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    O Sexto Sentido, 20 anos: Como M. Night Shyamalan tornou-se vítima do próprio sucesso (Análise)
    Por Ygor Palopoli — 03/08/2019 às 09:47
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    Ou: como o plot twist virou uma muleta para o cinema atual.

    Bruce Willis e Olivia Williams chegam em casa depois de um dia longo e cansativo. Eles conversam, dançam e trocam carícias, mas rapidamente são interrompidos por um homem transtornado que dá um tiro no estômago de Bruce. Tela preta. Corte transicional para o ano seguinte. Tudo está bem. Não deveria, mas é estranho começar a falar a respeito de O Sexto Sentido pelo início, e não pelo final, tendo em vista o estigma de reviravolta clássica que se criou ao redor da produção de M. Night Shyamalan, que completa 20 anos de existência em 2019.

    Para começar a conversa, é importante ressaltar a subversão que torna O Sexto Sentido tão icônico e resistente ao teste do tempo: pense nos filmes que você assiste hoje em dia — especialmente os que possuem alguma grande revelação ao final de sua trama. Quanto tempo eles passam desenvolvendo seus personagens e criando um terrotório até chegar no enredo em si? Aqui, por exemplo, o pequeno Cole demorou exatamente 50 minutos para proferir a frase: "eu vejo gente morta".

    Já que a nossa intenção é analisar os impactos na indústria cinematográfica de uma das primeiras obras do então cineasta iniciante M. Night Shyamalan, é válido traçar um paralelo sobre as últimas duas décadas em sua própria carreira para evidenciar o quão influente (para o lado bom e ruim) foi a história do garotinho que via e conversava com espíritos. 

    OS PRIMEIROS FANTASMAS
    Buena Vista Pictures

    Hora de voltarmos no tempo. Encontrar o elenco perfeito é sempre uma questão complicada, mas às vezes o destino dá uma força. Bruce Willis, que sempre teve um temperamento difícil dentro dos sets de filmagem, na ocasião, havia acabado de ser demitido de The Broadway Brawler, longa da Disney que jamais saiu do papel. A questão é que a multimilionária havia fechado parceria com a Buena Vista que, por questões contratuais, terminou "ganhando" o astro como uma espécie de fator conciliador. 

    Sendo assim, Willis acabou precisando atuar em um filme qualquer de orçamento modesto, sob o comando de um diretor desconhecido, com um roteiro meio maluco. Como coadjuvantes, estavam Toni Collette, uma moça que havia feito pouco mais de dez filmes e um garoto de 10 anos chamado Haley Joel Osment, cujos maiores feitos profissionais envolviam participações pontuais em séries e comerciais: seu principal feito, até então, havia sido interpretar o filho de Tom Hanks em Forrest Gump. Com um início tão desastroso, era de se esperar uma verdadeira tragédia anunciada. Bem, a vida nos surpreende de vez em quando.

    Aqueles que já possuíam idade suficiente para assistir O Sexto Sentido sem que tivessem um ataque de nervos — conceito subjetivo —, devem se lembrar de como o filme foi vendido naturalmente pelo boca a boca na época. Com pouquíssima verba direcionada para campanhas publicitárias, o pequeno projeto de Shyamalan revelou-se uma verdadeira lição sobre marketing viral (assim como um outro certo filme lançado no mesmo ano). Mas, a partir daquela noite de agosto de 1999, muitos conceitos passariam a ser reconsiderados na forma como o público consumia películas de terror.

    AS ASSOMBRAÇÕES
    Buena Vista Pictures

    Em prol de uma leitura mais dinâmica e convidativa, vamos pular o óbvio. Sim, O Sexto Sentido foi um sucesso absoluto. Sim, Joel Osment se tornou o ator mirim mais cobiçado de Hollywood. Sim, "eu vejo gente morta" ficou marcado para sempre na cultura popular. No entanto, por mais que não pareça, este não é o ponto.

    Sabe aquele ator que faz um vilão tão, mas tão marcante em uma novela, que passa a ser ameaçado de morte pelas pacatas senhorinhas que o veem caminhando na Praia de Copacabana? Dadas as devidas proporções e retirando os devidos exageros, Shyamalan acabou passando pela mesma coisa. 

    Vítima de sua própria excelência, o cineasta elevou as expectativas a um nível tão alto que não conseguiu mais sair da própria zona de inovação. Hoje conhecido como um diretor "8 ou 80" — alternando constantemente entre o excelente e o horrível —, ele pareceu capaz de manter o bom nível por alguns anos. Atente-se à seguinte ordem: O Sexto Sentido, Corpo FechadoSinais e A Vila. Lançados todos entre 1999 e 2004, é possível dizer, mesmo com opiniões contundentes, que todos são filmes, no mínimo, interessantes. Embora uma queda considerável já possa ter sido observada neste último, protagonizado por Bryce Dallas Howard e Joaquin Phoenix

    Agora, vamos para mais uma rodada. Preparados? A Dama na Água, Fim dos TemposO Último Mestre do Ar e Depois da Terra. Produzidos em sequência, entre 2006 e 2013, para título de comparação, a aprovação de todos estes cinco filmes, somados, no Rotten Tomatoes, chega apenas até a metade da nota de O Sexto Sentido. O mais bem avaliado deles, A Dama na Água, possui 22% de índice positivo. Como um diretor vai de uma sequência tão fantástica para oito anos de filmes extremamente duvidosos? A resposta já está no ar há alguns parágrafos.

    A VIDA APÓS A MORTE
    JESSICA KOURKOUNIS/UNIVERSAL PICTURES

    Como o cineasta indiano deu a volta por cima em sua carreira? Assumindo novamente a ótica intimista. Com um orçamento US$ 130 milhões mais barato que Depois da Terra, uma história muito menos épica e o retorno de suas raízes aterrorizantes, A Visita, de 2015, foi o impulso necessário para que tudo voltasse ao normal. Logo depois, Fragmentado foi lançado, e a mídia rapidamente alarmou-se fazendo o que sempre fez de melhor: "O retorno de M. Night Shyamalan" era a grande pauta do momento.

    Enumerar os impactos de O Sexto Sentido dentro do universo cinematográfico levaria muito mais tempo e um texto ainda maior que este. Mas, se existe alguma métrica valiosa para analistas do mercado, ela se chama sucesso (com todo o perdão ao teor motivacional e empreendedor da frase, é claro). Neste caso em específico, o ponto a ser destacado por nós é o uso do plot twist. Não é como se Shyamalan tivesse reinventado o conceito de reviravolta, mas seus filmes inegavelmente contribuíram bastante para a propagação do recurso após os anos 2000. O problema começa quando tantas obras passam a existir em função de uma virada no enredo, e não o contrário. 

    Apesar da vontade de citar nominalmente alguns exemplos práticos, é melhor apenas fornecer apenas um panorama geral: longas que não se sustentam sozinhos arquitetam um plot twist tirado de lugar nenhum para passar a imagem de uma suposta inteligência acima da média por trás das decisões de roteiro. Não entendam mal, de lá para cá tivemos excelentes reviravoltas nos cinemas. O que as revelações de Clube da Luta, Amnésia, Oldboy, Cidade dos SonhosIlha do MedoA Pele que Habito possuem em comum? Elas não são revelações. Elas sempre estiveram lá, e sempre influenciaram nas decisões dos personagens e na condução da trama.

    Bruce Willis estava morto o tempo todo. Isso não foi citado em nenhum momento desta matéria. Mas esteve aqui desde o início.

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    Comentários
    • Krauser
      Como bem pontuado no texto, os plot twits não devem ser usados como muleta. No caso do Shyamalan, acho alguns de seus filmes clássicos e em contrapartida outros uma droga, tem horas que não consigo acreditar como vieram da mesma pessoa. Aprendi a não criar expectativas para um filme dele, já que sua carreira é muito irregular. Dito isso, O Sexto Sentido influenciou a indústria para o bem e para o mal e também a próprio trabalho do Shyamalan.
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