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    Um Herói
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    Um Herói

    Nenhuma boa ação fica impune

    por Katiúscia Vianna
    Asghar Farhadi é um diretor que fez história no cinema. Dez anos atrás, ele fez A Separação, primeiro filme iraniano a ganhar o Oscar de filme estrangeiro. Em 2016, lançou o elogiado O Apartamento, que ganhou mais uma estatueta dourada, mesmo durante a era de preconceito do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Logo, quando o Irã anunciou que seu concorrente para o Oscar 2022 seria outro filme do cineasta, as expectativas ficaram bem altas. Logo, fico feliz em declarar que Um Herói não decepciona. 

    Qual é a história de Um Herói?



    Premiado no Festival de CannesGhahreman (no original) acompanha a história de Rahim (Amir Jadidi), homem que está preso faz três anos, por não conseguir pagar uma divida contra seu antigo cunhado, Bahram (Mohsen Tanabandeh), após tentar investir num próprio negócio, mas ser roubado pelo sócio. Quando o protagonista ganha licença para passar dois dias em liberdade, suas esperanças crescem, já que sua namorada secreta, Farkhondeh (Sahar Goldust) encontrou uma bolsa com 17 moedas de ouro.

    Ele pretende usar a quantia para tentar uma nova negociação com Bahram. Porém, o casal só consegue reunir metade do valor necessário, então Rahim decide procurar a verdadeira dona da bolsa, por conta do peso em sua consciência. Assim, devolve as moedas de ouro, mas a boa ação acaba sendo descoberto pelo chefe de sua prisão, que decide como isso seria boa publicidade para o sistema penitenciário tão criticado. De repente, Rahim se torna famoso, algo que vai mudar sua vida... Para o bem e para o mal. 

    A situação se complica quando ninguém consegue encontrar a verdadeira dona da bolsa. Logo, uma teia de mentiras passa a ser criada, gerando um efeito dominó. Afinal, as consequências afetam sua família — inclusive um pequeno filho gago, que sofre bullying na escola, e uma irmã preocupada, que tem a própria família para cuidar, mas ainda arranja tempo de educar o sobrinho. Isso sem contar que o longa ainda tem espaço para mostrar os dilemas de Farkhondeh, completamente apaixonada pelo namorado, sonhando com o dia quando eles finalmente poderão ficar juntos.

    Um Herói traz uma história intrigante, com personagens carismáticos



    A primeira cena de Um Herói mostra Rahim subindo uma enorme escada improvisada nas ruínas de Persépolis; um caminho tão demorado e sofrido que te deixa perguntando até onde isso vai chegar. A mesma pergunta pode ser feita a cada reviravolta desse filme, graças a uma cascada de decisões equivocadas que vão se enrolando, formando um bolo de neve. E, com isso, a ansiedade do público vai aumentando, e é impossível não se conectar com a história, torcendo para ela ter um final feliz.  Ao mesmo tempo, dá vontade de entrar na tela, a fim de segurar os ombros do protagonista e gritar "Pare com isso, por favor!".

    Mais uma vez, Farhadi apresenta personagens bem humanos, que poderiam facilmente cair no estereótipo. Rahim é ingênuo diante das câmeras, ao mesmo tempo que está adorando seus 15 minutos de fama, carregando sua placa — que comprova como ele recebeu uma homenagem — para cima e para baixo. Como quem passou toda sua vida como alguém deixado para trás, é bom se sentir por cima, pelo menos uma vez. Porém, ele ainda carrega sua moralidade, por mais que cometa alguns deslizes e se entregue ao lado irracional.

    Por outro lado, temos Bahram, inicialmente visto como a figura maléfica que arruinou a vida de Rahim. Quando o outro se torna uma celebridade, sua inveja é palpável, junto com a indignação ao ver que se tornou o vilão da história. Só que, aos poucos, vamos descobrindo sua verdadeira história, revelando o motivo de sua raiva e como tal situação também afetou sua vida. O embate entre essas duas figuras mostra que nem tudo é 8 ou 80, tornando tudo mais intrigante, não é mesmo?

    Um Herói questiona moralidade de uma sociedade desumana



    A partir desse conceito, Asghar Farhadi começa mais uma de suas análises sobre questões de costume e moralidade, abrangendo a influência do jornalismo e das redes sociais. A questão central de Um Herói acaba sendo entrelaçada com o conceito de moralidade nos dias atuais. Quando você faz uma boa ação, somente ao saber que não tem como se beneficiar mais, ainda vale como algo honesto? Ou até mesmo, por que ainda nos surpreendemos quando alguém realiza algo digno? O padrão humano já virou tão ruim que só podemos esperar o pior? Estamos realmente recompensando o bem de forma pura?

    Outro fator importante desse longa acaba sendo sua simplicidade. As reviravoltas não são algo no nível um vilão roxo com pedras mágicas; e nem tudo é resolvido através de uma canção. São as questões humanas que ganham forças, com reações plausíveis, onde o homem complica sua própria vida. É o uso descontrolado das redes sociais para castigar e julgar alguém. Ou o medo frequente do tal "cancelamento da internet", que move cada uma de nossas decisões na frente dos olhos alheios.  

    Um Herói não é um suspense, mas te deixa inquieto na poltrona do cinema, pois mostra a catástrofe que as pessoas podem causar. Em determinada cena, colocam o filho gago de Rahim para fazer uma declaração online, a fim de tentar melhorar a imagem do pai. É algo que dá embrulho no estômago — muito mais do que muitos thrillers vistos em Hollywood. O ser humano é muito mais complexo que a madrasta má de algum conto de fadas; aquele que pode ser o seu herói, pode ser o vilão da história de alguém. E isso é uma conclusão bem triste... Porém, nem todo mundo pode estar preparado para as conclusões desse longa, mesmo que sejam mais sutis que um soco na cara.

    No final das contas, temos que aceitar as consequências de nossos atos e, infelizmente, perceber que nada é muito justo nesse mundo. O caminho mais fácil para Rahim seria ter ficado com o dinheiro. Mas isso não significa que Um Herói é um filme defensor das más atitudes ou algo assim. Apenas apresenta que somos seres bagunçados. Já dizia o ditado popular: de boas intenções, o inferno está cheio.
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