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    Friends é cópia de outra série dos anos 90? Conheça Living Single e tire suas conclusões

    Friends foi ao ar pela primeira vez em 1994 e se tornou instantaneamente um sucesso de público, quebrando recordes de audiência. Mas muitos dos elementos que fizeram da série um fenômeno, partiram de uma outra série menos conhecida.

    Living Single foi uma série de comédia do canal americano Fox exibida entre 1993 e 1998. Criada pela roteirista e produtora Yvette Lee Bowser, conhecida por produzir Dear White People da Netflix, e estrelada pela atriz e rapper Queen Latifah, Living Single foi um enorme sucesso entre jovens afro-americanos por representá-los de uma forma positiva e fora do contexto de violência como muitos filmes e séries faziam na época. A comédia ainda fez história por ter sido a primeira série da TV americana desenvolvida por uma mulher negra e exibida no horário nobre.

    Além disso, o sitcom focava sua narrativa no cotidiano e vida pessoal dos personagens (suas carreiras, amizades e relacionamentos amorosos), ao invés de abordar apenas racismo como muitos produções com protagonistas negros fazem. Embora a produção tenha tido sucesso na estreia, pouco tempo depois ela acabou sendo ignorada quando uma outra série muito parecida surgiu, cuja única diferença era seu elenco inteiramente branco.

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    FRIENDS: INSPIRAÇÃO OU CÓPIA DE LIVING SINGLE?

    Friends é, sem dúvida, uma das séries mais populares dos últimos trinta anos, tendo se tornado uma das sitcoms mais queridinhas pelo mundo. Foi um grande sucesso durante a década de 1990 e seu legado permanece até hoje, conquistando fãs cada vez mais jovens e sendo reprisada incessantemente nos canais a cabo. A série protagonizada por Jennifer Aniston se tornou um fenômeno de público se eternizando para sempre na cultura popular com momentos marcantes como a música “smelly cat” da Phoebe, e bordões inesquecíveis como a cantada de Joey: “How you doin’?”.

    Porém, um ano antes da estreia de Friends, o público norte-americano foi apresentado a um grupo de amigos muito similar ao da série de Marta Kauffman e David Crane. Entre os protagonistas tínhamos uma jovem mimada e viciada em compras, um rapaz sarcástico e metido a engraçadinho, uma hippie bem-humorada e um pouco estranha e a anfitriã e mãezona de todos os outros. Parece familiar? Não é pura coincidência. Quase todos os arquétipos de personagens de Friends foram retirados de Living Single. Embora Kauffman e Crane neguem qualquer cópia intencional, é impossível não fazer paralelos entre as duas, já que as personalidades dos personagens e as dinâmicas entre eles são extremamente parecidas.

    Embora essas comparações não sejam recentes, a questão voltou com força em 2016 quando Queen Latifah comentou sobre as semelhanças entre as duas produções durante uma entrevista no programa de James Corden. A atriz ainda ressalta que após o lançamento de Living Single, o então presidente da NBC, canal responsável por Friends, comentou em uma reportagem que se ele pudesse ter alguma série de outro canal em sua programação seria, com certeza, a de Latifah. E menos de um ano depois Friends surgiu na NBC. Então fica claro, que a existência do sitcom se deve muito a Living Single.

    Houve ainda mais repercussão ano passado depois que o ator David Schwimmer, o Ross de Friends, afirmou em uma entrevista que gostaria de ver um reboot de Friends com um elenco racialmente diverso. A atriz Erika Alexander, que interpretou Maxine em Living Single, questionou a fala do ator por ignorar completamente a existência da série de Yvette Lee Bowser. Schwimmer, eventualmente, se desculpou pelo comentário, mas as redes sociais pipocaram com questionamentos sobre o caso, com muitos usuários reafirmando que a série de Schwimmer copiou Living Single.

    O ator T.C. Carson também expôs algumas controvérsias sobre a produção das duas séries. Ao fim da quarta temporada de Living Single, ele foi demitido do elenco e uma das razões foi ter reclamado sobre a falta de investimento no programa em comparação a Friends já que as duas séries pertenciam ao mesmo estúdio. Ele comentou que o orçamento da comédia estrelada por Aniston era absurdamente maior desde o início e pouquíssimo era investido em Living Single, o que o ator não aceitou passivamente, resultando em sua demissão.

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    QUEBRANDO ESTEREÓTIPOS RACIAIS E DE GÊNERO

    Muitas produções, especialmente nos últimos vinte anos, passaram a colocar em seu elenco pelo menos um ou dois personagens negros ou alguma outra minoria racial para dar a falsa sensação de diversidade. Mas, na verdade, essa atitude só auxilia na reprodução de vários estereótipos raciais que fazem com que grupos minoritários sejam vistos como todos iguais. Séries como Glee, por exemplo, importante por explorar a diversidade em outros aspectos, pecou ao não dar protagonismo a seus personagens racializados que ficavam sempre na sombra dos protagonistas brancos. É o caso de Mercedes, Tina e Unique, que nunca tiveram a chance de brilhar tanto quanto Rachel, Kurt, Finn e o resto do elenco branco.

    Já séries como Living Single ajudaram a expandir a visão que o público tinha de pessoas negras, já que apresentava uma variedade enorme de personagens afro-americanos com personalidades e comportamentos distintos, reiterando que a comunidade negra é plural e diversa e não uma massa homogênea. E mesmo tendo sido lançada há quase trinta anos, Living Single segue como pioneira em representatividade, afinal poucas produções até hoje realmente se esforçam para representar minorias de maneira complexa. E muitas séries e filmes acabam por centrar a narrativa de seus personagens em torno da violência que eles sofrem diariamente, como se o racismo resumisse a existência de pessoas negras. Mas a comédia de Queen Latifah se empenhou para representar jovens negros ocupando todos os espaços possíveis ao invés de resumí-los na opressão que sofrem.

    Living Single também foi especialmente importante na representação de mulheres negras, que até então ocupavam espaços bem específicos na televisão. A maioria dos papéis reservados para elas eram de esposas, mães ou filhas em comédias como Um Maluco no PedaçoThe Jeffersons e The Cosby Show. Raramente víamos produções onde personagens femininas negras tinham como foco no enredo suas carreiras ou suas vidas pessoais para além da família. O fato de Living Single ter sido criada por uma mulher negra influenciou muito em como a série apresentava esse grupo. O sitcom foi relevante em expandir o espaço que mulheres negras poderiam ocupar na televisão, tanto na frente quanto atrás das câmeras, e abriu caminho para outras produções com protagonistas negras independentes como Insecure e Chewing Gum.

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    LIVING SINGLE DEIXOU UM LEGADO

    Embora não tenha tido o merecido reconhecimento na época, Living Single foi uma produção extremamente revolucionária, abrindo espaço para várias produções com protagonismo negro na televisão. A série reformulou como pessoas negras eram representadas no mainstream e ajudou a recriar a imagem dessa população, particularmente os jovens, no imaginário social. Além disso, subverteu vários estereótipos sobre mulheres negras, reafirmando como elas são pessoas multidimensionais com personalidades distintas. Living Single foi um grande sucesso entre jovens negros porque eles conseguiam se ver facilmente nos personagens. Como disse a própria criadora da série: “as pessoas sempre me falam que elas se identificam com um dos personagens ou que eles se parecem com alguém que conhecem: um amigo ou um parente”. Então, a comédia reafirmou como representatividade na mídia é algo bastante relevante.

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