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    De A Caminho da Lua a Din e o Dragão Genial: Entenda a ascensão das animações chinesas nos últimos anos
    Por Nathalia Jesus — 11 de jun. de 2021 às 16:30

    Light Chaser Animation Studios, BaseFX e Fantawild são os maiores estúdios chineses de filmes animados na atualidade e suas estratégias visam conquistar o público internacional.

    Você tem reparado no crescimento de animações com inspiração chinesa nas principais plataformas de streaming e cinema nos últimos tempos? Um bom exemplo desse fenômeno foi o filme A Caminho da Lua, que entrou na Netflix em outubro de 2020 e chamou bastante atenção por abordar a história de uma famosa deusa da mitologia na China, chegando a conquistar um espaço seleto na lista de indicações ao Oscar 2021.

    Outra nova animação que está prestes a ganhar destaque é Din e o Dragão Genial, que estreou hoje (11) na gigante do streaming. No filme dublado por Jimmy Wong, John Cho e Constance Wu, o determinado adolescente Din tem o sonho de reencontrar e refazer os laços com sua melhor amiga de infância. Até que um dia ele conhece um dragão que concede desejos e lhe mostra a magia que transforma tudo em possibilidades.

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    Além das duas produções já citadas, 2021 está com um calendário repleto de novos filmes chineses lançados ou com estreias próximas, como New Gods: Nezha Reborn, Boonie Bears: The Wild Life, Deep Sea e Backkom Bear 2. Vale ressaltar que um dos aspectos em comum entre as recentes animações produzidas na China são caracterizadas pelo forte apelo cultural, que visa levar conhecimento da mitologia chinesa para o mundo.

    De 2015 até os dias atuais, a estratégia tem sido um diferencial no cinema do leste asiático, que tem sido bem-sucedido em exportar seus produtos para o ocidente. Para entender melhor o panorama que, aos poucos, tem ajudado a popularizar as animações chinesas, o AdoroCinema selecionou alguns dados importantes. Confira:

    Breve história das animações chinesas

    A história da animação chinesa começou oficialmente na década de 1920, a partir do grupo conhecido como Wan Brothers (os cineastas Wan Laiming, Wan Guchan, Wan Chaochen e Wan Dihuan), quando produziram o primeiro curta-metragem animado intitulado Uproar in Heaven, todo em preto e branco e com duração de 10 a 12 minutos.

    Com a criação de novos estúdios como Great Wall Film Company e Shanghai Animation Film Studio, o país iniciou uma produção massiva de animações, trazendo novos sucessos como Princess Iron Fan, lançado em 1941, e Why is the Crow Black-Coated, consagrado como o primeiro longa-metragem animado com cores e pioneiro em tornar a China reconhecida internacionalmente como promessa de uma potência no mercado de animação.

    No entanto, o desenvolvimento de filmes animados na China foi interrompido abruptamente com a Segunda Guerra Sino-Japonesa, que ocasionou a destruição dos principais estúdios em Shanghai, abalando a indústria cinematográfica de animações. Posteriormente, em 1966, um novo obstáculo maior surgiu para atrapalhar ainda mais a produção: a Revolução Cultural Chinesa. Com a duração de dez anos, o período político paralisou o andamento dos longa-metragens animados, fazendo com que a China perdesse a força e ficasse atrasada em relação ao mercado estadunidense e japonês, que naquela época já ganhavam destaque e relevância com o estúdio Disney e, mais tarde, o aclamado Studio Ghibli, criado por Hayao Miyazaki e Isao Takahata em 1985.

    Por mais que a China tentasse produzir conteúdo na década de 1980, quando o mercado chinês se abriu para o exterior, nos anos 90 se tornou óbvio que havia um abismo entre os padrões locais e internacionais, e isso fez com que a China passasse a se espelhar nas animações estrangeiras mais populares para garantir o sucesso. A estratégia, porém, não durou muito tempo, pois os produtores perceberam que um ponto forte do cinema chinês poderia ser a história nacional, assim como o rico folclore local.

    Weihua Wu, autor do livro Chinese Animation, Creative Industries e Digital Culture, destaca: “A maioria das animações chinesas perdidas na paródia do trabalho estrangeiro poderia não ter encontrado sua própria voz naquela época, e teve que imitá-la para buscar uma saída. Os animadores acreditavam que estava tudo bem em aprender com técnicas estrangeiras, mas também precisavam criar suas próprias técnicas. A China queria que sua animação, arte e filmes fossem únicos e reconhecidos como chineses.”

    Já a partir dos anos 2000, adotando uma nova narrativa para as animações chinesas, o país ganhou novos estúdios privados, recebendo propostas de colaboração no exterior, mas sem deixar de produzir um cinema genuinamente chinês. Como resultado, a China se destacou em crítica e bilheteria com os filmes Monkey King: Hero is BackBig Fish and Begonia e Da Hu Fa.

    Surgimento de novos estúdios chineses

    Light Chaser Animation Studios, BaseFX e Fantawild estão na vanguarda dos estúdios de animação digital chineses que têm ganhado atenção internacional nos últimos anos. Enquanto alguns se consolidam como potência local e empregam milhares de artistas por toda a China, outros, como Pearl Studio e Huayi Wink Animation, se concentram em ser um centro criativo e terceirizar a maior parte da produção.

    Apesar da ambição de levar a animação chinesa para o mundo, o país tem se concentrado em um sistema que vem de dentro para fora, no qual pretende-se cativar o público chinês de maneira consistente, levando em consideração que poucos longa-metragens animados conseguem arrecadar uma bilheteria maior que 15 milhões de dólares na China, de acordo com dados apresentados pelo ScreenDaily. Os produtores notaram que os filmes que obtiveram maior sucesso tinham como público-alvo a população jovem adulta, como Monkey King: Hero Is Back, que teve cerca de 138 milhões de dólares em ingressos em 2015, e Big Fish and Begonia, que alcançou a marca de 82 milhões em vendas no ano de 2016.

    Entre os principais estúdios de destaque na China atualmente, o Fantawild foi um dos pioneiros em estudar e entender a importância do mercado internacional. Além de dedicarem uma grande equipe de dublagem em inglês para suas animações, a presidente da empresa, Daisy Shang, faz parte da MIPCOM desde 2008. O evento anual acontece em Cannes, na França, e reúne representantes de estúdios e emissoras de televisão para realizar compra e venda de conteúdos audiovisuais para distribuição em escala mundial, assim como também apresentam painéis que discutem e antecipam novas tendências na indústria.



    A empresária relatou em 2019 que os enredos das animações chinesas são cuidadosos em introduzir a cultura da China para o mundo, de modo em que sejam capazes de cativar tanto o público local quanto o internacional: “As histórias giram em torno de amizade, crescimento, relações pai-filho — essas são emoções que tocam a todos. Mas ainda enfrentamos desafios, especialmente com diálogo e design de personagens. É por isso que prestamos muita atenção à dublagem e às vezes mudamos o diálogo para torná-lo mais identificável para o público ocidental."

    Para competir internacionalmente com outros estúdios de animação que se popularizaram nos anos 90, as empresas chinesas lutam para aumentar o orçamento de suas produções que, para ter seu valor recuperado, também precisa ir além do mercado chinês. O grande desafio é se arriscar em produções caras sem saber se o retorno trará a rentabilidade esperada com o público internacional.

    Custando cerca de o dobro do orçamento de um longa-metragem chinês médio, Din e o Dragão Genial está sendo produzido há sete anos pelo estúdio BaseFX e, com a parceria da Sony Pictures Animation e a compra de direitos pela Netflix, o filme pode chegar a alcançar um público global extensivo. “Quando se trata da qualidade da animação na China, não é uma questão de talento, é tudo uma questão de orçamento e se você tem tempo suficiente para acertar”, relata Chris Bremble, fundador da produtora.

    Serviços de streaming impulsionaram a indústria

    Tanto plataformas internacionais como Netflix e Amazon Prime Video, quanto os serviços chineses iQiyi e Tencent, colaboram para a popularização de animações chinesas. Com o surgimento de novos streamings, a transformação na indústria teve como consequência a mudança no comportamento do público, que passou a consumir serviços pagos, exclusivos e sob demanda, de acordo com o que os espectadores desejam assistir.

    Com tamanha possibilidade de escolha, os consumidores passaram a ter maior acesso aos desenhos animados que, antes, eram considerados como conteúdos exclusivamente infantil. Ao conciliar um grande público formado tanto por adultos quanto por crianças, os serviços de streaming se apresentaram como um meio eficiente de popularizar as animações chinesas. 

    Ao contrário de antigamente, em que as produções eram exibidas apenas na televisão, as plataformas online garantiram o aumento de espectadores e serão essenciais para impulsionar o mercado de animação pelos próximos anos. De acordo com o relatório da Global and China Animation Industry, o valor estimado da indústria de filmes animados chineses cresceu de $12,8 bilhões de dólares em 2013, para $25,2 em 2018. O esperado é que o país conquiste a marca de 50 bilhões até 2025.

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