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    O Pastor e o Guerrilheiro
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    O Pastor e o Guerrilheiro

    Quem esquece o passado, enterra o futuro

    por Aline Pereira

    Ideias são mesmo à prova de balas e O Pastor e o Guerrilheiro, filme de José Eduardo Belmonte (Carcereiros) que estreou no Festival de Cinema de Gramado 2022, vem para contar uma história que ilustra a força desse conceito com emoção e originalidade. Estrelado por Johnny MassaroCesar Mello e Julia Dalavia, o longa faz uma ponte direta entre passado e presente para refletir sobre legado e para ressaltar a importância da memória. Quem esquece os erros do passado está condenado a repeti-los no futuro?

    A trama de O Pastor e o Guerrilheiro começa em 1968, quando o jovem João (Johnny Massaro) sai da universidade e vai para a Guerrilha do Araguaia, movimento que aconteceu na região amazônica durante a década de 1960 com objetivo de levantar uma revolução socialista. Boa parte dos guerrilheiros, em sua maioria estudantes, foram mortos em combate ou presos pelo regime militar, como o protagonista no filme.

    Capturado por um coronel, João é submetido a todo tipo de tortura e jogado em uma prisão onde encontra Zaqueu (Cesar Mello), um pastor cristão evangélico preso por engano após ser “confundido com um comunista”. Apesar das diferenças ideológicas, João e Zaqueu encontram um no outro uma companhia importante para resistir aos horrores que enfrentam. Os dois amigos, então, decidem marcar um reencontro para 27 anos depois, à meia-noite, data que marcaria a virada do milênio - o encontro, no entanto, nunca acontece, já que João morreu pouco antes dos anos 2000.



    O Pastor e o Guerrilheiro intercala passado e presente para falar sobre memória

    A história entre os dois é atravessada por cortes no presentes, onde Juliana (Julia Dalavia, atriz do remake de Pantanal) descobre que seu pai foi o coronel que torturou João e, por meio de um livro que encontrou em casa, descobre o encontro marcado entre o pastor e o guerrilheiro. É com esta alternância de períodos temporais que o diretor José Eduardo Belmonte apresenta uma história sobre a importância de se preservar memórias - por mais dolorosas que elas sejam.

    No presente, Juliana mantém vivo o espírito de resistência frente a injustiças sociais e a descoberta de que é filha de um torturador a aterroriza. A partir daí, o filme nos propõe a uma reflexão sobre o trabalho de romper com a violência do passado, ainda que nós (em um sentido amplo, como sociedade) sejamos todos filhos dela e a ligação ainda seja muito próxima. Não é sobre ignorar ou esquecer os períodos mais difíceis e ao contrário: se lembrar dos erros e conhecê-los é passo fundamental para não mais repeti-los.

    Juliana representa também a esperança de João e Zaqueu no futuro. Lá atrás, quando combinaram o reencontro, a virada do milênio nos anos 2000 era um acontecimento ainda enigmático, cercado de especulações sobre um futuro distante e “perfeito” - que nunca chegou. Apesar da luta pela liberdade, João não viu esse futuro chegar e Zaqueu chegou até ele profundamente marcado por memórias terríveis, mas Juliana é o símbolo da existência dos dois. Ainda há quem consiga se conectar com dores que não foram individuais e que se dedique a manter a memória viva.



    Política e religião ficam frente a frente em O Pastor e o Guerrilheiro

    Política e religião são os dois assuntos sociais mais polêmicos (e influentes) da história e continuam sendo até hoje. Especialmente hoje. O Pastor e o Guerrilheiro não se acanha diante da discussão e colocam os dois lados para conversar frente a frente, representados nas figuras de João e Zaqueu. O resultado é interessante: na prisão, os protagonistas apresentam seus pontos ideológicos e, claro, as diferenças vêm à superfície.

    Mas o que parece ser um embate sem chances de conciliação abre espaço também para o encontro de semelhanças. O objetivo de agir com bondade e justiça está nas convicções dos dois, mas a “força” que os move, claro, é diferente. João não concorda com algum tipo de providência divina, enquanto Zaqueu não acredita na violência dos conflitos. Essa oposição evidencia o poder do diálogo, da divergência e do que pode acontecer quando este espaço é aberto. 

    A história de Zaqueu também se alterna entre o passado e o presente e o filme faz um bom trabalho em debater a questão religiosa dentro de seus próprios preceitos. O pastor tem dois filhos jovens, que trazem visões diferentes sobre como lidar com sua fé e sobre o que é correto de acordo com suas crenças. O pastor e seu filho, especialmente, estão em caminhos distintos dentro do cristianimo evangélico e não concordam em todos os pontos.



    Os debates políticos aparecem também na relação de Juliana com os colegas, especialmente com Diogo (Túlio Starling), um de seus colegas. Existem divergências dentro dos movimentos sociais e das mesmas vertentes políticas, que precisam ser debatidos e compreendidos. Um dos conflitos mais interessantes é o de Juliana com o pai: o coronel deixou parte de sua herança para ela, mas a jovem tem dúvidas sobre aceitar ou não o dinheiro de um torturador.

    Se há um ponto mais baixo nessas discussões talvez seja o didatismo com que são apresentadas. Em alguns momentos da história, as conversas perdem a naturalidade e se tornam genéricas com o objetivo de passar a mensagem de forma linear demais - a verdade é que é difícil dizer se isso é um defeito e há de se pensar que, às vezes, é preciso ser 100% claro no que se quer dizer.

    Por outro lado, O Pastor e o Guerrilheiro poderia ganhar mais força com uma contextualização maior do período do regime militar e, especialmente, dos movimentos contrários. João estava na guerrilha do Araguaia, mas é possível que aqueles que não sabem o que foi esse episódio histórico continuem sem saber exatamente como os acontecimentos se desenrolaram e quais foram os impactos para as lutas revolucionárias do Brasil. 

    As histórias de João, Zaqueu e Juliana dizem muito sobre legados que são deixados para o futuro - em todas as suas frentes - e como um influencia no outro. Ao pensar na história e nos eventos que nos mudaram como sociedade, é fundamental relacioná-los ao que acontece no presente e no que precisamos abandonar urgentemente.

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