Homem-Aranha: Um Novo Dia se firma como o melhor filme da era Tom Holland, mas sofre com a fórmula Marvel na introdução de Sadie Sink ao MCU
por Diego Souza CarlosA cada 5 anos e 9 meses, às vezes menos, mas nunca mais do que isso, um novo filme do Homem-Aranha chega aos cinemas de todo o mundo. Parte do contrato estabelecido em 1998, quando a Sony Pictures adquiriu os direitos de adaptação do personagem, isso já faz parte de um ritual para quem adora o personagem. Ao longo das últimas décadas, portanto, vimos diferentes histórias do Amigão da Vizinhança ganhando as telonas, mas nunca um ator interpretou Peter Parker por tanto tempo e em tantas produções como Tom Holland - e justamente por isso, após 11 anos com o papel, é engraçado pensar que apenas em Homem-Aranha: Um Novo Dia temos a melhor versão dessa era guiada pelo Universo Cinematográfico da Marvel.
Marvel / Sony
Ao sair da sessão, pensei se não seria um tanto presunçoso definir este novo filme como o melhor dos quatro, que incluem De Volta ao Lar, Longe de Casa e Sem Volta Para Casa. No entanto, essa impressão só cresce quanto mais penso no projeto. Homem-Aranha: Um Novo Dia se distancia com certa facilidade dos longas anteriores por um simples motivo: Destin Daniel Cretton. Substituto de Jon Watts, o cineasta responsável por Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis e Wonder Man consegue evocar a atmosfera urbana que faz parte das principais histórias do super-herói.
Enquanto antes temos filmes com excessos de fundo verde e uma versão de Peter Parker crescendo à sombra do seu antigo mentor, o Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), esta nova produção foca no amadurecimento do personagem diante das dificuldades que sempre moldaram a sua personalidade nos quadrinhos. Ainda que nunca seja dito de fato, a ideia de "com grandes poderes vêm grandes responsabilidades" está impressa no quarto capítulo da franquia a todo instante.
Peter sofre com a solidão de ver sua existência apagada após o feitiço final do Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch) e, aos poucos, acaba usando a vida de combate ao crime como forma de escape para a própria crise de identidade. Ver esse ar soturno em Um Novo Dia reforça como o personagem sempre lidou com dilemas: estar com o amor de sua vida ou proteger as pessoas do mal? Se manter em um emprego ou salvar pelo menos uma vida? Segurar sua raiva mesmo quando um vilão matou alguém que amava ou entregá-lo à Justiça?
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A atmosfera mais sombria, mas também com o pé no chão, é acentuada pela combinação de dois grandes profissionais que construíram uma Nova York viva e pulsante, quase uma personagem do filme. Estamos falando do diretor de arte Charles Wood, veterano do estúdio com créditos em títulos como o Vingadores: Ultimato, Guardiões da Galáxia e Doutor Estranho no Multiverso da Loucura, e o diretor de fotografia Brett Pawlak, que trabalhou recentemente com Cretton em Magnum. Ambos seguem uma lição do Batman de Matt Reeves, que soube apresentar uma das melhores versões de Gotham City nos cinemas, ao entender que a cidade que o herói protege é também parte fundamental de quem ele é.
Ainda que nem todas as texturas e profundidade estejam no ponto, a selva de pedra ganha esse tom épico e se torna o palco perfeito para apresentar não apenas o drama do herói, mas também o cenário onde o diretor manifesta algo fundamental na sétima arte: cinema sempre foi e sempre será um trabalho coletivo. Digo isso, pois há uma forte inspiração nos games da Insomniac, Marvel's Spider-Man (1, 2 e Miles Morales) nas diversas acrobacias do Teioso - uma colaboração de toda a equipe de gameras presente no projeto -, mas também acenos ao trabalho de Sam Raimi e Marc Webb na decisão de colocar efeitos práticos onde era possível fazê-lo.
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Se as perspectivas em primeira pessoa e os ângulos que valorizam a experiência do próprio Homem-Aranha dão certa imersão à experiência cinematográfica, o cineasta dá seu toque pessoal às cenas de ação. Coreografias que fazem jus ao longa estrelado por Simu Liu - e com parte da equipe de dublês e preparadores do filme de 2021, com direito até à supervisão de Jackie Chan - são um deleite para quem gosta de boas lutas. Apesar de serem ótimas, algumas delas são prejudicadas por uma direção ávida demais e uma montagem nem sempre benéfica, mas em sua maioria são puro entretenimento.
De volta ao embate Watts e Cretton, há um vencedor claro aqui, pois Homem-Aranha 4 é muito "mais cinema" do que os longas anteriores, mas pelo menos o antigo diretor deixou um legado interessante em sempre abraçar ótimas trilhas sonoras. No caso do título de 2026, há uma ótima divisão entre o trabalho já conhecido por Michael Giacchino, responsável por incorporar a emoção épica às passagens, e músicas contemporâneas que embalam o ritmo da produção com faixas de Tame Impala, Steve Lacy e Bad Bunny, por exemplo.
Essa divisão musical ressoa o equilíbrio visto no tom também: há dramaticidade, claro, mas estamos falando do Cabeça de Teia. A comédia e o humor típicos do personagem seguem intactos e, diante de tantos excessos do MCU, diria até muito bem equilibrado.
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Sei que estes dois filmes têm abordagens e substâncias completamente diferentes, porém vejo uma semelhança entre Pecadores, de Ryan Coogler, e Homem-Aranha: Um Novo Dia. Ambos são filmes imperfeitos que conseguem atingir a audiência, seja pelo entretenimento, seja pelo coração, por transmitirem o desejo de um cineasta em contar uma história. O novo título da Sony com a Marvel não faz milagres, é importante dizer, pois ainda é um projeto inserido dentro do que poderíamos chamar de fórmula do MCU - ou guia saturado para talvez arruinar boas histórias.
Há um roteiro recheado de conveniências e a insistência constante em entrelaçar o arco vivido pelo protagonista com algo que vem no futuro. É aquela velha conversa de comer um pedaço de bolo já pensando no próximo. É claro que isso faz parte do DNA do estúdio e, pelo bem ou pelo mal, Destin consegue o feito de amarrar bem um drama particular de Peter Parker com temas adicionais que, por sorte, são interessantes. É uma boa construção, mas que deixa a marca do passado evidente na tela.
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Temas como solidão, o peso das diferenças na sociedade, o valor da amizade, autocuidado e até o perigo dos excessos são tratados durante a nova jornada do herói. Com uma performance no ponto de Tom Holland, temos um filme do Homem-Aranha que sabe valorizar o seu personagem e dar espaço aos outros para brilhar. Sadie Sink e Zendaya estão ótimas - a primeira equilibrando aspectos emocionais com uma atuação visceral e a segunda com muito domínio da própria arte e um charme irresistível. Ao lado delas, há uma ótima Liza Colón-Zayas, que faz arte com tudo o que toca, e um Justiceiro de Jon Bernthal com a sonhada e bem-vinda química entre Frank e Peter dos quadrinhos - ambos de The Bear, inclusive. O que seria de um filme sem ótimos coadjuvantes?
Homem-Aranha pode até não ser perfeito, mas entrega uma aventura totalmente inspirada em tudo o que o audiovisual já fez pelo herói com o "puro suco" dos quadrinhos. É uma ótima aventura do Amigão da Vizinhança, aquele que sempre nos ensinou a seguir em frente e, dessa vez, olhar adiante para Um Novo Dia.