Eurotrip: Passaporte para a Confusão – ou, como poderíamos chamá-lo, "American Pie Desce a Ladeira da Europa com um Orçamento de Terceira e um Roteiro de Bar". Este filme, uma obra-prima do cinema que provavelmente só existe porque alguém no estúdio disse "E se a gente fizer Road Trip, mas com sotaques ridículos e estereótipos xenofóbicos?", é um verdadeiro monumento à comédia adolescenteira dos anos 2000. Vamos, então, dissecar essa joia rara com o rigor científico que ela merece.
A trama segue Scott, um jovem americano rejeitado por sua pen-pal alemã (que, surpresa, era uma mulher linda o tempo todo – porque é claro que era). Ele então parte numa jornada épica pela Europa com seus amigos, porque, aparentemente, em 2004, a internet ainda não tinha inventado o "Oi, desculpa, eu sou burro, você quer namorar comigo?" por e-mail.
O roteiro é uma colcha de retalhos de piadas que variam entre "engraçado se você tiver 14 anos" e "ofensivo se você tiver mais de dois neurônios". Há momentos de genialidade involuntária, como o fato de que o vilão do filme é um ex-nazista que agora trabalha como... hóspede de hostel em Bratislava? Ah, sim, porque nada diz "redenção pós-guerra" como explorar turistas bêbados.
Scott Mechlowicz, como Scott, entrega uma performance tão marcante que você quase consegue lembrar o nome do personagem depois que o filme acaba. Jacob Pitts, como o amigo alcoólatra, parece ter sido contratado apenas para dizer "Vamos beber!" em todos os sotaques possíveis. Michelle Trachtenberg, antes de ser Dawn Summers em Buffy, aqui é a irmã gostosa que existe apenas para gerar sexual tension desnecessária (porque Hollywood adora um incesto light).
E não podemos esquecer Matt Damon. Sim, aquele Matt Damon. Sua participação como o vocalista da banda de punk Lustra (que canta "Scotty Doesn’t Know", o hino não-oficial dos traídos) é tão aleatória que até hoje me pergunto se ele perdeu uma aposta.
A fotografia de Eurotrip é basicamente um "Olha como a Europa é bonita (e cheia de prostitutas)!". Cada país é reduzido a um estereótipo: Londres é chuva e gente feia, Paris é só sexo, Amsterdam é maconha e prostituição, Bratislava é... bem, Bratislava é o inferno na Terra, segundo o filme.
Os planos são tão profundos quanto um post do "Memes Engraçados", mas convenhamos: ninguém está aqui para profundidade. Estamos aqui para ver um cara pelado sendo perseguido por torcedores do Chelsea.
A trilha sonora é um mix de punk pop e eletrônica que faz você sentir saudade de uma época que talvez nem tenha vivido. "Scotty Doesn’t Know" é tão contagiosa que você quase esquece que é sobre ser corno. Já a música da cena do Vaticano ("Du Hast" do Rammstein tocando enquanto Scott vira Papa em 5 segundos) é tão absurda que chega a ser poética.
O final é previsível como um episódio de sitcom genérico: Scott encontra Mieke, eles se beijam, os amigos fazem uma piada sexual, e a vida segue. Mas a cereja do bolo é a cena pós-créditos, onde os amigos estão perdidos no deserto porque, claro, o filme não podia acabar sem mais uma piada de "americanos burros".
Eurotrip não é um bom filme. Mas é um filme tão ruim que se torna bom. Ele é politicamente incorreto, exagerado, absurdo e, em alguns momentos, genuinamente engraçado. É o tipo de filme que você assiste bêbado com os amigos e depois cita por anos como "Nossa, lembra daquele filme ridículo?".
Se você quer uma comédia inteligente, assista Monty Python. Se quer uma comédia burra, mas que sabe que é burra e abraça isso com orgulho, então Eurotrip é o seu "guilty pleasure".