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    Quem está certo em Capitão América: Guerra Civil, Steve Rogers ou Tony Stark?
    Por Rodrigo Torres — 7 de mai. de 2016 às 11:11
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    Homem de Ferro se rende à regulação, mas também à burocracia. Capitão América crê numa liberdade excessiva — porém, visando à eficiência para combater e servir. De que lado você está?

    Grandes filmes têm a capacidade de ir muito além de seu escopo, sua trama, e refletir (sobre) o mundo em que vivemos. O mesmo vale para blockbusters de super-heróis. Considerado um dos maiores do subgênero, Batman - O Cavaleiro das Trevas, por exemplo, antecipou em anos a discussão ética sobre vigilância global deflagrada por Edward Snowden.

    Capitão América: Guerra Civil anseia algo semelhante.

    A premissa por trás da rixa entre Steve Rogers (Chris Evans) e Tony Stark (Robert Downey Jr.) é uma verdadeira guerra ideológica. Capitão América 3 não se propõe a se aprofundar no assunto; são muitos personagens importantes, super-heróis, e um grande conflito a ser travado — não há tempo. Porém, a simples apresentação do tema é feita com tanta eficiência que já acendeu debates bem interessantes a respeito do assunto. Assim, fica a pergunta: qual Vingador estaria certo?

    A amizade com Bucky tem peso no filme, mas não na visão de Steve em relação ao registro.

    A primeira reação é se posicionar contra Tony Stark. Os eventos de Os Vingadores, Homem de Ferro 3 e Vingadores: Era de Ultron evidenciam traumas e motivações pessoais para ele apoiar a intervenção do governo. Ele sente o peso de cada vida que se perde quando Os Avengers entram em ação. Porém, não há como negar a validade de sua posição. Tony, afinal, foi quem teve a maturidade de estabelecer um diálogo com a Organização das Nações Unidas (ONU) e respeitar um tratado assinado por 117 países.

    O Capitão América erra em nem considerar o registro. Se assim fizesse, poderia entrar num acordo mais amigável. Mas o contexto não ajuda: o governo escolhe seu amigo Bucky (Sebastian Stan), vítima de uma organização criminosa que transformou-o numa arma (o Soldado Invernal), como bode expiatório; um primeiro alvo do registro. E a posição de Steve Rogers já era bem sólida: para ele, atender a um governo superior aumentaria a burocracia em momentos que demandam urgência. O vilão, assim, ficaria sempre (mais) à frente.

    De um lado, portanto, temos no Homem de Ferro uma visão mais condizente com a realidade. De fato, nenhuma organização militar deve ter o direito de entrar em países e intervir em causas de segurança nacional à revelia. Nesse contexto, o mais sensato é que os Vingadores prestem contas ao Estado. A questão é: até que ponto é cabível firmar o pé apenas no mundo real ao pensar numa obra de fantasia?

    Alexander Pierce: um retrato da desconfiança de Steve diante da classe política.

    Somos espectadores, afinal, e não podemos ignorar o que acompanhamos de nossa onisciência dos fatos. E o que se vê é um Steve Rogers que visa apenas ao bem. Enquanto Tony se martiriza por uma vida perdida, Stevie segue focado nas tantas outras salvas pelos Vingadores. Manter a humanidade segura é o unico objetivo do líder do supergrupo.

    Steve Rogers, aliás, sentiu na pele o que é confiar em organizações compostas por homens passíveis de corrupção. Caso específico de Alexander Pierce (Robert Redford), em Capitão América: Soldado Invernal. E o mundo real nos mostra, a cada dia, que isso se aplica aos mais diferentes governos, nas mais sólidas democracias, com representantes do povo atendendo a interesses privados que nem sempre refletem o bem da população.

    Nesse sentido, defender o Capitão América em Guerra Civil é, mais do que condizente com o filme, torcer por algo inaplicável à realidade. Pura catarse, já que não temos, na vida real, alguém a quem se possa confiar poder e liberdade tão grandes para vigilar a sociedade e protegê-la do mal. Por outro lado, apesar de todas as mostras de que e como governos podem ser ruins, a democracia é o único modo de se viver numa sociedade mais justa. E quem não abre mão desta visão mesmo ao observar um mundo de fantasia, não pode defender outro lado que não o do Homem de Ferro.

    Homem de Ferro: humanizado como nunca em Guerra Civil.

    Esta longa discussão não é mera abstração, com lugar só no texto. Aconteceu de verdade, num bom debate entre mim (e aqui eu peço permissão para usar a primeira pessoa) e um amigo, Fabiano Cruz. Temos visões de mundo muito parecidas, e mesmo assim discutimos arduamente sobre os dois polos do filme. Disso se fazem as boas obras de arte, capazes de transformar duas horas e meia de puro entretenimento numa reflexão proveitosa e realista.

    Por fim, numa coisa concordamos: esse é o ponto mais positivo de Capitão América: Guerra Civil. Um filme com lados bem definidos, distintos, defendidos por personagens multidimensionais, com pontos de vista a ser considerados. (E um final que humaniza o Homem de Ferro como nenhum outro.) Enfim, uma mostra de que o Universo Cinematográfico Marvel pode basear suas aventuras espetaculares em premissas sóbrias e maduras.

     

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    Comentários
    • TCF
      Falou.. falou e falou merda. Se houvesse um lei na qual já existe em paises como Coreia do Norte aonde colocasse cristãos ou pessoas que discorda em certos pontos do governo Norte Coreano em campos de concentração, ou acabam matando mesmo, essas coisas são proibidas por lei, ou seja, nestes casos o individuo devesse se submeter a ficar de baixo desta lei? Isto é sinônimo de liberdade ? O principio da moral objetiva se sobressai sobre essas morais subjetivas nas quais certos governos dizem ser certo ou errado. Capitão America estava certo em tudo, este tratado fazia com que tirasse a liberdade de escolha deles, e visasse somente a vontade, interesses e escolhas de um governo no qual é corrupto.
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