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    A história e a evolução da franquia Planeta dos Macacos

    A obra literária aclamada que virou um produto multimídia milionário e segue inovando 50 anos depois de fundar o cinema contemporâneo.

    Um legado multimídia

    As ideias propagadas pelas corridas armamentistas e espaciais contribuíram para a evolução técnica da indústria cinematográfica. Afinal, a propaganda também influenciava o público, assim nascendo uma demanda por retratar tal avanço nas telas. Nesse contexto, a premissa atual e os efeitos visuais de O Planeta dos Macacos combinaram para um sucesso espantoso que o colocam como um precursor do blockbuster, cuja noção seria estabelecida anos depois em Tubarão, de Steven SpielbergGeorge Lucas, por sua vez, se inspiraria no filme tanto na concepção conceitual de Star Wars, como de toda a estratégia mercadológica que lhe renderia bilhões de dólares em produtos licenciados. Fora todo o culto gerado por Planet of the Apes em seu tempo. Portanto, não é exagero dizer que a obra-prima de Franklin J. Schaffner é uma pioneira do cinema contemporâneo.

    Diante disso, O Planeta dos Macacos se tornaria um produto multimídia com faturamento em brinquedos, animações, quadrinhos, videogames e, em breve, como uma atração temática do 20th Century Fox World, construído na mesma Malásia em que Pierre Boulle passou a juventude. O grande sucesso da franquia viria, no entanto, de sua série cinematográfica, continuada dois anos após o lançamento do primeiro filme.

    A franquia nos cinemas

    De Volta ao Planeta dos Macacos mantém o teor crítico e social da adaptação original com metáforas sobre a Guerra do Vietnã e a manipulação da Guerra Fria. O roteirista Paul Dehn subdivide a história em dois núcleos distintos, irregulares, e o resultado é um longa-metragem disperso. Os macacos perdem espaço na trama para uma sociedade subterrânea ainda mais cruel, formada por humanos com poderes telepáticos. Apesar disso e do astro Charlton Heston ser substituído por um ator bem menos carismático (James Franciscus), a proximidade de seu antecessor fenomenal sustentou o filme dirigido por Ted Post, retornando seu orçamento de US$3 milhões com relevantes US$19 milhões.

    O interesse do público pela franquia foi decaindo filme a filme, e a despeito do bom trabalho realizado pelo roteirista Paul Dehn (de volta) e pelo diretor Don Taylor em Fuga do Planeta dos Macacos. Após a destruição do planeta em De Volta ao Planeta dos Macacos, o terceiro longa agora subverte a lógica da própria franquia: tanto narrativamente, com os símios experimentando o recomeço de sua raça partir para a Terra numa volta ao ano de 1973; como no tom, num filme abertamente mais cômico e visualmente aprazível ao espectador geral.

    Ainda assim, Fuga do Planeta dos Macacos segue fiel à essência da série cinematográfica com uma reflexão nada moral, porém religiosa e existencialista sobre exterminar a vida inteligente símia e se alterar o destino do mundo (uma subversão complexa — e muito bem-vinda — às discussões do original de Schaffner). Paul Dehn ainda se apropria de uma brecha da adaptação original para enriquecer o filme com um senso de predestinação inteligente, em que a volta ao passado de Zira e Cornelius explica por que os humanos passam a domesticar os macacos (o que resulta no estágio de regressão da raça humana do longa de 1968).

    E então, apesar de todos os percalços vividos por Zira e Cornelius rumo ao seu fim trágico, Fuga do Planeta dos Macacos deixa em aberto, mas de forma apropriadamente deduzível, como os macacos sobreviveram à caça dos humanos para se tornar uma raça soberana em O Planeta dos Macacos: pela salvação de Milos, o filho recém-nascido do casal símio que veio do futuro.

    A Conquista do Planeta dos Macacos aproveita o desfecho de seu antecessor para servir como prelúdio do filme de 1968, mostrando como o povo símio foi escravizado pelos humanos e que os macacos fizeram uma rebelião liderada pelo filho de Zira e Cornelius, rebatizado pelo proprietário de circo Armando como... César — não apenas homônimo, como inteligente e militante como o protagonista da recente trilogia iniciada por Planeta dos Macacos - A Origem.

    Até atingir esse ponto, A Conquista do Planeta dos Macacos é a distopia que retrata mais duramente os abusos dos humanos contra os símios — o que também aqui serve como analogia pesada, porém necessária sobre o preconceito racial. Desse modo, Paul Dehn retorna ao pensamento fundamental de Pierre Boulle para descortinar a disfunção inerente às sociedades, assim como suas repercussões naturais: protestos, conflitos, guerras, o fim. Eis o ciclo terrível das civilizações, sejam elas quais forem.

    Referência direta do recente Planeta dos Macacos: O Confronto, A Batalha do Planeta dos Macacos encerra a saga original de forma equivocada em sua tentativa (superficial) de operar um discurso mais esperançoso. Numa ordem direta do estúdio (em consequência do crescente desinteresse do público, principalmente dos jovens, pela premissa sombria da série), o roteirista Paul Dehn foi substituído por John William Corrington e Joyce Hooper Corrington, contratados para um desfecho impossível que, além de transformar o trágico César num herói desinteressante, resulta num discurso frouxo, ambivalente e escasso das ideias fortes que marcaram a franquia.

     

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