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Mostra de Tiradentes 2017: Afinal, para que serve o cinema?
Por João Vitor Figueira — 25/01/2017 às 15:11
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A terça-feira (24) contou com sessões dos documentários O Homem Que Matou John Wayne e Homem-Peixe e da comédia infantil Um Filme de Cinema.

O quinto dia de sessões da 20ª Mostra de Cinema de Tiradentes trouxe dois filmes de tons, propostas e abordagens completamente diferentes entre si que analisam alguns dos conceitos que estruturam a noção de fazer cinema. Para que ele serve? Cinema é escapismo ou realidade? Ele manipula ou captura o mundo real? O que move um/uma cineasta? 

Os dois filmes sobre esse assunto são o documentário O Homem Que Matou John Wayne (exibido dentro da Mostra Cinema em Reação), de Diogo Oliveira e Bruno Laet, e a comédia voltada para a família Um Filme de Cinema (exibido na Mostra Aurora — não confundir com o longa homônimo de Walter Carvalho).

Durante a terça-feira (24), também foi exibido o longa-metragem documental Homem-Peixe, de Clarisse Alvarenga, integrando a Mostra Olhos Livres, dedicada a "trabalhos marcados por curto-circuitos nas abordagens".

Filme-ensaio: "Não me interessa fazer um filme que eu entenda por inteiro"

Com o mote "Cinema em Reação", a edição de 2017 da Mostra de Cinema de Tiradentes incluiu dezenas filmes em sua programação que dialogam com questões políticas e sociais suscitadas e amplificadas no conturbado contexto dos eventos de 2016. Na sessão dedicada ao tema, o documentário-ensaio O Homem Que Matou John Wayne examina a carreira e as ideias do diretor Ruy Guerra, nome-chave do cinema brasileiro e uma das referências entre os diretores politizados do país.

Cientes de que seria limitador fazer um documentário convencional sobre o cineasta moçambicano radicado no Brasil — cuja carreira cobriu cinema, música e teatro ao longo de mais de meio século — Diogo Oliveira e Bruno Laet apostam num formato particular. O filme mescla entrevistas com Guerra do presente e passado; bons depoimentos de personalidades de calibre intelectual como Chico Buarque, Gabriel Garcia Marquez, Michel Ciment e Werner Herzog; dramatizações estreladas por Julio Adrião; e interlúdios poéticos, como quando Guerra declama a letra da música "Tatuagem", parceria dele com Chico.

"O tempo é um arqueiro feroz. Suas flechas voam em todos os sentidos". São essas as primeiras palavras que se escutam durante a projeção, ditas por uma voz feminina. Assim, de forma não-linear, a carreira de Guerra é examinada à luz de suas ideias sobre o cinema e não de forma cronológica. Como o título indica, o enredo do filme parte de uma fantasia. Guerra se imagina num duelo contra John Wayne, ator-arquétipo de filmes de faroeste que aqui representa os valores do cinema industrial americano ao qual Guerra sempre se opôs.

Divulgação
O Homem Que Matou John Wayne

Enquanto o debate "arte pura versus arte aplicada" pauta muitas das conversas, O Homem Que Matou John Wayne questiona os próprios mecanismos do cinema sem romantismo ou pieguice. É aí onde está o maior valor do longa-metragem. Guerra aborda as impossibilidades da sétima arte ao tentar retratar, de fato, a realidade, afinal todo enquadramento oculta algo e toda forma de fazer arte se baseia na manipulação de sentidos. Para Ruy Guerra, o cinema só é honesto bom quando se assume como ilusão. "A verdade é aquilo que se acredita", diz.

O cineasta ainda adota uma postura iconoclasta ao dessacralizar a figura do artista — afirmando que a coragem é mais importante do que o talento — e evita abordagens saudosistas ao cinema politzado realizado por ele, Glauber Rocha e demais diretores-autores do Cinema Novo ("Todas as gerações são perdidas"). Ele também analisa a icônica cena final de Os Cafajestes e se indaga se teria coragem de realizá-la nos dias atuais.

Infelizmente as dramatizações que tentam recriar os labirintos da mente de Guerra não são tão enriquecedoras para o projeto quanto a discussão das ideias. Sim, o ator Julio Adrião entrega uma boa performance. Sim, há ao menos uma boa metáfora visual naquelas cenas, mas o tom de exagerado suspense e a trilha sonora excessiva tornam o filme um pouco arrastado e tiram um pouco da força do produto final.

Um filme de família

Algumas perguntas movem a menina Bebel (Bebel Mendonça) no segundo longa-metragem exibido na tradicional Mostra Aurora em Tiradentes: "O que é cinema?", "O que é a vida?"

Na trama de Um Filme de Cinema, dirigido por Thiago B. Mendonça, Bebel é uma criança serelepe que se sente imbuída a mergulhar no mundo da sétima arte após sua professora na escola solicitar aos alunos que contem uma história. "Pode ser um filme?", ela propõe, antes de receber uma resposta afirmativa. Bebel é interpretada pela filha de Mendonça, que no filme também é filha de um cineasta, o personagem Rodrigo, que pode ser encarado como um alter-ego do diretor.

Divulgação
Um Filme de Cinema

Rodrigo, que já tentou ser palhaço mas não conseguia despertar o riso de ninguém, é um cineasta em crise criativa, marcado e formado pelo cinema do passado. Em seu quarto, há sinais de sua admiração por figuras como Akira Kurosawa e Charles Chaplin. Relutante, ele aceita emprestar parte de seu equipamento para que sua filha saia por aí com uma câmera na mão e muitas perguntas na cabeça, o que lhe causa algumas confusões na escola e alguns conflitos com o pai.

Em primeiro lugar, é inegável que cause certa estranheza que um trabalho como Um Filme de Cinema, que se propõe a explorar características do cinema de gênero infantil educativo, tenha sido selecionado pela curadoria para integrar a Mostra Aurora. Ao longo dos últimos 10 anos, a Aurora serviu como vitrine de um cinema de experimentações estéticas e o filme de Mendonça é muito convencional e excessivamente didático em sua narrativa. Outra surpresa se estabelece quando se compara o filme com o trabalho anterior do diretor, o "arriscado, contestador, urgente e corajosoJovens Infelizes ou Um Homem que Grita Não é um Urso que Dança, grande vencedor do troféu Barroco em Tiradentes no ano passado.

Na busca de uma linguagem própria, o filme derrapa ao criar escapes surrealistas que podem não ser bem compreendidos pelas crianças (a quem o material se destina afinal) e trechos demasiadamente educativos que devem causar desinteresse nos adultos. O roteiro insere muitos personagens de maneira brusca e falta ao filme um pouco mais de sutilezas ou mesmo de passagens que contrastem com o caráter colorido, idealizado e romantizado que permeia a obra. As atuações das crianças são naturais e rendem momentos divertidos, mas o mesmo não se pode dizer de alguns dos atores adultos do longa-metragem.

Exploração vagarosa

Juscelino Rocha Alkmim é um homem de modos simples que vive no interior de Minas Gerais, tirando da avermelhada terra os frutos de seu sustento. Entretanto, em Homem-Peixe, segundo filme da cineasta Clarisse Alvarenga, o primeiro desde Ô, de Casa! (2007), esse sujeito se torna o relutante protagonista de uma jornada marcada pela beleza das descobertas de novos mundos, novas possibilidades, novas sensorialidades.

O trabalho de Alvarenga neste filme é acompanhar a trajetória de Juscelino, que nunca saiu da pequena cidade onde vive sua família, até o litoral da Bahia, onde ele irá sentir o gosto salgado da água do mar e vislumbrar o oceano pela primeira vez em toda a sua vida. 

Divulgação
Homem-Peixe

Vagarosamente, acompanhamos Juscelino se mover por praias como um astronauta que finca os pés num planeta desconhecido. "Não imaginava que era assim tão bonito", diz ele, com seu carregado sotaque. Em sua caminhada rumo ao mar, a balada "The Glory Of Love" toca ao fundo, dando um efeito espirituoso aos passos daquele senhor. Durante sua estadia na Bahia, percebemos algo de pueril neste homem que, como uma criança, se coloca como aprendiz diante da natureza e das experiências de seus anfitriãos.

Enquanto nas cenas no interior de Minas Gerais apresentam uma fotografia mais naturalista, crua e direta, nas cenas da Bahia há uma série de belos planos e enquadramentos, no qual o mar ganha contornos quase supra-realistas. O movimento das ondas e das marés é filmado como um fenômeno quase paranormal, pois talvez seja assim que Juscelino os sinta.

Entretanto, há que se questionar um pouco tanto esteticismo. Por mais que as imagens sejam belas, muitas são as tomadas em que a figura de Juscelino está desfocada ou indistinguível por ter sido filmada em contraluz. Em outros momentos, o personagem é filmado pelas costas, quando justamente o que seria interessante seria captar as experssões das descobertas desse homem. A proposta de focar totalmente na experiência de descoberta do mar por parte de Juscelino pode decepcionar que se interessar por conhecer mais desse personagem.

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