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    A Bruxa de Blair, 20 anos: Como o filme influenciou o cinema de terror e o marketing na internet (Análise)
    Por Ygor Palopoli — 27 de jul. de 2019 às 10:30
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    A revolução das filmagens perdidas.

    Vire de frente para a parede se você quer ficar rico. Como transformar um investimento de US$ 30 mil em um retorno de alguns milhões de dólares em um espaço de apenas duas horas? Para a dupla Eduardo Sanchez e Daniel Myrick, naquela fatídica noite em janeiro de 1999, no Festival de Sundance, bastou uma rápida exibição de seu primeiro projeto cinematográfico, A Bruxa de Blair, para que a Artisan Entertainment lhes oferecesse um valoroso contrato milionário de distribuição.

    Na época, os dois jovens cineastas talvez sequer imaginassem a grandiosidade de sua influência no subgênero do found footage, mas eles estavam prestes a causar uma silenciosa revolução na forma como nós, espectadores, consumíamos filmes de terror. Destrinchar todas as vertentes e variações deste impacto requer uma volta no tempo em alguns anos para entender que, ao contrário do que sugere o parágrafo anterior, foi necessário muito mais que 120 minutos para começar a construir o império invisível das filmagens perdidas. 

    OS PRIMEIROS RABISCOS
    Artisan Entertainment

    No ano de 1990, ainda adolescentes, Sanchez e Myrick tiveram uma ideia inusitada enquanto estudavam suas primeiras matérias do curso de Cinema na Universidade da Flórida Central: conseguir planejar um longa-metragem de horror e suspense, utilizando do orçamento limitadíssimo como um recurso narrativo. E se pudéssemos aproveitar o fato de termos poucas câmeras com a justificativa de que o enredo partiria da premissa de uma filmagem real que foi encontrada por terceiros e transformada em um filme? 

    Demorou um bom tempo até que, finalmente, em 1997, os atores aspirantes Heather DonahueJoshua LeonardMichael C. Williams fossem recrutados para uma proposta diferente de qualquer coisa que já haviam participado até então. O trio foi colocado em uma floresta, com câmeras escondidas, e lhes foi pedido que improvisassem a história de A Bruxa de Blair a partir de um argumento inicial ainda sem muitos detalhes. A intenção era, primeiramente, capturar as suas reações diante de sustos e armadilhas psicológicas colocadas pelos diretores no local, causando uma verdadeira simbiose de sensações. Era a hora de fazer um jogo difícil.

    PERDIDOS NO TEMPO
    Artisan Entertainment

    O que começou como uma experiência sensorial criada para captar as feições e atuações com o maior grau possível de veracidade, rapidamente escalou para algo muito mais intenso. Na concepção de Myrick e Sanchez, aquele era o momento mais apoteótico de suas vidas e nada poderia entrar no caminho da subversão. Os atores já estavam jogados na selva para sua própria sorte, logo, por que não aproveitar para transformar o evento em um simulacro de uma história real? Assim nasceram os cartazes de "desaparecidos" dos personagens de Heather, Joshua e Michael. 

    Em um universo onde as redes sociais ainda eram um fantástico e abstrato conceito em desenvolvimento, rapidamente a história se espalhou através de e-mails, sites de notícias e até mesmo jornais locais: três jovens estudantes de Cinema foram até uma floresta deserta com a intenção de documentar uma lenda conhecida como A Bruxa de Blair, e simplesmente desapareceram. Em uma busca completa pelo local, as autoridades encontraram apenas alguns pertences pessoais e uma câmera de vídeo que revelava sua trajetória. Para ajudar nas buscas e honrar o projeto cinematográfico, o rolo da câmera seria exibido nos cinemas. Imagens fortes.

    Prontinho. 20 anos antes de recebermos os mais estranhos tipos de correntes e boatos, dois jovens recém-formados praticamente inventaram o conceito de "viralização" como conhecemos hoje, usando de um engajamento natural, da curiosidade mórbida dos seres humanos e do boca a boca, deixando qualquer estudante de Publicidade e Propaganda babando de inveja. Aqueles que eram corajosos o suficiente para entrar no site da imagem acima, se deparavam com supostos fragmentos do rolo da câmera usada pelos três supostos aventureiros. E, é claro, informações sobre onde garantir o ingresso. Foi exatamente assim que todas as salas de A Bruxa de Blair tornaram-se completamente esgotadas dias antes da grande estreia.

    O QUE AS SOMBRAS ESCONDIAM
    Artisan Entertainment

    Quando falamos sobre este tipo de papel, é importante tomar cuidado para não cair na problemática de vangloriar abusos psicológicos em prol da excelência de um resultado. Shelley Duvall, por exemplo, carrega até hoje traumas advindos das filmagens de O Iluminado, assim como aconteceu com alguns inúmeros exemplos. O tipo de transe provocado em A Bruxa de Blair pode ser considerado razoavelmente diferente, uma vez que a própria convocação de elenco mais parecia um anúncio para cobaias de testes laboratoriais. Os felizardos entraram em campo já sabendo como as coisas funcionariam. 

    É claro que, para que a campanha de marketing pudesse funcionar da maneira correta, era necessário uma colaboração contratual no nível de confidencialidade da NASA. Por meses, Heather, Joshua e Michael afastaram-se do mundo real — com a devida garantia de segurança para amigos e família — para que, de fato, pudessem simular um desaparecimento. Para o restante do planeta, eles não eram os atores aspirantes à procura de trabalho, e sim realizadores que desapareceram enquanto procuravam por uma lenda urbana.

    Com os cinemas lotados, espectadores desmaiando em plena exibição, críticos devidamente impressionados e diversas produtoras interessadas nos "novos gênios do cinema independente", A Bruxa de Blair finalmente havia mostrado para que veio. 

    A VIDA APÓS A MORTE
    Artisan Entertainment

    Por óbvias razões corporativas, o golpe publicitário precisaria ser esclarecido mais cedo ou mais tarde. Em uma era vinte vezes — estatística arbitrária — menos globalizada do que a de hoje, o boca a boca era uma das fontes informativas mais difíceis de serem desconstruídas. Mesmo anos após o fim da campanha de marketing, ainda era fácil encontrar pessoas que acreditavam no famoso caso dos estudantes desaparecidos na floresta. 

    Com o tempo, as estratégias foram sendo explicadas. Os três atores principais, por exemplo, receberam até aulas sobre como manipular uma câmera da maneira correta, usar bússolas, GPS, e outros meios para que não se perdessem. Na equipe de produção, havia um ex-militar especializado em táticas de sobrevivência e, como um grande reality show, o trio era vigiado constantemente em segredo. Logo, descobriu-se que fazer algo parecer amador pode ser mais difícil do que dar a impressão de profissionalismo. O que não serviu como desculpa para que o "found footage" virasse uma verdadeira febre.

    Vencedor do Independent Spirit de 200, icônica premiação dos filmes independentes, e do Prêmio do Sindicato de Produtores, A Bruxa de Blair tornou-se um referencial. Chegara o momento de colher os frutos do trabalho.

    OS FILHOS DA BRUXA
    Playarte
    Atividade Paranormal 2.

    Você já deve ter assistido a este filme algumas vezes: uma narrativa em primeira pessoa que retrata, através de uma filmagem perdida, a ocorrência de eventos apoteóticos, apocalípticos, sobrenaturais e bizarros. Seja o fim do mundo, o início de uma epidemia zumbi ou até mesmo um psicopata em ação, qualquer coisa torna-se mais crível e naturalizada quando vista sob a perspectiva intimista de uma câmera de vídeo comum, manipulada por um pacato cidadão normal. Cru. Real. Sem edições ou floreios.

    Caso não haja familiarização de sua parte com o subgênero, agora vale uma explicação. Um found footage é, basicamente, um filme narrado pela perspectiva de um rolo de filmagem achado por alguém e, supostamente, divulgado por terceiros. A intenção aqui é justamente emular a realidade, transpondo o drama do filme para algo mais próximo de nós, suspendendo a crença de que estamos assistindo a um filme. 

    Obviamente, a estratégia narrativa de "gravação perdida" já havia sido utilizada algumas vezes antes de 1999, como em Holocausto Canibal ou Aconteceu Perto da Sua Casa, mas A Bruxa de Blair foi um grande responsável por atribuir um sentido completamente diferente ao seu uso no século XXI. De 2000 até aqui, é possível citar alguns exemplos aclamados. 

    Rec, de 2007, por exemplo, foi um sucesso tão grande que ganhou algumas continuações e um remake norte-americano — nem precisamos dizer qual é melhor — sagrando-se como uma ótima pedida para os fãs de zumbis. Um ano depois, o visionário JJ Abrams deu o pontapé inicial para sua franquia Cloverfield, aplicando um orçamento de respeito à trama. Indo pelo caminho contrário e economizando uma boa grana, Atividade Paranormal rendeu algumas incontáveis sequências e spin-offs, sagrando-se como detentora do novo império found footage. Caso sua praia seja algo no espírito mais independente, Creep e Creep 2, centrados em um peculiar psicopata, são opções mais intimistas e detalhadas. Citar todos os exemplos do novo século aqui renderia um outro artigo. 

    Utilizando de uma conclusão engimática, A Bruxa de Blair contribuiu de uma maneira muito mais subjetiva e abstrata para seu gênero do que se pode enumerar e pontuar. Com uma cena final que virou referência na cultura popular e uma estratégia de marketing à frente de seu tempo, Eduardo Sanchez e Daniel Myrick contribuíram, não apenas para a existência de grandes blockbusters, como também para a inventividade de artistas com pouco dinheiro e muitas ideias. A estratégia de nunca mostrar o "mau" presente na floresta, mas evidenciar sua presença o tempo inteiro através do clima crescente de tensão une o útil ao agradável. Caso a primeira frase deste artigo não faça sentido para você, nunca é tarde demais para conhecer os clássicos. Vire contra a parede se você quer ficar rico.

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