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    A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas

    União em meio à Era Digital

    por Bruno Botelho

    Homem-Aranha no Aranhaverso, de 2018, surpreendeu o público e a crítica com uma animação muito criativa e ousada visualmente brincando com o multiverso do super-herói – tanto que foi considerado pelo AdoroCinema como um dos melhores filmes dos últimos 20 anos. Com os mesmos produtores de Aranhaverso, Phil Lord e Chris Miller, A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (2021), produzida pela Sony e distribuída pela Netflix, segue a mesma linha de animação com visual ambicioso e que brinca com a cultura popular.

    A história do filme segue Katie Mitchell (dublada por Abbi Jacobson), que é aceita na faculdade de cinema dos seus sonhos e seu pai, Rick (dublado por Danny McBride), decide aproveitar para realizar uma viagem em família para levá-la à universidade. Porém, seus planos são interrompidos por uma revolução robótica e agora os Mitchells terão que unir forças em família para trabalhar juntos para salvar o mundo. 



    Animação é ousada visualmente e cheia de referências à cultura pop


    O grande trunfo de A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas é fazer uma grande colagem de referências à cultura pop de maneira criativa, com uma estética visual ousada e exuberante por causa da direção precisa de Michael Rianda e Jeff Rowe, que combina animação 2D com 3D e pode brincar com as referências de diferentes maneiras. Tudo isso consegue dar certo graças ao roteiro – elaborado pela dupla na direção –, que encaixa os elementos na narrativa de forma natural, como um conceito estético explicado pelas motivações de Katie Mitchell e pelos impulsos ansiosos crescentes na Era Digital.

    Como o sonho de Katie é se tornar cineasta, o filme se aproveita disso para fazer diversas homenagens para o cinema e a cultura em geral. A referência mais óbvia é a inspiração na franquia O Exterminador do Futuro, protagonizada por Arnold Schwarzenegger. Ela mostra uma trama semelhante sobre revolução das máquinas, especialmente O Exterminador do Futuro 2 - O Julgamento Final (1991) e O Exterminador do Futuro 3 - A Rebelião das Máquinas (2003).

    Mas as alusões não param por aí, indo desde easter-eggs aos exemplos mais claros, e passa por grandes filmes como O Iluminado (1980), O Despertar dos Mortos (1978), Os Caça-Fantasmas (1984) e Kill Bill - Volume 1 (2003). Todas essas colagens se encaixam como uma luva na narrativa por causa de uma edição ágil, que lembra muitas vezes a feita em filmes de Edgar Wright como Scott Pilgrim Contra o Mundo (2010). Tudo isso confere um ritmo eletrizante para A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas que combina com a história urgente sobre a ameaça apocalíptica da revolução dos robôs.

    Assim, entramos na grande vilã da animação: PAL, que é dublada pela atriz Olivia Colman, uma Inteligência Artificial (IA). Depois que seu criador, Mark Bowman (Eric Andre) a descarta como lixo em troca de robôs mais aprimorados com IA, ela quer vingança contra o mundo. É uma referência para HAL, a Inteligência Artificial que também se rebela no clássico 2001 - Uma Odisséia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick. Além disso, é uma motivação plausível que explora melhor as camadas da narrativa, que fala principalmente das complexidades nas relações familiares em tempos de revoluções constantes tecnológicas.



    A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas fala sobre ruptura nas relações familiares na Era Digital

    Os avanços tecnológicos vieram para facilitar na comunicação entre as pessoas, mas também criaram uma ruptura em relações familiares, o que faz com que essas famílias não se comuniquem mais de forma natural sobre assuntos importantes ou, até mesmo, cotidianos. Tudo isso é exposto com a disfuncional família Mitchell.

    Katie nunca se encaixou em nada, mas encontrou sua vocação no cinema e na animação, o que a faz querer entrar na escola de cinema na Califórnia. Isso acaba sendo um alívio para Katie, que embora ame sua família, não se dá bem com seu pai, Rick. Ele tem boas intenções, mas não consegue se comunicar direito com ela e entender seu talento com essa produção mais digital de vídeos e documentários. Por isso, ele decide fazer uma viagem de carro com toda a família e levar Katie para a Califórnia e, no caminho, tentar se aproximar mais da filha – como uma última oportunidade.

    Juntos vão Linda (Maya Rudolph), sua esposa mais calma e diplomática, o outro filho excêntrico Aaron (Michael Rianda) que é apaixonado por dinossauros e o cachorro da família, que se parece com um porco. Assim,  A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas toca em assuntos profundos como a dificuldades em muitas relações familiares atuais, enquanto tenta restaurar essas laços aos poucos em meio a uma viagem repleta de ameaças. Ou seja, apenas a união dessa família pode evitar o fim do mundo, mas também, evitar que o amor entre eles se dissipe como as informações se perdem com facilidade nos meios digitais.   

    Vale ser destacado o trabalho competente de dublagem e como aspecto negativo podemos falar sobre as repetições de colagens estéticas, que em alguns momentos podem cansar o espectador com muitas informações visuais, por mais que elas façam total sentido para o conceito da narrativa. Além disso, a construção do arco dos robôs poderia ser melhor explorada entre a transição do mundo normal para o apocalíptico, assim como a finalização dele. Mas, felizmente, isso não apaga nem um pouco o brilho da produção da Sony.

    A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas é uma das animações mais divertidas dos últimos anos, que apresenta um visual ousado e enérgico ao brincar com diversas referências à cultura pop, sem deixar de lado comentários sociais pertinentes e profundos sobre como nossas vidas e relações familiares podem ser afetadas em um época com tantas informações digitais. Um recado importante de união, especialmente em tempos tão obscuros para a humanidade por causa da pandemia.

     

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