O filme diverte, enche os olhos com cores e pancadaria bem coreografada, mas deixa no ar aquela dúvida cruel: será que o Dragão Guerreiro precisava mesmo sair da aposentadoria para essa missão? Vamos entender juntos onde o chi dessa nova aventura brilha e onde ele falha.
A transição na cadeira de direção grita logo nos primeiros minutos. Mike Mitchell joga no seguro e trata o filme quase como um episódio estendido de TV com orçamento bilionário. Ele sabe enquadrar uma boa piada visual para garantir que as crianças não desviem os olhos da tela por um segundo sequer. Mas o preço desse entretenimento hiperativo é alto. Falta a mão contemplativa dos diretores anteriores, aquela sutileza quase poética que nos dava tempo para respirar embaixo de um pessegueiro e entender a dor dos personagens. O filme sobrevive espremido nesse corredor de transição criativa, batendo ponto para cumprir a agenda do estúdio sem arriscar uma vírgula de inovação.
E por falar em não arriscar, chegamos ao maior calcanhar de Aquiles desta nova aventura. O roteiro sofre de uma asma narrativa crônica: a história simplesmente não respira. Po e Zhen pulam de um cenário para o outro empurrados por coincidências absurdamente convenientes. Zhen sabe todas as senhas, conhece todos os atalhos e tem a solução mágica para qualquer porta trancada. As coisas acontecem porque precisam acontecer, não porque os personagens tomaram decisões difíceis. Fica a impressão de que escreveram as cenas de ação primeiro e depois costuraram um texto frágil só para conectar as lutas.
Não dá para negar que Jack Black carrega o humor nas costas com um carisma que beira o absurdo. A energia vocal dele ainda traz aquele tom exato de fã deslumbrado que a gente aprendeu a amar no Po. O problema é que as piadas ao redor dele oscilam demais. Tem momentos em que o humor natural do panda te arranca gargalhadas sinceras, mas logo em seguida o filme joga na sua cara uma esquete exageradamente infantil. Aqueles coelhinhos psicopatas, por exemplo, parecem ter fugido de um filme dos Minions, quebrando qualquer tentativa de criar uma tensão real nas cenas.
Mas olha, quando o papo acaba e a briga começa, a mágica da DreamWorks volta com força total. A ação é criativa, cheia de energia e visualmente deslumbrante. Eles sabem usar o ambiente a favor da coreografia de um jeito muito inteligente. A sequência na taverna instável, que fica gangorrando à beira de um precipício a cada passo em falso dos personagens, é um deleite absoluto. É a gravidade virando personagem e ditando o ritmo dos golpes, devolvendo pra gente aquele prazer estético puro de ver artes marciais na tela.
E vale destacar um acerto brilhante dentro dessa ação: a forma como os golpes são misturados. Quando a Camaleoa começa a usar as habilidades roubadas, nós vemos um verdadeiro liquidificador de estilos na tela. O filme mescla a força bruta absurda do Tai Lung com a elegância letal de antigos mestres em frações de segundo. Essa fluidez entre técnicas diferentes é um prato cheio pra quem gosta da estética do kung fu e merecia até mais tempo de tela.
Desenvolver a galera ao redor do protagonista virou um desafio que o filme não conseguiu superar. Os novos rostos, especialmente os criminosos do covil de ladrões, entram e saem de cena às pressas, soando mais como adereços de cenário do que como habitantes de um mundo vivo. E vamos colocar o elefante na sala: a ausência dos Cinco Furiosos machuca a dinâmica da franquia. Eles eram o contraponto sério para as palhaçadas do Po. Sem Tigresa, Macaco e os outros, fica um vazio narrativo que o roteiro tenta cobrir com bandidinhos genéricos, falhando miseravelmente.
A ideia central para o Po é fantástica no papel. Ele precisa deixar de ser o guerreiro que resolve tudo na porrada para virar um guia espiritual. É a síndrome do impostor batendo na porta de quem está prestes a se aposentar. Só que o filme mastiga esse conflito no modo automático. A gente não vê o Po sofrendo de verdade com essa mudança, ele apenas resmunga um pouco e logo parte pra próxima briga. O crescimento pessoal dele acontece de forma rala, tirando quase todo o peso dramático que acompanhava o herói em suas antigas crises de identidade.
Esse tropeço no desenvolvimento do Po esbarra direto na moral da história. A mensagem de que "todo caroço de pêssego carrega a promessa de uma nova árvore" é belíssima. Falar sobre aceitar novas fases da vida e deixar o passado ir embora é um tema profundo para adultos e crianças. Mas o filme prefere ditar essa lição em voz alta através do Shifu em vez de fazer o Po vivenciar essa filosofia na pele. O tema fica na superfície, plantado, mas sem água para crescer.
Plasmática Se tem algo que me deixou frustrado foi o desperdício colossal da Camaleoa. A habilidade dela de roubar o chi e a forma de outros guerreiros tinha um potencial assustador. Mas e a motivação dela para dominar o mundo? Ela decidiu virar vilã porque, no passado, os mestres não a deixaram treinar kung fu por ser pequena demais. É isso mesmo. Em um universo que tem o Louva-a-Deus, que é literalmente do tamanho de um dedo e chuta traseiros, essa desculpa não faz o menor sentido. Comparada à fúria passional de Tai Lung ou ao terror psicológico do Lorde Shen, as intenções dela soam como um chilique infantil.
Apesar de ter motivações patéticas, visualmente a vilã é um acerto espetacular. O design de personagens segue sendo um terreno onde a equipe de arte passeia com os olhos fechados. A textura escamosa da pele dela, os trajes majestosos e, principalmente, a fluidez bizarra com que ela contorce os ossos para mudar de forma, trazem um ar de feitiçaria sombria que quase compensa o texto ruim que a personagem recebeu.
Se a estrutura ameaça ruir, a escalação de vozes funciona como cimento de secagem rápida. A dublagem é o pilar que segura tudo de pé. O encanto de Jack Black já é lei, mas Viola Davis faz um verdadeiro milagre aqui. Ela empresta uma aspereza e uma arrogância tão palpáveis para a Camaleoa que a vilã acaba soando muito mais perigosa na entonação da voz do que nas atitudes escritas no roteiro. E, claro, escutar Dustin Hoffman dando aquele tom crônico de impaciência ao Mestre Shifu ainda é um dos pequenos luxos do cinema animado.
A manutenção de Hans Zimmer e a colaboração de Steve Mazzaro na trilha sonora agem como um desfibrilador em momentos de quase morte narrativa. A música abraça aquela grandiosidade épica, misturando percussões pesadas com instrumentos tradicionais chineses. Muitas vezes, a trilha sonora carrega a cena nas costas, forçando o espectador a sentir a emoção e o clima de urgência em batalhas que o roteiro não conseguiu construir direito.
Quando o assunto é excelência gráfica, não tem o que discutir. A iluminação volumétrica, as texturas, os efeitos de partículas brilhantes flutuando quando o chi é drenado. As cores vibrantes explodem na tela, criando um verniz resplandecente que hipnotiza os olhos com extrema facilidade. É, sem dúvida, o filme mais bonito da franquia em termos puramente técnicos, entregando uma aquarela em movimento contínuo de encher os olhos.
Aproveitando esse visual estonteante, a decisão de expandir o mapa geográfico da série foi muito bem-vinda. Sair das montanhas bucólicas e pacíficas do Vale da Paz para explorar a Cidade Zimbro traz um frescor estético imediato. Aquele ambiente urbano caótico, abarrotado de animais, ladeiras, neblina e vielas apertadas, apresenta uma densidade excelente e prova que o mundo do Dragão Guerreiro ainda tem muitos cantos interessantes para explorar.
Para navegar nessa nova cidade, Po ganha a companhia de Zhen. Awkwafina entrega a voz arranhada perfeita para uma raposa malandra das ruas, e a dinâmica entre os dois até gera faíscas divertidas de assistir. O problema é que a construção do arco de Zhen é um festival de clichês. É a clássica "ladra de bom coração" que vai trair o herói no meio do filme e se arrepender no clímax. Tudo é tão mastigado e previsível que a redenção dela soa artificial, como se o roteiro estivesse apenas ticando caixas de uma cartilha básica.
Sabe o que mais faz falta observando essa nova amizade pelas ruas sujas? A ausência do taoísmo prático. Os primeiros filmes brilhavam ao pegar filosofias orientais complexas — como a ilusão do controle e a conquista da paz interior — e transformá-las em elementos vitais para a narrativa. Aqui, a jornada espiritual foi reduzida a um jargão burocrático de escritório. "Virar líder espiritual" é tratado quase como bater meta pra ganhar uma promoção, esvaziando a carga mística e reflexiva que separava Kung Fu Panda das outras animações comuns.
Sem conseguir criar uma substância nova, o roteiro apela para a memória afetiva do espectador sem nenhum pudor. O filme recicla ângulos, referências a golpes clássicos e abraça um fanservice preguiçoso no terceiro ato. A sensação que fica é que a produção não confia na força da sua própria vilã atual, precisando constantemente esfregar no nosso rosto as glórias das aventuras antigas para nos lembrar de como costumávamos nos importar com esse universo.
E o maior exemplo desse fanservice barato é o retorno de Tai Lung. Trazer o primeiro e mais brutal antagonista da saga de volta do Reino Espiritual soou como um evento estrondoso nos trailers. Mas na prática? Ele aparece apenas para soltar duas frases de efeito, tomar uma surra humilhante para mostrar o quanto a Camaleoa é forte e depois ir embora conformadinho. Ver um vilão tão icônico ser usado apenas como degrau de escada para uma antagonista inferior é frustrante e cheira a desperdício de ouro puro.
Parte desse desperdício se deve à montagem alucinada. A edição do filme funciona como um carro sem freio numa descida: não há tempo para as coisas assentarem. Um personagem descobre uma traição terrível? Corte rápido, já estamos em outra cena de perseguição de carrinho pela rua. Não existe silêncio, não existe pausa dramática. O ritmo da montagem transforma uma jornada de sucessão espiritual em um compilado frenético que tem medo de deixar o espectador entediado por cinco segundos, prejudicando o peso de cada revelação.
Essa correria desenfreada culmina em um conflito final com a tensão de um copo d'água. Falta frio na barriga. Em todas as ameaças anteriores, parecia que, se o Po perdesse, uma carnificina aconteceria e o mundo acabaria. Aqui, a Camaleoa absorve os poderes dos maiores guerreiros do universo, vira uma quimera gigantesca e, ainda assim, o combate carece de senso de urgência ou perigo real. O peso emocional é ralo, tornando a ameaça final apenas mais um contratempo chato no dia a dia do panda.
Curiosamente, se teve um núcleo que realmente encontrou o ritmo e a emoção certa foi a história paralela de Sr. Ping e Li Shan. A jornada desses dois pais superprotetores seguindo o filho para garantir que ele não se machuque carrega o coração genuíno que faltou na trama principal. A dinâmica de "casal em viagem" entre o ganso prático e o panda acomodado é afetuosa, deliciosa de assistir e lembra que a força da franquia sempre esteve nos laços familiares inusitados.
Para fechar o grande ciclo deste exame, concluo que o que temos na tela não é um desastre absoluto, tampouco uma obra-prima. É um filme mediano, seguro e que não sabe bem para onde ir com seu protagonista. A jornada te distrai, arranca algumas risadas e impressiona pelas lutas fantásticas e pelo visual maravilhoso. Se você tem carinho pelo personagem, vale a pena pegar sua pipoca e se deixar contagiar mais uma vez pelo chi do Dragão Guerreiro. Assista sem esperar revoluções, divirta-se com o show de luzes e cores, e tire suas próprias conclusões se já não passou da hora de Po finalmente descansar à sombra do pessegueiro.