Oscar Isaac explica a origem de um dos maiores erros de Star Wars: Deveria ser banido de qualquer roteiro decente
Giovanni Rodrigues
Giovanni Rodrigues
-Redação
Já fui aspirante a x-men, caça-vampiros e paleontólogo. Contudo, me contentei em seguir como jornalista. É o misto perfeito entre saber de tudo um pouquinho e falar sobre sua obsessão por nichos que aparentemente ninguém liga (ligam sim).

Nada, absolutamente nada pode compensar a falta de um roteiro sólido e 100% fechado antes de entrar na fase de filmagem.

Pouco antes de o mundo ir para o inferno com certo vírus que nos deixou todos trancados em casa, a difamada terceira triliga cinematográfica de Star Wars estreou sua última parte com o lançamento de A Ascensão Skywalker; uma produção que, apesar de ter me feito gostar consideravelmente — depois do necessário desligamento do cérebro para poder digeri-la como se deve —, exibe uma boa quantidade de abominações narrativas.

Star Wars: A Ascensão Skywalker
Star Wars: A Ascensão Skywalker
Data de lançamento 19 de dezembro de 2019 | 2h 22min
Criador(es): J.J. Abrams
Com Daisy Ridley, Adam Driver, Oscar Isaac
Imprensa
3,1
Usuários
3,5
Adorocinema
4,0
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Entre elas, é provável que a mais destacada seja a protagonizada por Poe Dameron, que jogou na nossa cara uma linha de diálogo que, teoricamente, era de pura exposição, mas que não explicava absolutamente nada. Esta, merecidamente transformada em meme após o lançamento do longa-metragem, não é outra senão "De alguma forma, Palpatine voltou", e é uma das maiores amostras de "lazy writing" (escrita preguiçosa) que pudemos ver em um blockbuster desse calibre em bastante tempo.

De alguma forma, as refilmagens de A Ascensão Skywalker não serviram para muita coisa

Durante sua recente participação no podcast Happy, Sad, Confused, Oscar Isaac, que deu vida ao piloto de X-Wing nos episódios VII, VIII e IX, explicou a origem da infame frase, demonstrando certo constrangimento a julgar pela maneira como ri e brinca sobre o assunto. Para começar, o ator comentou que, como é evidente, a cena em questão foi gerada durante as refilmagens a que o filme foi submetido.

Foram refilmagens. Tivemos que fazer refilmagens. Quando vejo, penso 'a peruca está muito boa'. Eu já tinha cortado o cabelo quando fizemos. Foram intervenções cirúrgicas nas quais você é obrigado a ir fazendo, a tentar que tudo funcione e a improvisar para que tudo dê certo.

Além disso, Isaac sugeriu que um certo caos estava na ordem do dia durante a filmagem das cenas adicionais.

Lucasfilm Ltd. / Disney
Obviamente, foi algo novo, então houve muitas mudanças e muita movimentação durante tudo aquilo, mas se você me perguntar sobre aquele momento, pensei que seria... nunca teria imaginado. Eu me comprometi com a exasperação, isso é claro!

Para além da brincadeira, "Somehow, Palpatine returned" nos oferece um exemplo claro e cristalino de que as refilmagens e as reescritas de última hora são apenas um paliativo que não consegue consertar problemas narrativos básicos, como o fato de tirar um vilão da cartola que teoricamente estava morto e enterrado e que se decidiu ressuscitar sem sugerir minimamente não apenas no filme em questão, mas em nenhum dos dois longas-metragens que o precederam.

Surpreender sem plantar? Sim, é possível.

Michael Arndt, roteirista de O Despertar da Força, explicou durante uma entrevista sobre seu ensaio Endings: The Good, the Bad and the Insanely Great! — que, por sinal, é uma verdadeira maravilha — como essas situações em que se lança ao público uma reviravolta dramática sem tê-la "plantado" antes, podem funcionar sob circunstâncias muito concretas. Infelizmente, não é o caso do retorno de Palpatine em A Ascensão Skywalker.

Lucasfilm Ltd. / Disney

"Se você apresentar como uma escolha entre A ou B — ou os mocinhos ganham ou os vilões ganham —, hoje em dia o público já sabe que o mocinho vai ganhar, e a única dúvida é como ele vai conseguir."

Por isso, o que tentei fazer em Pequena Miss Sunshine, por exemplo, foi criar uma falsa escolha. Você apresenta a "porta número um": ela ganha o concurso; mas na verdade você não quer isso, porque é piegas, certo? A "porta número dois" é que ela perde o concurso, mas você também não quer isso, porque é deprimente e seria algo horrível.

Assim, com sorte, você cria uma situação em que o público não vê nenhuma saída boa possível, e então você abre a "porta número três", aquela que ninguém viu. Isso é o que eu acho que funciona nesse final: você está abrindo uma nova possibilidade que o seu público não esperava."

É evidente que um elenco estelar, efeitos visuais de tirar o fôlego, uma propriedade intelectual lendária e quase 500 milhões de dólares de orçamento não garantem nada sem um roteiro sólido e fechado sobre o qual cimentar uma história.

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