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    Desenrola entrevista exclusiva com a diretora Rosane Svartman
    Por Francisco Russo — 13 de jan. de 2011 às 08:00

    Entrevista exclusiva com a diretora Rosane Svartman

    A juventude dos dias de hoje retratada nas telas de cinema, com todas os seus questionamentos em relação à descoberta da sexualidade. Este é Desenrola, comédia romântica estrelada por Olívia Torres, Lucas Salles e Kayky Brito que chega aos cinemas nacionais em 14 de janeiro. O Adoro Cinema falou com exclusividade com a diretora Rosane Svartman, que comentou sobre o árduo e longo processo de pesquisa e a minuciosa seleção musical, feita para agradar os ouvidos tanto dos jovens quanto da turma que viveu os anos 80. Boa leitura! ADORO CINEMA: Você trabalhou em três filmes jovens - Como Ser Solteiro, Desenrola e Tainá - A Origem -, mas o público alvo deles é bem diferente. Como você buscou o foco necessário para Desenrola, em comparação aos outros filmes? ROSANE SVARTMAN: Com Como Ser Solteiro eu frequentava os locais dos personagens, então andava sempre com um caderninho anotando o que via. Com Tainá foi diferente, já que fui diretora contratada. Não houve uma grande pesquisa, já que o roteirista estava envolvido com o projeto desde o primeiro filme. O máximo que fiz foi pegar o roteiro e levá-lo para as escolas, para ler com as crianças. Havia um personagem que estava em dúvida sobre qual tom ele deveria ter, então o levei para as escolas para lidar com as crianças. Já Desenrola foi um desafio muito maior. Não sou adolescente há algum tempo nem vou aos lugares que os adolescentes frequentam. Havia o medo de que fosse um filme de memória, nostálgico, e sempre disse que ele até poderia ser, mas não seria só isto. Fiquei muito tempo indo para a escola pesquisar. Assisti aula com os alunos, entrevistei muitos deles, então houve uma pesquisa muito maior que qualquer filme que tenha feito na minha vida. Tinha este lado de correr atrás do diálogo. É claro que as ferramentas sociais ajudam muito nisto, especialmente para saber de lugares em que não podia estar fisicamente. Talvez este tenha sido o maior desafio, mas ao mesmo tempo foi uma das coisas mais gostosas. É uma faixa etária muito bacana. AC: Imagino que para você tenha sido uma redescoberta. Rosane: Foi uma volta no tempo. Uma das maiores descobertas foi perceber o quanto ainda há em comum. Quando comecei o processo achei que hoje em dia tudo seria tão diferente, uma pouca vergonha, só que muita coisa é bastante parecida com o que era antigamente. AC: Quanto tempo você levou para realizar esta pesquisa? Rosane: Anos. Eu e a (roteirista) Clélia Bessa sabíamos que seria uma pesquisa longa, então resolvemos usá-la em vários outros produtos culturais que dão no filme, de alguma forma. Primeiro fizemos uma série de documentários para o GNT, em que cada episódio era sobre um tema. Foi uma oportunidade para que entrevistássemos muita gente. Pegamos então todo este conteúdo e começamos a trabalhar no roteiro para o longa. No meio do caminho fizemos uma web série, usando as ferramentas sociais. Passamos então a colocar nela temas que desejávamos abordar no filme, para testá-los junto ao público. Os personagens interagiam com o público, através de blog, Orkut e fórum. Era outra equipe que fazia a web série, mas ela também foi um grande material de pesquisa. Então estou pesquisando há anos, mas não estive parada fazendo apenas isto. Não é nem factível. AC: Um dos pontos principais do filme é a escolha da trilha sonora. A impressão que fica é que a escolha de muitas músicas dos anos 80 tenha dedo seu. Como foi a definição da trilha como um todo e por que a opção em usar músicas mais antigas em regravações com cantores da nova geração? Rosane: Uma pessoa muito importante na minha vida é o Bruno Levinson, que estudou comigo na PUC. Acompanho seu trabalho há muitos anos e ele é o cara que conhece novas bandas, mas também viveu os anos 80 comigo. Então ele ia na montagem, via o filme e indicava músicas que tinha recebido. A Agnela, que faz a música tema, foi ideia dele. Mas é claro que havia uma grande discussão sobre o que entrar no filme. Em relação ao Paralamas do Sucesso, por exemplo, ele escolheu uma música meio lado B, que nem todo mundo conhece. A Clélia também insistia que era preciso ter uma canção onde a geração atual e a dos anos 80 se encontrassem. Tivemos uma grande discussão até chegarmos ao consenso de que tinha que ser Legião Urbana. Mas qual música deles? Foi quando insisti, pois a trilha sonora da minha vida é "Quase Sem Querer". Definimos a música, fomos regravar e insistimos que tinha que ser a Maria Gadu. Teve ainda a questão dos direitos autorais, cada música que conseguíamos era uma festa. No final conseguimos todas as que queríamos, não precisamos trocar alguma. AC: Houve o temor de que estas canções, apesar de serem conhecidas, não se adequassem ao público adolescente de hoje, que curte bandas do tipo Restart, Fresno e Cine? Rosane: Confiei muito no Bruno, que tem um faro super legal para banda. Ele dizia que este estilo Fresno de rock já estava presente, graças a Agnela. Afinal de contas é uma banda de meninas e encaixava com um filme protagonizado por uma menina. Procuramos passear por todos estes estilos que estão rolando agora, ao invés de fixar em uma banda só. AC: Este é o terceiro filme brasileiro voltado para o público jovem lançado no último ano, os demais foram As Melhores Coisas do Mundo e Antes que o Mundo Acabe. Todos dão uma grande importância à música. É óbvio que um não influenciou o outro, já que foram produzidos em paralelo, mas para o público jovem a escolha da trilha sonora era realmente um ponto fundamental, tão importante quanto o roteiro? Rosane: Todo mundo controlava um pouco, eu, o distribuidor e a Clélia. A gente dizia o tempo todo que trilha é tudo! E estávamos com o Bruno, o cara para esta função. A gente tinha poucas músicas antes de filmar. Era a da festa, pois as pessoas precisavam dançar mais ou menos no ritmo, e obviamente a do ônibus. O resto foi tudo na ilha de edição mesmo. Tem um leque não apenas de músicas antigas, mas também da nova cena, o que acho muito legal. AC: No elenco você procurou colocar os atores mais famosos em pequenas pontas, enquanto que os personagens principais ficaram com atores desconhecidos. Como foi esta seleção? Rosane: Isto era uma opção, desde o início. Não conhecia nenhum ator famoso desta idade, para mostrar para o distribuidor, e achava que pegar gente mais velha para fazer papéis mais jovens não ficaria bem. Então comecei a fazer teste de elenco até chegar nestes meninos. Foi um processo também bacana, porque você fica procurando os personagens ao invés dos atores. Durante o período de testes não tive muito contato com eles, pois são todos encantadores e poderia ser influenciada. AC: A primeira exibição do filme foi no Festival de Paulínia, no meio do ano passado. Como foi ver conferir a reação do público ao filme? Rosane: Paulínia foi uma prova de fogo, por ser em São Paulo. Queríamos saber se o filme se comunicava com o público de lá. A sessão foi muito legal, mas tão legal quanto foi ver a repercussão em blog, site e Twitter vinda de jovens que tinham visto o filme. Para nós isto foi muito importante. É um trabalho de formiguinha, no intuito de popularizar o filme. Quando chega o lançamento vem a mídia tradicional, mas será que ela é suficiente para atrair adolescente para ver um filme brasileiro? Um jeito de somar é este tipo de trabalho. O Adoro Cinema foi parceiro em uma sessão que fizemos durante a edição, que foi super bacana. Teve uma garota presente nela que postou uma sessão de fotos no Fotolog, foi bem legal. Estas coisinhas vão somando. AC: Em relação a público, qual é a sua expectativa para Desenrola? Rosane: Tem duas datas que fico sempre me perguntando o porquê de fazer isto: o primeiro dia de filmagem e esta época de lançamento. É um horror! Ainda bem que há os produtores e distribuidores que podem calcular o número de cópias de forma fria, porque não consigo fazer isto. É um trabalho de anos que culmina, bem ou mal, nas duas primeiras semanas. Sabe-se lá qual será o desempenho, o que faz com que um filme dê certo. É horrível, quero me esconder embaixo da cama e ficar lá.

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