Paul Mescal e Josh O’Connor provam que é possível brilhar em um filme indeciso, frio e, às vezes, covarde
por Diego Souza CarlosIntitular um filme com certeza é um fardo gigantesco. A partir de uma mensagem breve, mas convidativa, é preciso escolher palavras poderosas o suficiente para condensar quase 2 horas de acontecimentos. Existem desde os curtos e diretos, como Os Incríveis, Maligno e Abracadabra - todos ótimos, por sinal -, às ideias completas (e complexas), como Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios e Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo, duas preciosidades que apenas o Brasil poderia proporcionar.
Com A História do Som, a premissa pode até ser clara, mas cai em uma armadilha subjetiva: trata-se de um relato histórico guiado pela sonoridade ou uma ficção que utiliza a música para falar de amor? Neste caso, o longa de Oliver Hermanus (Beleza Arrebatadora) tenta seguir pelos dois caminhos, fruto de duas origens também, mas fica preso em uma redoma melancólica que oscila entre a delicadeza e a indiferença, assim como os maiores desejos não ditos pelos protagonistas.
A trama acompanha a jornada de dois homens, Lionel (Paul Mescal) e David (Josh O’Connor), que se lançam no desconhecido em busca de registrar as vidas, vozes e canções de pessoas que sobreviveram aos horrores da Primeira Guerra. Enquanto viajam pelas paisagens rurais da Nova Inglaterra e catalogam as músicas folk da época, os dois encontram uma inesperada paixão.
Universal Pictures
As primeiras palavras ditas no filme se direcionam ao dom de Lionel, em como ele diz enxergar sons, ao descrever como as notas têm sabor e os diferentes sons manifestam diferentes cores em sua perspectiva única. Nada disso se manifesta na tela, apenas é dito de forma tão poética quanto ordinária. Se apegar à primeira mensagem do filme pode ser um erro, já que o relacionamento do personagem com os sons, especialmente com a música, tem uma beleza única, mas não deixa de ganhar ares burocráticos à medida que cresce.
O amor silencioso de ambos, no entanto, não deixa de estabelecer a importância do som para a narrativa, mas há mais brilho nas atuações do que no enredo. A começar pelo primeiro encontro deles, guiado pela música e por atuações singulares: Josh O’Connor surge soturno e fascinante ao lado de um Paul Mescal propositalmente contido, com uma curiosidade prestes a transbordar.
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Enquanto a dinâmica de amigos se transforma em um afeto mais profundo, sempre há um canto dançando pelas gargantas de um personagem ou outro (e aqui, estranhamente, qualquer todo mundo canta muito bem), há pouca emoção duradoura. O amor em tela, embora seja construído pouco a pouco, se esfria quando o diretor parece focar nos aspectos históricos da trama. Há uma sensação de que os temas, ainda que eventualmente entrelaçados, são divididos a partir de cada novo capítulo.
Em um dos momentos mais interessantes do longa, os personagens seguem para a jornada proposta por David, em que os dois se direcionam a comunidades distantes para eternizar músicas passadas de geração a geração. A preocupação com o legado cultural do povo em um contexto devastador, no qual a guerra mina a perspectiva das pessoas comuns, talvez seja um dos grandes trunfos da trama.
Como pôde ser visto em Pecadores, são nestas ocasiões em que canções passam a confortar aqueles que perderam tudo, do luto por entes queridos à perda significativa de qualquer faísca de esperança. Ao visitar tais vilarejos e apresentar o funcionamento de um fonógrafo a crianças curiosas e pais preocupados, o longa faz jus ao próprio nome.
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O longa constrói o relacionamento dos protagonistas com um misto entre timidez e ousadia velada, parte de uma ambiguidade sugerida durante todo o projeto (pelo bem e pelo mal). Antes mesmo de se beijarem, os dois compartilham uma cena que demonstra a liberdade nascida deste encontro de almas depois de uma noite de bebedeira. Essa provocação, no entanto, é um dos poucos momentos verdadeiramente calorosos deste relacionamento.
Sobre essa questão específica podem existir duas visões. Por um lado, há uma representação da época em cena, já que o amor entre dois homens era um ato tão revolucionário e perigoso nos anos 1920, que, mesmo isolados, não conseguiam viver de forma plena nem verbalizar essa relação. Por outro, parece existir um receio do diretor em incendiar a história com demonstrações mais trabalhadas do toque, do sexo e do carinho entre Lionel e David. Com boas exceções, tudo parece protocolar. A fotografia amena, com cores pastéis, não colabora.
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Ambas perspectivas são válidas, mas a atuação da dupla é o que realmente sustenta a ideia de que eles sentem algo muito forte um pelo outro. O filme pode não colaborar para que essa vontade transborde e dê ao som, seu principal mote, um uso visceral ou tocante. É como se você soubesse que há algo ali, mas consiga sentir apenas algumas fagulhas de algo que poderia ser muito maior. Há um véu de pudor na frente das lentes.
Isso, pelo bem do projeto, não se adequa às sequências dramáticas que envolvem outros personagens ou recortes de como, ao voltar à jornada de registros musicais, também se eternizam afetos trazidos pelas vozes daqueles grupos fragilizados pela guerra.
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Nos momentos finais do filme, o roteiro encontra um pouco mais da potência da arte quanto aos efeitos mais poderosos que uma música ou uma voz podem causar. Fora isso, A História do Som se apega ao luxo de manter um registro de uma tarefa simbólica quanto ao resguardo da arte e os bastidores de um trágico amor, mas ocasionalmente parece preso em apresentar ideias bonitas com execuções opacas.
Ainda que o filme não se decida entre o relacionamento dos garotos, a função deles em meio ao período histórico e as reverberações da música dentro e fora de suas vidas, A História do Som fica no caminho dos quereres. A intenção está ali, mas há um sentimento constante de distanciamento entre os objetos temáticos e os personagens. Assim como Lionel parece estar sempre em busca de si mesmo, o longa acompanha o protagonista numa crise com sons tão encantadores quanto passageiros.
Filme assistido na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.