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    10 filmes baseados em escândalos políticos
    Por Renato Furtado — 7 de set. de 2017 às 10:12

    Na onda de Polícia Federal, uma investigação sobre a história do cinema.

    O DIVO

    Geralmente, cinebiografias seguem uma receita de bolo clássica: fulano ou fulana nasce, vive, realiza algum feito digno de nota e morre. E é exatamente por causa dessa abordagem formulaica constantemente encontrada em biografias que um diretor como o italiano Paolo Sorrentino (A Juventude) decide fazer tudo ao contrário.

    Reunindo o melhor de suas influências (o espírito gângster do cinema de Martin Scorsese, o tom satírico de Stanley Kubrick em Doutor Fantástico e o estilo onírico de Federico Fellini, com quem Sorrentino é costumeiramente comparado), o realizador cria O Divo, uma obra repleta de fantasia, tragicomédia e crítica social que narra a “espetacular” vida de Giulio Andreotti. Eleito sete vezes primeiro-ministro da Itália, o político é uma das figuras mais importantes — e nocivas — da história contemporânea de sua pátria. Apesar de ser considerado por muitos como um "pai" e uma figura benevolente, Andreotti precisou escapar de inúmeras acusações de corrupção, assassinato e de associações à máfia para se manter no poder. Como se isso não fosse o bastante, ele também teve sua parcela de culpa no escandaloso caso do extermínio de Aldo Moro, um político de esquerda e seu rival na corrida pelo “trono” de primeiro-ministro.

    Protagonizado por um Toni Servillo (A Grande Beleza) hipnótico, perfomando no auge de suas habilidades cênicas, O Divo conta a história de homens inescrupulosos, corrupção estrutural, ganância, sede de poder, orgias monetárias, mortes suspeitas, assassinatos disfarçados de suicídios e a blindagem política e judiciária das mais poderosas personalidades do país. Ah, e não podemos esquecer da cereja do bolo. Após conseguir desviar de todas as acusações, Andreotti ainda foi eleito senador vitalício.

    Como bem define o personagem de um jornalista na metade da projeção de O Divo, Andreotti ou é o criminoso mais astuto de todos os tempos, porque nunca foi pego, ou é o homem mais perseguido da história. Parafraseando Tom Jobim, a Itália não é um país para principiantes.

    O CROCODILO

    Não é possível compreender a Itália dos últimos anos sem entender a figura de Silvio Berlusconi.

    Enquanto poderoso homem de negócios e dono de um verdadeiro conglomerado midiático, Berlusconi modificou a Itália através da vulgarização da televisão nacional; foi presidente do Milan, um dos grandes clubes de futebol do país; ocupou o cargo de primeiro-ministro durante nove anos no total, época em que criou decretos para proteger os principais líderes do Estado (o Presidente, o Primeiro-Ministro e os presidêntes da Câmara e do Senado), impedindo que estes fossem julgados por quaisquer crimes cometidos durante seus mandatos; participou ativamente de orgias regadas a drogas e garotas de programas — uma delas, inclusive, teria se fantasiado de Ronaldinho Gaúcho, então jogador do Milan, para satisfazer os fetiches do político —; e tem seu nome constantemente associado à máfia. Se tivéssemos que publicar toda a ficha corrida de Berlusconi, certamente passaríamos o dia inteiro aqui.

    Portanto, ciente de que eleger apenas um escândalo político da vida de Berlusconi seria uma tarefa impossível, o cineasta Nanni Moretti (Mia Madre) resolveu focar no fato de que a vida de Berlusconi, em si, é um escândalo político perfeito para os cinemas e transformou o bilionário em um vilão de filme B. Intercalando a trajetória e o drama familiar de um produtor cinematográfico (Silvio Orlando) e a vida de Berlusconi, O Crocodilo retrata a corrupta personalidade de Il Cavalieri de forma satírica, irônica, ácida e contundente.

    Ainda que nem sempre consiga equilibrar as duas narrativas que conduz, Moretti tem sucesso em explorar a passividade e a apatia dos italianos frente à corrupção estatal, demonstrando que o neoliberal Berlusconi — vilão maléfico e obsessivo de O Crocodilo —, é capaz de tudo para conseguir alcançar o que deseja. Mesmo que a Itália tenha que pegar fogo para isso.

    MILK - A VOZ DA IGUALDADE

    Apesar de não ter tido a chance de construir uma longa carreira na política, Harvey Milk aproveitou o tempo que teve para mudar os rumos dos Estados Unidos. Primeiro político a declarar abertamente que era gay, Milk foi assassinado em 1978 por um antigo colega da Câmara de Supervisores, o ex-policial Dan White. Motivado pela homofobia e pelo fato de que Milk se opôs firmemente à manutenção de seu mandato, White decidiu eliminar o político e o prefeito de São Francisco, George Moscone.

    Como verdadeiro mártir da comunidade LGBT e ícone da contracultura californiana que se tornou, Milk só poderia ser interpretado por um ator muito talentoso. Coube então a Sean Penn (Sobre Meninos e Lobos) a tarefa de retratar o corajoso político nas telonas — e o ganhador do Oscar não decepcionou. Além de ter sido muito aclamada, a performance rendeu a Penn seu segundo troféu de Melhor Ator na premiação da Academia e foi a espinha dorsal da cinebiografia dirigida por Gus Van Sant.

    Ainda que Milk - A Voz da Igualdade não inove tanto quanto o supracitado O Divo, o longa certamente cumpre sua razão de ser. Construído para representar uma das figuras mais inspiradoras, intrigantes e instigantes da história política recente dos Estados Unidos, Milk - A Voz da Igualdade é um dos melhores trabalhos de Van Sant. É um filme necessário sobre a importância da empatia, uma manifestação pela igualdade de direitos para todos os seres humanos e um tributo à memória de um homem que fez tudo o que podia — mesmo que isso tenha custado sua vida — para mudar o mundo. 

    JOGO DE PODER

    Doug Liman pode ser mais conhecido por sua atuação no território dos blockbusters — tais como No Limite do Amanhã, Sr. & Sra. Smith, A Identidade Bourne e o vindouro Feito na América —, mas isso não quer dizer que ele não saia de sua zona de conforto. Afinal de contas, ele é o responsável pelo drama político Jogo de Poder, baseado em um dos escândalos de abuso de poder mais chocantes — segundo os próprios norte-americanos — desde o infame caso Watergate.

    Escrito pelos irmãos Jez Butterworth e John-Henry Butterworth, colaboradores frequentes de Liman, Jogo de Poder dramatiza a história real de Valerie Plame (Naomi Watts) e Joseph Wilson (Sean Penn). O escândalo, que ficou conhecido como o Caso Plame-Wilson, foi motivado pela demissão de Valerie da CIA. O grande problema é como o desligamento foi realizado: tudo aconteceu porque o político Robert Novak decidiu revelar para a imprensa que Plame era uma espiã da Agência de Inteligência — o que era verdade — como uma forma de vingança. Dias antes, seu marido revelara que a administração do Níger, país localizado na África Ocidental, não tinha ligações com Saddam Hussein, um dos inimigos número um dos EUA à época, algo que enfureceu o governo nacional.

    Com uma forte performance de Watts, Jogo de Poder é um filme realista e "pé-no-chão", que ataca diretamente a rede de corrupção sobre a qual o governo George W. Bush estava baseada sem nunca tender ao extremismo. Liman não golpeia o caso de forma desmedida ou raivosa. Apesar de faltarem algumas nuances ao seu trabalho como diretor, ele busca constantemente os pontos fracos de Bush e de seu staff para estruturar sua crítica da melhor forma possível: este é o mérito de Liman em Jogo de Poder.

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