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    Rebel
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    Rebel

    Como as ideias se tornam extremas?

    por Aline Pereira

    A edição de 2022 do Festival de Cannes trouxe às telas alguns filmes que exigiam uma boa dose de disposição - não para aproveitar as histórias, mas para se deixar surpreender e mergulhar, de peito aberto, em universos pouco familiares para boa parte das pessoas, especialmente entre o público ocidental. Foi o caso da investigação policial de Boy From Heaven, da denúncia de crimes reais em Holy Spider e também (e, talvez, principalmente), de Rebel, produção belga assinada pelos diretores Adil El Arbi e Bilall Fallah, dupla responsável por Bad Boys Para SempreBatgirl, do Universo DC, além de Ms. Marvel.

    Em Rebel, o jovem idealista Kamal (Aboubakr Bensaihi) deixa sua casa, na Bélgica, para ajudar vítimas da guerra na Síria, mas ao chegar acaba sendo capturado pela milícia e é forçado a servir ao Estado Islâmico. O acontecimento, é claro, abala a vida de sua família e enquanto a mãe, Leila (Lubna Azabal), luta para proteger a casa, Nassim (Amir El Arbi), o irmão mais novo, acaba se tornando, ele mesmo, vítima das consequências das escolhas do mais velho.

    Isso porque a tragédia que aconteceu com Kamal acaba tornando Nassim um alvo fácil de recrutadores radicalistas, que conseguem aliciar o jovem com a promessa de levá-lo novamente para perto de seu irmão. É a partir daí que Rebel propõe a discussão mais importante: como movimentos extremistas conseguem atrair para si pessoas que, a princípio, não têm nem um pouco esse perfil. É também neste ponto que o filme pede que o público mantenha a mente aberta para explorar o universo complexo e cheio de camadas do idealismo radical.



    Kamal parte de sua casa bem intencionado, decidido a expor os horrores da guerra, mas não tem consciência, exatamente, da profundidade do conflito em que está se envolvendo e acaba sem saída quando “recrutado” pelo Estado Islâmico. As informações verdadeiras sobre o que aconteceu com ele e sobre o que estava fazendo, é claro, se perdem pelo caminho e chegam à família de forma completamente distorcida: Kamal é tratado como terrorista pela mídia. Nassim, é claro, acaba sufocado pela quantidade e intensidade dessas informações - uma confusão que, combinada a uma certa ingenuidade da juventude, o tornam presa de quem sabe muito bem o que está fazendo.

    Assim, acompanhamos todo o caminhar de um discurso que, a princípio, parece absurdo, mas que passa a fazer sentido - não para nós, mas para o personagem principal de Rebel. A transição entre as intenções bondosas e as ações cruéis fica muito clara e provoca em que está assistindo uma variedade de sentimentos: não é que o longa tente amenizar o terror do extremismo, mas nos faz pensar em como as ideias são plantadas mesmo naqueles que estão mais distantes de qualquer tipo de “benefício” (se é que podemos colocar assim) que elas podem trazer.

    Guerra e música

    Se formos categorizar, Rebel é um filme de guerra - mas não só isso e nem um filme de guerra clássico. A realidade que o longa quer discutir também traz uma visão poética através da trilha sonora. É um dos pontos que mais nos traz para dentro da história e reforça o poder gigante que a música tem para alcançar nossas emoções de forma muito imediata e impactante - especialmente quando é inesperada, como no caso deste longa.



    Em alguns pontos de virada, Rebel se transforma quase em um musical e os personagens se expressam por meio de números de hip-hop. As letras nos atravessam como balas de canhão. Tudo é muito intenso, direto ao ponto, político e reflexivo - características que são parte intrínseca desse gênero musical e que faz uma denúncia universal, mas que ao mesmo tempo é profundamente particular. E talvez venha justamente daí seu grande potencial e o incômodo que causa em alguns “ouvidos”.

    Em alguns momentos, é verdade, esse salto de um estilo de narrativa para outro soa estranho - a sensação é de que a trama de Rebel vem em um tom tão pesado, tão dramático, que qualquer mudança nessa “nota” mais atrapalha do que ajuda. Talvez porque transformar em “lúdico” (entre muitas aspas aqui), um enredo tão realista derrube um pouco do senso de urgência que a história deveria ter.

    Rebel é um bom filme de ação

    Bilall Fallah e Adil El Arbi fazem um grande trabalho no que diz respeito à criação das cenas de ação e Rebel tem um estilo marcante e impactante não só para os conflitos diretos, mas para o tipo de violência que retrata. Todos os confrontos parecem sempre o fim da linha (algumas vezes realmente são) e nos dão uma boa dimensão do sentimento de desespero que deve tomar contar, especialmente, de quem não tem nada a ver com a situação, mas que acaba sendo vítima.

    Quem está mais atualizado das notícias sobre os conflitos do oriente médio provavelmente já tem noção da gravidade da violência, mas Rebel consegue acrescentar, ainda, uma camada a mais: alguns dos acontecimentos são impensáveis para um público que está distante desta realidade (como nós, no ocidente). As consequências dos discursos radicais são terríveis, todo mundo sabe, mas acompanhá-las pela visão de Kamal e Nassim torna tudo ainda mais desolador.



    Para uma parte do público, é muito provável que Rebel pareça exagerado na abordagem das tragédias. Como mencionado antes, as situações extremas são constantes e parecem sempre um beco sem saída, o que torna a história dos protagonistas também um verdadeiro pesadelo não só pela violência, mas porque o sofrimento nunca tem fim.

    A força e o perigo das ideias

    Kamal e Nissim acabam sendo puxados para a violência por caminhos distintos e as duas histórias deixam claro que aqueles são apenas dois dos diversos caminhos que existem para esta sentença. Tanto quanto a violência física propriamente dita, o abuso e a manipulação psicológicas causam um desespero em quem assiste: é simplesmente terrível acompanhar a distorção de ideais e o uso de um discurso que se diz benevolente e espiritual para causar uma destruição sem tamanho.

    Especialmente com Nissim, que é mais novo, acompanhamos uma espécie de despertar político que vem marcada, sobretudo, pelo desespero. Nissim está desesperado não só para reencontrar o irmão, mas para ter a certeza de que Kamal está do lado certo, como sempre acreditou, e que continua sendo, de alguma forma, um herói, mesmo que ainda não entenda como.

     
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