Até um careca (como eu) nota quando a peruca é ruim: Especialistas desvendam os segredos da caracterização em filmes e séries

Entretelas de tule visíveis em 4K, falta de tempo no camarim e correria nos sets, caracterizadores revelam por que é tão difícil fazer um cabelo falso parecer real no cinema e na TV.

Por Diego Souza Carlos

Quem adora cinema está acostumado a tomar alguns sustos diante de filmes e séries - e não, não estou falando de jumpscare ou qualquer história de terror. Na verdade, o assombro vem através da caracterização que gera um dúvida cruel: como é que os profissionais aprovaram uma peruca tão feia? A ideia dessa pauta surgiu em uma reunião, enquanto discutíamos sobre o lançamento do live-action de Moana - e se você viu algumas imagens do longa, já sabe do que estou falando.

Na releitura da Disney, The Rock volta como Maui, mas agora em sua versão de carne e osso. Para se chegar próximo ao visual da animação, colocaram uma cabeleira um tanto duvidosa em sua cabeça careca (como a minha). Uma vez posto o assunto na mesa, a ironia se deu quando eu, um jornalista desprovido de cabelos, decidi mergulhar no tema para entender o que diabos está acontecendo. Para isso, entrevistei alguns profissionais que já trabalharam em produções brasileiras e fiz uma pesquisa que pretende ser uma introdução informativa sobre o tema.

Quais tipos de perucas são usadas no cinema, na TV e nos palcos?

Neftlix

Para começar, é preciso dizer que existem vários tipos de peruca - e nem todas se chamam assim. Existem acessórios que utilizam cabelo humano, assim como os de fios sintéticos e até mesmo materiais especiais. Ao falar sobre os adereços diferenciados, Paula Vidal, profissional que passou um período em Los Angeles estudando a indústria internacional de cinema e também ministra cursos de formação em caracterização, citou o exemplo de A Voz Suprema do Blues. No longa, as perucas feitas com crina de cavalo foram recriadas para a personagem de Viola Davis por um apelo histórico da narrativa.

"Esse trabalho tem uma coisa muito específica que é a peruca que ela usa. É uma peruca que pela época e pela condição social dela era feita de crina de cavalo e eles reproduziram para dar a mesma textura", disse a caracterizadora ao me lembrar que o projeto da Netflix chegou a vencer o Oscar de Melhor Maquiagem e Penteado. "Acho muito lindo esse trabalho."

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Dessa forma, já podemos entender que há um universo gigantesco a partir daquilo que completa o visual de qualquer personagem, seja nos palcos, seja em frente às câmeras. Falando sobre como essas cabeleiras se apresentam nas telas, o designer de perucas André Góes apontou um detalhe curioso: os equipamentos utilizados hoje em dia, em especial com a alta definição do 4K e 8K, acabam exigindo ainda mais dos acessórios.

"Geralmente quando é para audiovisual, os cabelos são mais humanos, precisam ser mais realistas, tem que ter mais movimento... Já quando é para teatro e drags, geralmente elas precisam de um cabelo que tenha mais fixação, que dure mais, que fixe o penteado. O cacho dura mais, o penteado dura mais, tudo dura mais", comentou ele que tem créditos em produções como Fiz Chaplin, Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos, Drag Race Brasil (1ª temporada) e Cantando na Chuva, além de ser o peruqueiro de Rita Von Hurts e Diego Martins.

World of Wonder Productions

"Quando é para cinema, o tule que a gente usa para fazer as perucas é um pouco mais fino, ele tem tonalidades mais próximas com o tom da pele", explicou ele sobre a tela de suporte que pode dar uma aparência mais natural ao acessório. "Nas câmeras de 8K, eles falam: 'Vai ter muita resolução, vai ter muito close'. Então tem que ser um tule que suma na pele, que não apareça de jeito nenhum."

Com créditos em Beleza Fatal e O Lado Bom de Ser Traída, Amanda Tedesco também aborda a necessidade de se estar presente em cada momento para que o efeito entre as perucas e o resultado na câmera funcione. "Precisamos pensar na resolução da câmera, iluminação, distância dos planos e até na movimentação do personagem. Uma peruca que funciona bem em um plano mais aberto pode denunciar sua construção em um close, principalmente se estamos falando de cinema", conta a hairstylist com mais de 15 anos de atuação. "Um pequeno defeito em uma tela gigante vira um grande defeito."

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Essa proximidade entre diretores e profissionais de cabelo e maquiagem acaba gerando um trabalho conjunto, conforme apontou Britney Federline, que divide suas atuações entre caracterizadora, maquiadora, roteirista e diretora. "A gente da caracterização, em relação a peruca e a efeitos especiais, sempre fala que quando há cenas com o adereço, precisamos dirigir um pouco junto", conta a artista com atuação em Doce de Mãe e Tremembé.

A artista que também trabalhou em Bruna Surfistinha 2 - longa ainda inédito - me contou que as circunstâncias acabam colaborando para episódios como esse, e isso também nos ajuda na investigação inicial desta reportagem. "[Existem] limitações financeiras, técnicas e de falta de treinamento de fotógrafo, diretor de fotografia e de diretor de cena", explicou ela. "Um efeito não pode ser filmado de qualquer lado."

Profissionais competentes, grandes orçamentos e perucas ruins: o que está acontecendo na cabeça das pessoas em Hollywood?

Disney

Nesta investigação, de volta ao The Rock, quis entender melhor como produções com tanto dinheiro acabam optando por uma caracterização eventualmente questionável. De volta ao nosso exemplo inicial, Moana de 2026 foi produzido com 250 milhões de dólares. Falta de capital não é a resposta para essa situação. O desconhecimento do setor também não, conforme André nos lembrou das elogiadas caracterizações em Cinderela e A Bela e a Fera. Portanto, o que houve? Todos os entrevistados me deram uma luz sobre este aspecto, algo que já deve ter passado na cabeça de muita gente - com o perdão do trocadilho.

A transformação diária do ator levava cerca de 2 horas e meia por dia, incluindo a colocação da peruca, próteses e o bodysuit. Curiosamente, embora o resultado não tenha agradado, "a peruca foi muito crucial e importante porque, para manter a integridade do personagem da versão animada, o Maui tinha muito orgulho do seu cabelo", comentou Dwayne Johnson em entrevista à EW. "E ele tinha um cabelo lindo, um lindo cabelo de semideus."

Reprodução/X

"Todo mundo no mundo tem uma opinião sobre cabelo", comentou o diretor Thomas Kail. "As pessoas podem não querer falar sobre a iluminação ou sobre a construção do cenário, mas vão falar sobre o que alguém está vestindo e nós íamos pensar profundamente sobre como seria o cabelo de alguém."

Apesar do corte final (olha lá o trocadilho de novo) não ter alcançado o que os fãs esperavam, tudo poderia ser bem pior: segundo o The Wall Street Jorunal, o estúdio cogitou usar inteligência artificial para o personagem. “O plano da Disney era trabalhar com a empresa de IA Metaphysic para criar deepfakes do rosto de Johnson que seriam sobrepostos à performance de Reed (dublê de corpo) nas filmagens, criando um ‘dublê digital’ que, na prática, permitiria que Johnson estivesse em dois lugares ao mesmo tempo", afirma o veículo.

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"O orçamento vai para o que é mais importante: se é uma série de ação, o orçamento maior vai ser para explosão, para derrubar caminhão", exemplifica Paula Vidal, que vê em The Crown e Bridgerton bons exemplos de trabalhos bem executados. "Existe uma falta de olhar para o trabalho, um descaso de importância mesmo", continua a artista com trabalhos em títulos como DNA do Crime, Os Donos do Jogo e Caramelo. "Uma peruca bonita, para ficar boa de verdade, tem que ser feita com calma e nas medidas da cabeça da pessoa. Você tem que tirar medidas, fazer uma prova, ver se está tudo certo, aumentar, diminuir, colocar mais cabelo. Não é ir na loja, comprar e enfiar na cabeça."

Amanda, que elogiou a caracterização de Cate Blanchett em Tár, concorda: "Dinheiro não garante necessariamente um bom resultado. Uma caracterização envolve profissionais especializados, o material certo, tempo de preparação, pesquisa, testes e, principalmente, uma boa comunicação entre direção, produção, cabelo, maquiagem e figurino", comentou a profissional ao citar que a falta de condições ideais de trabalho dificultam no alcane de um resultado perfeito.

Ao fim, entende-se que entre tantas demandas de uma produção audiovisual, a maquiagem e o cabelo podem acabar ficando em segundo plano. Especialmente quando os profissionais têm pouco tempo para o trabalho. "São muitas variáveis que impedem a perfeição: o tempo de camarim, a quantidade de cenas, o dinheiro que se tem, a disponibilidade de agenda dos atores antes", acrescentou Britney. "As coisas 90% das vezes são resolvidas quase ao vivo. É muito injusto querer exigir uma perfeição de uma coisa que nem é natural, é uma peça fabricada."

[Para os estúdios] é mais importante conseguir um ator, conseguir a agenda, conseguir outras coisas e, por último, talvez, a caracterização, que nem sempre é tão priorizada

Há resistência dos atores?

Focus Features

Agora que sabemos um pouco mais de um dos grandes problemas de bastidores do audiovisual, que implica diretamente no que vemos nas telas, há outro aspecto que também atravessa este trabalho: a aceitação de alguns atores em vestir perucas e a resistência de outros. Para André, o avanço das front laces trouxe maior aceitação entre as atrizes, pois permite mudar radicalmente o visual em novelas sem aplicar químicas agressivas no próprio cabelo.

"Hoje em dia está tendo mais aceitação", conta ele. "Ajudou muito as atrizes e cantoras a mudar a imagem sem precisar mexer no próprio cabelo. As mulheres que estão fazendo novela não precisam mais ter que descolorir ou danificar o cabelo; elas usam uma lace super perfeita de cabelo humano. Antigamente tinha mais preconceito porque eram perucas costuradas fechadas que ficavam artificiais."

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Já Amanda traz um aspecto interessante quanto à forma como a audiência lida com a beleza, especialmente em uma era permeada por imagens geradas por inteligências artificiais. "Acredito que existe hoje uma cobrança muito grande pela perfeição, especialmente por parte do público, que está cada vez mais atento aos detalhes e acostumado com estéticas irreais geradas por IA."

Longe de ser um cenário simples, Britney também compartilhou relatos em que atores não desejavam utilizar o recurso ou acabam optando por algo ineficaz diante das telas e, naturalmente, se tornam alvo de críticas. "No audiovisual brasileiro tem muito preconceito com peruca, e parte de todos os lugares: o ator não quer usar, a produção evita e a própria caracterização também", explica ela, que conta com mais de 40 projetos no currículo. "Eu uso muito o termo 'vestir a peruca', que para mim é como se fosse um figurino. Não adianta vestir qualquer roupa no ator se ele não comprar aquilo. O ator tem que estar seguro."

O Brasil do Brasil vs mercado internacional

ABC
A gente tem essa sensação de que Hollywood é muito melhor, e eles meio que não são. O profissional brasileiro é potencialmente mais criativo, porque a gente tem que dar jeito com menos recursos.

Para fechar, diante dessa pesquisa, precisamos falar em como os brasileiros têm avançado na área do cabelo e maquiagem. Entre os profissionais entrevistados, há um consenso de que o trabalho no nosso país consegue ter uma alta qualidade tanto pelo comprometimento quanto por aspectos como diversidade e criatividade - este último, às vezes gerado por falta de recursos.

Falando sobre esse recorte, André Góes comentou que a mudança começa quando os designers, maquiadores e hairstylists atingem um olhar mais apurado devido a variedade de fios e perfis, por exemplo. "A indústria americana peca muito, já no Brasil a gente começa a se preocupar mais. Os gringos sempre fazem um cabelo mais para o liso, um cacho mais solto. Como você viu o da Moana, que era para ser um cabelo extremamente cacheado e ela saiu praticamente com um cabelo liso", refletiu. "A indústria americana não tem essa preocupação com a estética afro."

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De uma vivência recente com uma equipe internacional, Britney Federline contou que houve uma disparidade bem marcante entre eles e os brasileiros envolvidos no projeto. "A gente tem uma qualidade superior ao trabalho deles, porque eles têm muito mais acesso a dinheiro, à tecnologia, e a gente faz muito com pouco".

Paula Vidal, que passou um bom tempo nos Estados Unidos, concorda: "A gente tem essa sensação de que Hollywood é muito melhor, e eles meio que não são. O profissional brasileiro é potencialmente mais criativo, porque a gente tem que dar jeito com menos recurso", disse. Durante o papo, ela compartilhou também que temos uma demonstração muito recente de um trabalho abaixo do esprado com Penélope Cruz no filme O Convite.

No fim das contas, entre telas 8K, correria de camarim e falta de verba, fazer um cabelo fake parecer real é uma verdadeira arte. E se até um careca como eu consegue reparar quando dá errado, a gente precisa aplaudir e valorizar quem faz dar certo na tela. Dito isso, poderíamos investigar o que vem acontecendo com as cabeleiras de Nicole Kidman em uma próxima oportunidade. O que acham?

Diego Souza Carlos
Apaixonado por cultura pop, latinidades e karê, Diego ama as surpresas de Jordan Peele, Guillermo del Toro e Anna Muylaert. Entusiasta do MCU, se aventura em estudar e falar sobre cinema, TV e games.
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