Jordan Firstman explica por que Club Kid vai além do cinema queer: "Pessoas heterossexuais podem se identificar" (Entrevista)
por Rafael Felizardo

Roteirista, diretor e protagonista de Club Kid, Jordan Firstman conversou com o AdoroCinema durante o Festival do Rio 2026.

Conhecido pelo humor provocativo e por explorar questões relacionadas à identidade, à sexualidade e ao sentimento de pertencimento em seus projetos, Jordan Firstman - ator, diretor e roteirista - vem conquistando espaço como uma das vozes mais particulares do cinema contemporâneo. Durante o Festival do Rio 2026, o AdoroCinema teve a chance de entrevistar o astro, em uma conversa centrada em seu mais recente filme: Club Kid.

Para quem não conhece, Club Kid é uma comédia dramática que acompanha Peter (Firstman), um promotor de festas underground de Nova York que construiu sua vida em torno da agitada cena noturna da cidade - marcada por excessos. Quando seu comportamento irresponsável começa a prejudicar sua carreira, ele enfrenta uma reviravolta inesperada: a chegada de Arlo (Reggie Absolom), um menino de 10 anos que ele sequer sabia que existia. Peter recebe a notícia de que Arlo é seu filho, e que precisará cuidar do jovem após a morte da mãe.

A partir daí, Peter começa a conciliar seu estilo de vida hedonista com as exigências da paternidade, enquanto confronta a própria imaturidade e descobre novas possibilidades de afeto.

Abaixo, confira a entrevista completa do AdoroCinema com Jordan Firstman:

Jordan Firstman Instagram @jtfirstman
Jordan Firstman

AdoroCinema: Club Kid parece ser um filme bastante particular. Até que ponto suas próprias experiências e referências pessoais influenciaram a construção desse universo? Há algo no projeto que você considera particularmente autobiográfico?

Jordan Firstman: Sim, quero dizer, frequento festas desde que tinha provavelmente 20 anos. Fui a Berlim pela primeira vez quando tinha 20 anos, e isso, de certa forma, expandiu meus horizontes. Durante toda a minha faixa dos 20, até hoje, essa tem sido a minha cena, a minha comunidade. Então, sim, busquei muita inspiração em experiências passadas e nas pessoas que conheci nas festas.

Também tinha muito a dizer sobre o período pós-pandemia, sobre o que estava acontecendo nas cenas que eu frequentava e sobre o excesso de consumo de drogas que parecia tão predominante. No filme, falo sobre a berlinização de Nova York. Portanto, havia duas perspectivas a partir das quais eu estava trabalhando. Eu tinha coisas a dizer sobre a minha comunidade, mas também queria falar sobre mim mesmo, minhas limitações e inseguranças, sobre querer ficar tempo demais na festa e, ao mesmo tempo, querer ir embora, mas não saber como fazer isso. Querer amadurecer, mas não saber como. Então, acho que o filme é uma combinação entre olhar para fora e olhar para dentro, onde reuni essas duas perspectivas para construir a história.

AC: Sim, imaginei. Existe uma linha muito tênue entre celebrar a liberdade dos personagens e mostrar as consequências de suas escolhas. Como você encontrou esse equilíbrio ao dirigir Club Kid?

JF: Acho que se trata simplesmente de mostrar as coisas como elas são. Não julguei nenhum personagem nem nenhuma de suas atitudes. Apenas tentei enxergar todos como pessoas, indivíduos complexos e plenamente constituídos. Até mesmo Saffron, que ama Arlo e gosta de vê-lo como DJ, também tem seus próprios interesses.

São essas particularidades que revelam as contradições dos seres humanos. Peter é um cara legal, uma pessoa gentil, mas também tem pouquíssima noção de quem ele é e não tem muita firmeza para se posicionar. Ele não consegue dizer não. Por exemplo, ele não deveria estar usando drogas, porque já está de ressaca, mas os amigos sugerem que todos consumam mais. E ele acaba fornecendo drogas a todos, embora devesse estar vendendo-as. Acho que essa é a trajetória de Peter ao longo do filme. Então, sim, acredito que a questão é simplesmente mostrar os altos e baixos que todas as pessoas que frequentam festas já vivenciaram. Não é possível ter um sem o outro. Para mim, essa é uma vida que vale a pena ser vivida. Eu não gostaria de ser alguém que passasse a vida sempre no meio-termo, sem experimentar os altos e baixos. Acho que ambos nos ensinam muito sobre o que significa ser humano.

AC: E você acha que Club Kid seria um filme diferente se tivesse sido feito há, por exemplo, 20 anos?

Essa é uma pergunta difícil. Não sei ao certo. Acho que houve grandes produções de cinema queer nos anos 1990 e 2000 que, em muitos aspectos, eram até mais subversivas do que Club Kid. Mas acredito que estamos em um momento em que - e esse era um dos meus objetivos - eu queria que o filme tivesse apelo comercial, por assim dizer, e alcançasse um público amplo. Acho que, hoje, as pessoas, pelo menos aquelas mais abertas a esse tipo de história, estão dispostas a assistir a um filme sem precisar classificá-lo como algo para gays ou héteros.

Elas conseguem enxergar uma história sobre uma pessoa, um pai e um filho. Os detalhes da vida desse personagem são que o protagonista usa drogas, é gay e organiza festas gays. Ainda assim, pessoas heterossexuais podem se identificar com os conflitos dele, assim como pessoas gays. Acho que essa é uma das diferenças em relação ao que acontecia há 20 anos. Naquela época, talvez dissessem: "Ah, esse é um microcosmo muito específico, de um mundo que desconhecemos, mas que é interessante observar de fora". Era quase como se estivessem olhando para animais em um zoológico. Acho que, hoje, as pessoas estão mais dispostas a reconhecer suas semelhanças com as pessoas queer e a pensar: "Tudo bem, estamos todos passando mais ou menos pelas mesmas coisas, só que de maneiras diferentes".

AC: Como entusiasta do universo cinematográfico, há uma questão que sempre me intrigou. Em Club Kid temos Arlo, um personagem jovem, inserido em um contexto adulto. Como é para um diretor trabalhar com uma criança no set de um filme que aborda temas tão maduros? Há certas coisas que precisam ser mantidas separadas ou é possível deixá-la ciente de tudo?

JF: Acho que, no início, enviamos o roteiro para a mãe dele [Reggie Absolom], apenas para ter certeza de que ela estava confortável com os temas abordados, e ela não teve nenhum problema. Depois, fiquei em dúvida se queria que ele lesse o roteiro inteiro ou se seria melhor apenas explicar algumas coisas para ele. Mas ele é um pouco mais velho do que o personagem e também é muito inteligente. Desde o começo, ficou claro que estava entendendo tudo.

Então, não havia motivo para tentar esconder dele o assunto do filme. Ele não compreendia todos os detalhes específicos, mas, não sei, assim como Arlo, ele é uma pessoa receptiva, tranquila e compreensiva. Inicialmente, achei que precisaria esconder muito mais coisas dele. Porém, à medida que as filmagens avançavam, ficou claro que não fazia sentido, porque ele era tão perceptivo que já entendia o que estava acontecendo. Se eu tentasse mentir para ele sobre algumas coisas, ou algo assim... Não precisei conversar com ele especificamente sobre drogas. Ele simplesmente entendia a história. Não sei exatamente qual é a percepção dele sobre todo esse consumo de drogas, especialmente porque já assistiu ao filme cinco vezes. Ele adora assistir ao longa.

Ainda não tive uma conversa propriamente dita com ele sobre o que pensa a respeito desses temas. Acho que ele se identifica muito com o vínculo entre Peter e Arlo, e é disso que ele mais gosta na história. Vai ser interessante vê-lo crescer e, talvez, assistir ao filme novamente daqui a dez anos, pensando: "Nossa, que experiência interessante foi aquela, quando eu tinha não sei quantos anos".

Reggie Absolom como Arlo A24
Reggie Absolom como Arlo

AC: Club Kid termina com um desfecho um tanto agridoce. O que motivou você a seguir por esse caminho, em vez de optar por uma solução mais fácil?

JF: Acho que, quando você está escrevendo, é como se fosse o deus do universo que está criando, e acredito que sou uma pessoa bastante espiritualizada. Acredito que o universo nos dá aquilo de que precisamos no momento em que precisamos. E não acho que Peter estivesse pronto para ter a guarda daquela criança. Acredito que Arlo foi o catalisador que levou esse personagem a começar a mudar. Mas acho que a verdadeira transformação acontece quando Arlo vai embora.

Aquele ano em que ele fica longe de Arlo é quando o trabalho de fato acontece. Acho que Peter não estava preparado. Ele simplesmente teria mergulhado nessa outra vida intensa, tentando criar uma criança para a qual não estava preparado. Eu queria que a lição aprendida por Peter fosse real e tivesse fundamento. Por isso, decidi mostrar Peter um ano depois, quando abro novamente essa possibilidade. Deixo em aberto a chance de ele construir uma relação com Arlo, mas somente depois de ter feito o trabalho necessário, porque ele não merecia essa oportunidade naquele momento.

Acho muito interessante o monólogo que ele faz no tribunal, porque há uma espécie de truque narrativo ali que precisei elaborar enquanto escrevia. Do ponto de vista de Peter, ele está pronto. Ele diz algo como: "Há dois meses, eu não estava preparado, mas agora estou". Essa é uma camada da cena. Mas existe outra camada, que é aquela que nós, como espectadores, precisamos perceber: ele ainda não está pronto. Acho que o monólogo continua muito centrado nele mesmo e em seu próprio crescimento. Ele diz que quer proporcionar uma vida melhor a Arlo, mas, ainda assim, não está preparado. Então, sim, eu queria fazer o que fosse melhor para Peter. Sabia que se afastar das festas, daquela cena e da intensidade dos últimos meses que havia acabado de vivenciar, passando a levar uma vida mais tranquila, poderia ajudá-lo a começar a construir uma relação consigo mesmo e a descobrir quem realmente é. Assim, mais adiante, ele finalmente poderia assumir as responsabilidades da maneira como precisa.

AC: Depois de concluir o filme e poder assisti-lo sob a perspectiva de um espectador, houve algo em Club Kid que surpreendeu você ou que ganhou um significado diferente daquele que tinha quando começou a escrever o roteiro?

Com certeza. Ainda aprendo coisas sobre mim mesmo quando penso no filme ou o assisto novamente. O mesmo acontece quando amigos que passaram por experiências semelhantes assistem a ele. Acho que Club Kid está tocando em um ponto muito sensível para muitas pessoas da minha comunidade. É algo sobre o qual vínhamos conversando há muito tempo, mas não acho que alguém tivesse retratado isso em uma obra audiovisual que, de maneira inesperada, consegue ser tão acessível. É como se estivéssemos vendo nossas próprias vidas refletidas na tela.

O filme aborda um momento muito atual, e tive a oportunidade de filmá-lo em festas reais. Acho que é por isso que ele transmite essa sensação de contemporaneidade. Para muitas pessoas da minha geração, especialmente pessoas queer, acredito que seja um grande alerta. Precisamos cuidar uns dos outros e preservar nossa comunidade, mas podemos reservar os excessos para ocasiões especiais, em vez de torná-los parte da nossa rotina diária. Acho que foi isso que o filme me proporcionou. Não me sinto mais tão perdido em meio a tudo isso. Não estou sóbrio, mas agora reservo as celebrações para momentos especiais. Acho que aprendi a ter um pouco mais de compaixão por mim mesmo e pelas pessoas ao meu redor, além de ser mais gentil comigo mesmo. Espero que as pessoas que assistirem ao filme também tenham essa percepção. Amadurecer é muito difícil, assim como encarar a si mesmo. Mas vale a pena quando você consegue fazer isso. Podemos nos beneficiar muito quando realmente nos dedicamos a nós mesmos.

AC: E como foi a experiência de escrever, dirigir e atuar em um mesmo filme?

JF: Tentei não encarar essas atividades como três coisas separadas. Para mim, o filme era como um buraco negro, por assim dizer, que absorvia tudo ao seu redor. Se eu tentasse separar a escrita da direção, a atuação da escrita ou qualquer uma dessas atividades das outras, teria sido demais para mim. Então, simplesmente precisei viver aquilo. Tive que respirar e mergulhar completamente na história e na visão que tinha para o filme para que tudo funcionasse.

Foi muito difícil e emocionalmente intenso. Tive muitas inseguranças e, sabe, houve dias em que eu voltava para casa depois das filmagens, ficava olhando para o teto e pensava: "Não consigo voltar amanhã. Simplesmente não consigo". Mas, ao mesmo tempo, você precisa voltar, porque há muita coisa em jogo. Eu sabia que muitas pessoas estavam contando comigo e que vinha tentando realizar esse projeto havia 15 anos. Por isso, sabia que precisava fazer um ótimo filme e me esforçar ao máximo. Mas também não podia deixar que toda essa pressão tomasse conta de mim, porque acho que o filme precisava respirar e ter momentos de alívio da tensão. Então, foi um exercício constante de equilíbrio: me esforçar ao máximo para fazer as coisas acontecerem e, ao mesmo tempo, criar, no set, um ambiente confortável, seguro, livre e divertido. Divertido para mim também! Houve dias em que precisei parar e pensar: "Espera, eu também preciso me divertir com isso". Afinal, é algo que também deve ser divertido.

AC: Para finalizar: Se o público saísse do cinema, após Club Kid, com apenas uma pergunta em mente, qual você gostaria que fosse?

JF: Essa é uma grande pergunta. Eu diria: O que seria necessário para você mudar? Sabe? Será que o amor é o que nos leva a mudar? Será que ele tem o poder de nos transformar? É isso.

Club Kid
Club Kid
Data de lançamento 11 de outubro de 2026 | 2h 02min
Criador(es): Jordan Firstman
Com Jordan Firstman, Reggie Absolom, Diego Calva

Vale lembrar que Club Kid ainda não tem data de estreia oficial no Brasil. O elenco conta com Diego Calva, Cara Delevingne, Miss Benny, Colleen Camp, Kirby Howell-Baptiste e Saturn Risin9.

Rafael Felizardo
Rafael Felizardo
-Redator | Crítico
Sonhador desde pequeno e apaixonado por cinema de A a Z, encontrou em David Lynch um modo de sonhar acordado.
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