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    Exorcistas Do Vaticano
    Críticas AdoroCinema
    2,0
    Fraco
    Exorcistas Do Vaticano

    O demônio das mulheres

    por Bruno Carmelo

    Uma jovem possuída por forças do mal. Um pai protetor, preocupado com as atitudes estranhas de sua garotinha. Um padre especializado em exorcismos, lidando com a força mais poderosa que já viu em sua longa carreira. Corpos contorcidos, palavras demoníacas em latim, símbolos remetendo a versos obscuros da Bíblia. Você já viu estes elementos diversas vezes no cinema de terror hollywoodiano, e eles retornam em Exorcistas do Vaticano, produção que propõe duas pequenas mudanças à fórmula consagrada.


    Exorcistas do Vaticano - FotoA primeira novidade é o aspecto físico da produção, que combina a espiritualidade da possessão com a corporeidade dos filmes de infecção zumbi. O demônio que se apodera de Ângela (Olivia Taylor Dudley) entra em seu corpo por uma ferida no dedo, e a maneira de arrancar o intruso deste corpo combina as tradicionais rezas com uma mão literalmente enfiada na garganta da garota. O símbolo da Santíssima Trindade, frequente em narrativas sobre exorcismo, é representado de maneira física: a garota vomita três ovos inteiros. Estamos no território de monstruosidade, que rompe com a natureza invisível dos fantasmas e espíritos.

     

    A segunda novidade é a presença do Vaticano na trama. Padres são indispensáveis a histórias como esta, mas poucas narrativas associam seus personagens à mais alta hierarquia católica. Neste caso, infelizmente, o Vaticano funciona apenas como uma marca, uma curiosidade, já que o Padre Lozano (Michael Peña) e o Vigário Imani (Djimon Hounsou) poderiam pertencer a qualquer paróquia de bairro. O roteiro de Chris Morgan (Velozes & Furiosos 7) não consegue mostrar estes dois homens como figuras particularmente importantes ou influentes. Os cenários do Vaticano tampouco são utilizados, por evidentes dificuldades de produção.

     

    De resto, Exorcistas do Vaticano oferece o tipo de terror que tem se tornado comum nos últimos anos, ou seja, uma somatória pós-moderna de estilos destinada a impressionar um público que já viu de tudo. Nos clássicos do cinema de terror, o mal costumava agir de uma maneira muito específica (nos sonhos em A Hora do Pesadelo, de modo invisível em Suspiria, cheio de deboche e profanidades em O Exorcista). Nas produções pós-Atividade Paranormal, tudo vale, especialmente quando uma câmera aparece em cena – aí, os fantasmas tornam-se um tanto exibicionistas.

     

    A protagonista deste filme às vezes fala com uma voz masculina (quando o demônio controla suas ações), ora torna-se violenta, ora demonstra tendências suicidas, depois é capaz de levitar, ou de fazer com que outras pessoas tentem se matar, e depois pode deslocar objetos com a força do pensamento, desaparecer ou colocar fogo no cômodo em que se encontra. Seguindo a lógica do acúmulo, quanto mais terror melhor, por mais que a personagem se torne incoerente. Afinal, se a garota dispunha de tantos poderes, por que simplesmente não os usava desde o começo? Não há razão diegética para esta progressão, a não ser reservar a cena mais forte para o clímax da história.

     

    Exorcistas do Vaticano - Foto

    O roteiro tem grande dificuldade de tornar a sua narrativa minimamente organizada. O personagem do pai (Dougray Scott) não possui função além de lamentar o destino da filha, assim como o banal namorado Pete (John Patrick Amedori), esquecido pela história durante longos minutos. O padre Lozano está sempre perambulando pelo hospital, aparecendo convenientemente nos momentos em que algo ocorre à garota, já o Cardeal Bruun (Peter Andersson) sustenta ideias contrárias aos preceitos mais básicos da doutrina cristã. Isso sem falar no uso incoerente do found footage: por que existiriam documentos do Vaticano e câmeras escondidas seguindo Olivia antes de ela ser possuída/infectada?

     

    Exorcistas do Vaticano deve funcionar com a plateia fanática por filmes do gênero, que valoriza os sustos e a atmosfera sombria. Estes elementos estão presentes, assim como a tortura física e psicológica da personagem. Com sua fisicalidade aguçada, esta história de possessão comprova a misoginia do gênero: a trama basicamente apresenta um grupo de homens (padres, pais, namorados, médicos) abusando do corpo de uma garota “para o bem dela”, prendendo-a, enfiando a mão em sua garganta e ameaçando cortá-la com uma faca. Ela torna-se um objeto amarrado e humilhado por homens que comandam seu destino e decidem sobre sua sobrevivência.

     

    Não é de se estranhar que as possessões ocorram apenas com garotas, de preferência ingênuas e virginais: a partir do momento em que o mal toma conta de seus corpos, elas se mostram sedutoras e hiper sexualizadas (Olivia Taylor Dudley sorri maliciosamente para a câmera e ataca um enfermeiro apalpando a virilha do rapaz). Sustenta-se a oposição entre a “garota pura e intocada” e a “garota dominada pelo mal”, no caso, aquela que manifesta seu desejo sexual. Esta não é uma ideia nada progressista, nem como forma de cinema, nem como representação dos gêneros e da sexualidade.

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