Problema central: quer ser denúncia séria e desenho animado ao mesmo tempo
O tema é pesadíssimo: exploração de idosos através de brechas legais em tutela/curatela, coisa que acontece de verdade e destrói famílias.
Só que o filme trata isso como se fosse:
metade “denúncia social”
metade “comédia de vilão estilosa”
metade “guerra máfia vs girlboss psicopata”
Resultado: ele não funciona bem em nenhum desses registros.
Se fosse um drama sério, teria que mostrar o sistema com mais profundidade, as consequências reais pros idosos, o peso moral disso tudo.
Se fosse uma comédia negra estilo sátira, beleza exagerar, mas aí abraça o absurdo até o fim.
Ele tenta ficar no meio-termo e vira um Frankenstein de tom.
A vilã que o filme quer que você admire… mas também odeie… mas também “respeite”
Marla é uma personagem que, no mundo real, seria puro lixo moral:
ela rouba idosos indefesos
destrói famílias
lucra em cima de sofrimento absoluto
O problema não é ter uma protagonista detestável – isso é ótimo quando bem feito (Wall Street, Clube da Luta, O Lobo de Wall Street, etc.).
O problema aqui é:
o filme flerta com a ideia de transformar a Marla em “ícone de empoderamento”: independente, fria, esperta, “vencedora no capitalismo”
só que ele não assume totalmente isso como crítica; parece meio fascinado por ela
quando tenta “punir” a personagem, é tarde demais e de um jeito conveniente, como se fosse: “calma, gente, ela levou um tiro no final, tá tudo certo moralmente, pode ir embora tranquilo”
Fica parecendo um filme que quer lacrar com “mulher poderosa sem escrúpulos”, mas não tem coragem de encarar até o fim as implicações disso.
Realismo jurídico: pra quem conhece minimamente, é de passar vergonha
A parte legal/realista é onde o filme vira quase uma fanfic:
a facilidade com que ela manipula juiz, médicos, casas de repouso e tudo mais é tratada como se o sistema fosse um videogame de um jogador só
zero conflito jurídico sério, quase nenhuma resistência institucional real
a máfia russa entra na história e, em vez de simplesmente esmagar a vida dela, vira só mais um “desafio de roteiro” pra personagem “esperta superar”
Que existam golpes em tutela/curatela? Sim, isso é real e muito grave.
Que uma única pessoa, em tão pouco tempo, faça tudo aquilo com tanta facilidade, enfrentando inclusive máfia… aí já começa a virar novela das oito com filtro da Netflix.
Pra quem gosta de coisa minimamente pé no chão, a suspensão de descrença estoura.
Terceiro ato: quando o filme abandona o que tinha de bom
A premissa forte era:
“Como o sistema permite que uma pessoa legalmente roube a vida de idosos?”
Do meio pro fim, a história vira:
sequestro
perseguição de carro
quase assassinato simulado
vingancinha contra mafioso
parceria bilionária startupeira com o próprio mafioso
Ou seja, larga o tema social pesado e abraça um quadrinho mal escrito.
E aí, quando você já tá quase aceitando o absurdo, vem o final “moralizante”:
o cara prejudicado por ela aparece e mata a Marla na saída de uma entrevista
É um final que parece jogado só pra tentar “equilibrar o karma” em 30 segundos, depois de uma hora e meia de filme flertando com a ideia de que “no capitalismo selvagem, o mais frio vence”.
Onde o filme não é totalmente lixo
Aqui eu vou contra você um pouco, porque também é importante:
a Rosamund Pike manda muito bem como psicopata fria
o Peter Dinklage é carismático até quando o roteiro não ajuda
a direção tem estilo, visualmente é um filme bem acabado
a ideia base – denunciar um sistema que permite roubar idosos legalmente – é excelente
Então não é lixo total em termos de atuação e conceito.
O que é fraco mesmo é roteiro e tom.
Se tivessem escolhido um caminho mais clássico, tipo:
drama judicial tenso, focado na crítica ao sistema
ou
comédia negra assumida, sem apelar pra mafioso caricato e final de novela,
seria muito mais sólido.
Resumindo
Em termos bem diretos:
Ideia: ótima
Tema: necessário e atual
Execução: rasa, incoerente e perdida no tom
Moral do filme: tenta criticar o sistema, mas parece gostar demais do monstro que criou
Final: remendo moral improvisado
Dá pra sair do filme com aquela sensação de:
“Pô, que oportunidade jogada fora.”