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    Boy from Heaven
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    Boy from Heaven

    O cenário muda TUDO

    por Aline Pereira

    Em uma edição do Festival de Cannes muito marcada pela presença de thrillers fortes, como Decision to Leave e Hunt, o prêmio de Melhor Roteiro conquistado por Boy From Heaven quer dizer alguma coisa. O cineasta Tarik Saleh, de ascendência egípcia, assina um filme de “suspense dramático” que cativa não pela fórmula - que é a mesma de sempre -, mas por escolher uma ambientação pouco vista nas telas, sobretudo no cinema ocidental. Com elementos de House of CardsO Nome da Rosa (que, inclusive, foi uma das inspirações do diretor), Boy From Heaven abre um mundo de informações para quem o assiste. 

    O filme tem como protagonista Adam (Tawfeek Barhom), um jovem filho de pescador que vive em uma vila singela. Às escondidas, ele se dedica tanto aos estudos que acaba ganhando uma rara oportunidade de entrar para a conceituada Universidade de Al-Azhar, localizada no Cairo, capital do Egito - um local que existe de verdade e é a segunda universidade mais antiga do mundo. Mas as expectativas de Adam são brutalmente quebradas com a morte do Grande Imã, uma das principais autoridades religiosas muçulmanas e reitor da Universidade. 

    Política x religião 

    A morte do Imã é um acontecimento de proporções gigantescas, uma vez que estremece não só a organização religiosa do país, como também (e, talvez, principalmente) a estrutura política. É partindo deste ponto que Boy From Heaven nos traz o que tem de mais especial: o mergulho em um contexto social, político e cultural sobre o qual a imensa maioria do público ocidental tem pouco ou nenhum conhecimento. Por isso, tudo nessa história é impactante e elucidativo - sem se tornar um retrato religioso estereotipado que vemos na ficção de vez em quando. 



    “O Ocidente é obcecado pelo islã e, ao mesmo tempo, não entende nada sobre essa religião”, afirmou o diretor Tarik Saleh (via AFP) durante o Festival de Cannes 2022. É partindo desse pressuposto que o cineasta combina elementos na história para nos dar um panorama engenhoso sobre a relação complexa entre fé, fanatismo religioso e política - um viés que, aliás, parece corajoso da parte dele. Em 2017, Saleh lançou um filme chamado O Incidente no Nile Hilton, um thriller sobre violência policial que foi banido do Egito - Boy From Heaven, aliás, foi filmado fora do país. 

    Pois bem, a morte do Grande Imã, faz com que nosso protagonista caia em meio aos bastidores terríveis de uma nova disputa pesada por poder e influência. Isso porque, após um incidente anterior, Adam acaba se tornando um informante de Ibrahim (Fares Fares, de A Hora Mais Escura), que está a serviço do governo egípcio - e que, por sua vez, quer aproveitar esse vácuo de liderança para tentar controlar a Universidade de Al-Azhar e eleger seu próprio candidato. 

    Enquanto acompanhamos as descobertas de Adam como infiltrado nessa “house of cards”, uma enorme quantidade de camadas vai vindo à tona, dos níveis inimagináveis de corrupção às consequências terríveis para aqueles que não têm qualquer relação com esta distorção de princípios religiosos. Por meio do olhar de Adam, que está vivendo a própria jornada de amadurecimento, somos levados a uma reflexão importante sobre a manipulação abusiva da fé exclusivamente em nome do poder e como ferramenta de corrupção. 



    As dúvidas que começam a surgir na mente de Adam e que o deixam atônito, têm mais a ver com o sistema que se aproveita de suas crenças do que com a religião ou com suas convicções propriamente ditas. Esta é uma separação importante a ser considerada especialmente (mais uma vez) entre o público ocidental que tem pouco conhecimento sobre o contexto político e religioso dos países ocidentais - preocupação que também torna o filme um pouco acelerado demais.  

    Boy From Heaven tem elementos demais em tempo de menos 

    O longa se ambienta em um cenário cheio de questões muito complexas e o diretor tem consciência disso o tempo inteiro. Ao tentar apresentar tudo para o espectador, Boy From Heaven acaba se tornando uma história bem corrida. São muitas (mesmo!) informações ao mesmo tempo, tanto para fazer o suspense se desenrolar, quanto para nos ajudar a entender as motivações e os dilemas dos personagens - e nem sempre eles parecem fazer sentido o bastante para nos convencer. Não daremos spoilers, claro, mas o próprio envolvimento de Adam nessa “missão” é meio vago.

    Pessoalmente, eu assistiria a uma temporada inteira de Boy From Heaven: a sensação é de que o filme tem mais recheio do que muitas séries de suspense atuais. Existem muitos pontos que parecem interessantes, mas acabam passando um pouco atropeladamente porque a história não pode parar muito tempo em cada ponto. A própria fórmula do suspense, inclusive, poderia ser melhor desenvolvida se tivesse mais tempo. 



    No fim das contas, existem muitos elementos que são previsíveis, o que geralmente é um ponto fraco em histórias de investigação e suspense. Também é em Boy From Heaven, mas o peso acaba sendo menor justamente por se passar em um ambiente nada convencional e ter figuras muito nebulosas. Essa avalanche de informações, no entanto, não nos impede de perceber algumas pontas soltas ao longo e ao final da história. A impressão não é de que o filme não soube como desenvolver ou concluir melhor, mas que não havia tempo para tudo.  

    Algumas falas e revelações que são muito importantes para que entendamos melhor a história acabam perdendo força porque fica difícil compreender exatamente por que são tão relevantes. Assim, não é um filme para assistir “sem compromisso” porque nos exige uma certa disposição para preencher lacunas entre as informações dadas - o que também não é tão fácil em um cenário que não nos é muito familiar. Mas para quem for se aventurar, o esforço vale a pena e recompensa. Boy From Heaven nos transporta a uma dinâmica de mundo real muito diferente do que estamos acostumados a acompanhar no ocidente (embora seja possível até esticar algumas comparações). 

    A mudança de cenário, por si só, já é um atrativo eficiente e valioso porque deixa claro que não existem respostas fáceis para dilemas complexos - e vem justamente daí a importância de conhecer histórias contadas a partir de outros pontos de vista.

     
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