A filmografia de Jared Leto é impressionante. Embora muitos considerem Blade Runner 2049 seu melhor filme, Sr. Ninguém consegue surpreender mais.
Há obras que dividem opiniões desde o lançamento, mas que, para muitos espectadores, acabam se transformando em verdadeiros clássicos cult. É exatamente o caso de Sr. Ninguém, ficção científica estrelada por Jared Leto que mistura romance, drama, fantasia e reflexões filosóficas em uma narrativa tão ambiciosa quanto emocionante.
A carreira de Jared Leto reúne alguns dos filmes mais marcantes do início dos anos 2000. Em poucos anos, o ator participou de três verdadeiras obras-primas: Clube da Luta, Psicopata Americano e Réquiem para um Sonho. Além desses títulos — e de sucessos como Clube de Compras Dallas e Blade Runner 2049 —, há outro longa que merece ser lembrado: Sr. Ninguém.
Antes de embarcar nessa experiência, porém, vale um aviso: trata-se de um filme de narrativa complexa, que acompanha três possíveis versões da vida de um mesmo personagem.
A estrutura fragmentada e as constantes mudanças entre diferentes realidades podem causar confusão, já que nem sempre fica claro em qual universo a história está acontecendo. Mesmo assim, quem decidir dar uma chance ao longa, protagonizado por Jared Leto e Diane Kruger e que está disponível para compra ou aluguel no Prime Video, encontrará uma das experiências mais originais da ficção científica moderna.
Sr. Ninguém: Uma história ambientada 70 anos no futuro
A trama se passa em um futuro em que a humanidade descobriu a fórmula da imortalidade. Todos os seres humanos deixaram de envelhecer — exceto um único homem. Em 2092, Nemo Nobody (Jared Leto) tem 118 anos e está prestes a morrer, tornando-se o último mortal da Terra. Em seus momentos finais, ele relembra sua vida enquanto conversa, de forma enigmática, com um jornalista.
Tudo começa na infância de Nemo, quando seus pais se separam e ele precisa tomar uma decisão impossível: permanecer com o pai (Rhys Ifans) ou seguir com a mãe (Natasha Little). A partir desse instante, tempo e espaço deixam de obedecer às regras convencionais, dando origem a três possíveis linhas do tempo, três destinos diferentes e três versões da vida de Nemo — todas conectadas ao seu último dia de existência.
Ficção científica com fortes reflexões filosóficas
A união entre ficção científica e filosofia não é novidade no cinema. Clássicos como Matrix e Blade Runner exploram questões existenciais que continuam sendo debatidas anos após seus lançamentos. Sr. Ninguém segue esse mesmo caminho.
Ao longo da narrativa, o filme aborda temas como imortalidade, vidas alternativas, o efeito borboleta e o livre-arbítrio, combinando essas ideias de maneira profundamente emocional. Por isso, o longa vai muito além da ficção científica. É também um drama, uma história de amor e, em diversos momentos, uma fantasia repleta de simbolismos.
O diretor utiliza diferentes recursos visuais e narrativos ao longo do filme. Nos primeiros minutos, por exemplo, aparecem imagens de experimentos científicos com animais. Em outros momentos, a quarta parede é quebrada e até materiais didáticos surgem para explicar conceitos como o efeito borboleta.
Apesar desse estilo experimental, o coração da história é bastante simples: a inocência da infância, o desejo de ser amado e a dificuldade de tomar decisões que mudam completamente o rumo da vida. A escolha está no centro de toda a narrativa.
Ainda assim, Sr. Ninguém está longe de ser um filme inteiramente melancólico. Depois de cerca de meia hora, quando a primeira grande história de amor de Nemo ganha espaço, a narrativa se torna mais acessível e o experimentalismo passa a dividir espaço com momentos surpreendentemente leves e até românticos, lembrando uma charmosa comédia romântica.
Uma experiência cinematográfica única
"Como seria minha vida se eu tivesse feito uma escolha diferente?" Poucos filmes exploraram essa pergunta de maneira tão completa quanto Sr. Ninguém. Com uma direção sensível, fotografia marcante e uma trilha sonora que combina músicas como Where Is My Mind, dos Pixies, com delicadas composições para piano, o longa constrói uma verdadeira poesia cinematográfica.
O resultado funciona em diferentes níveis. Como romance, entrega uma história capaz de rivalizar com grandes clássicos do gênero. Como ficção científica, oferece ideias suficientemente densas para provocar reflexão. E como drama, conduz o espectador por uma intensa montanha-russa emocional, alternando momentos de felicidade, dor e esperança.
Ao final de seus 140 minutos — que desafiam tanto a atenção quanto a percepção do público —, Sr. Ninguém recompensa quem embarca nessa jornada com uma experiência inesquecível e um daqueles filmes que permanecem na memória muito tempo depois dos créditos finais.