmy se torna um pesadelo inescapável. Se antes os infectados eram a maior ameaça para a sobrevivência humana, agora, a insensibilidade e a barbárie tomam conta de maneira brutal.

O Templo dos Ossos expande o universo como uma sequência ousada e violenta

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Após o sucesso e retorno da franquia com Extermínio 3: A Evolução, Nia DaCosta tinha uma missão nada fácil nas mãos de continuar essa história e também assumir a direção no lugar de Danny Boyle, o que ela faz com muita personalidade guiada pelo roteiro assinado novamente por Alex Garland.

Enquanto, no filme anterior, Garland teve que reintroduzir o público neste universo pós-apocalíptico e suas particularidades caóticas, ele tem mais liberdade no roteiro para expandir esse mundo em Extermínio: O Templo dos Ossos e mergulhar em seus personagens – ainda que tenha uma progressão mais lenta. Aqui, surge a escolha certeira de montar a continuação em cima de dois núcleos distintos: Dr. Kelson (Ralph Fiennes) e seu Templo dos Ossos, e Jimmy Crystal (Jack O’Connell) e sua seita.

Isso faz com que a narrativa tenha um contraste interessante e ousado entre duas personalidades tão diferentes e conflitantes que compõem esta sociedade quebrada. Por um lado, vemos a empatia e os resquícios de humanidade nas ações de Dr. Kelson, enquanto Jimmy Crystal evidencia toda crueldade e violência que tomou conta do mundo.

É justamente pelo personagem de Jack O’Connell que Nia DaCosta aposta no terror, fazendo seu retorno ao gênero que ela tinha se destacado com A Lenda de Candyman (2021) – após uma passagem fracassada pelo Universo Cinematográfico Marvel em As Marvels (2023), e recentemente no aclamado Hedda (2025). Ela não poupa cenas sangrentas e chocantes pelas atitudes sádicas da seita do Jimmy Crystal, além de mortes e ataques violentos dos infectados, o que faz de Extermínio: O Templo dos Ossos o capítulo mais brutal da franquia.

Ralph Fiennes e Jack O’Connell brilham em Extermínio

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Indicado ao Oscar três vezes e eternizado como o vilão Lord Voldemort na franquia Harry Potter, Ralph Fiennes é um dos melhores (e mais versáteis) atores da atualidade. Mesmo com uma participação curta, ele foi uma das melhores coisas de Extermínio 3: A Evolução com suas reflexões sobre mortalidade e humanidade e retorna como Dr. Kelson em O Templo dos Ossos.

Agora, um dos protagonistas da continuação e com mais tempo para brilhar e se aprofundar no personagem. Kelson busca a humanidade em meio ao caos e, após desenvolver uma relação inusitada com Alfa/Sansão (Chi Lewis-Parry) que tem frutos para a mitologia da franquia, comprova como a paz e o afeto são um caminho para seguir com a vida neste mundo marcado pela brutalidade e desumanização. Ralph Fiennes emociona com uma atuação tão empática e dá show em uma das melhores cenas do filme: uma performance corporal e teatral insana e hilária embalada por "The Number of the Beast", do Iron Maiden.

Falando no Diabo, Jimmy Crystal é a prova de como a humanidade pode ser mais nociva do que qualquer infectado. Assim como o vampiro irlandês Remmick de Pecadores (2025), Jack O'Connell funciona perfeitamente no papel de vilões caricatos e sinistros. O personagem impressiona como o psicopata líder de uma seita satânica em Extermínio e suas ações cruéis, que são ainda mais brutais quando acompanhamos pela jornada de Spike, interpretado por Alfie Williams, entrando em contato com esse mundo de terror e perdendo sua inocência.

O roteiro de Alex Garland é muito certeiro em trabalhar o comportamento autoritário de Jimmy Crystal, que usa medo e violência como ferramenta de controle nesta nova sociedade, traçando paralelos no mundo real com líderes fascistas e ascensão da extrema-direita. Afinal, o fascismo se aproveita de tempos de crise para exercer domínio pelo pânico e ódio.

Em busca de sentido no mundo pós-apocalíptico

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Em alguns dos momentos mais belos de Extermínio: O Templo dos Ossos, temos a conexão de Dr. Kelson com a música. O personagem de Ralph Fiennes aparece escutando vinis de Duran Duran, Iron Maiden e Radiohead não somente como uma nostalgia do passado, mas uma forma de se reconectar com uma humanidade perdida, uma sociedade que ficou para trás e segue quebrada, mas que ele tem esperança em mantê-la viva.

Esse é um sentimento que fica expresso nos versos da música “Ordinary World”, clássico do Duran Duran nos anos 90 que divide a trilha sonora com as composições eletrizantes de Hildur Guðnadóttir, vencedora do Oscar por Coringa (2019).

"Onde está a vida que eu reconheço? Mas eu não vou chorar pelo ontem, existe um mundo comum Que, de algum modo, eu preciso encontrar" — Ordinary World, Duran Duran

Essa busca por sentido em meio ao caos nos move. O Templo dos Ossos é tão poderoso, mais que uma simples continuação e capítulo do meio de uma trilogia, pela força de suas temáticas e como elas são apresentadas no contraste visceral entre os personagens de Ralph Fiennes e Jack O’Connell. Quando o medo toma conta, é importante deixar nosso lado humano prevalecer contra tamanha violência e na tentativa de construção de um novo mundo.

Vale a pena assistir Extermínio: O Templo dos Ossos?

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Extermínio: O Templo dos Ossos é uma continuação brutal e ousada que se aprofunda nos temas de humanidade, sobrevivência e violência apresentados no capítulo anterior. O filme expande a mitologia da franquia, focando em dois personagens que mostram os lados mais humanos e perversos da sociedade, com atuações impressionantes de Ralph Fiennes e Jack O’Connell.

Nia DaCosta deixa sua marca em Extermínio. Sem copiar o estilo frenético de Danny Boyle, ela imprime suas próprias características na construção de tensão, terror visceral e mergulho no psicológico dos personagens, e deixa a franquia bem encaminhada para sua conclusão com o retorno de Cillian Murphyprotagonista do filme original de 2002 que está de volta e terá um papel importante no final da trilogia.

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