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    A Mulher Rei
    Críticas AdoroCinema
    4,5
    Ótimo
    A Mulher Rei

    Magnum opus de Viola Davis

    por Nathalia Jesus
    Se Hollywood tivesse interesse em tirar mulheres negras dos papéis de empregadas domésticas, escravizadas ou mães enlutadas, A Mulher Rei seria um dos diversos resultados brilhantes que veríamos na tela dos cinemas com frequência. Enquanto a grande indústria cinematográfica ainda não abre os olhos para a complexidade de histórias que pessoas de cor podem protagonizar, Viola Davis dá seus primeiros passos para tornar essas narrativas cada vez mais comuns.

    No longa-metragem, Viola Davis interpreta Nanisca, líder do exército formado apenas por mulheres e conhecido como Agojies. Essas guerreiras são fundamentais para garantir a segurança e a força do reino de Daomé, responsáveis por combater colonizadores e as demais ameaças que tentaram escravizar seus povos e destruir suas terras.



    Os desafios de Nanisca aumentam quando precisa enfrentar duas ameaças simultâneas: o exército inimigo que quer acabar com Daomé e se tornar o maior reino da região, e os colonizadores portugueses que chegaram para roubar suas riquezas. Para ambos os adversários, um objetivo em comum acaba se direcionando contra as Agojies, que precisam se unir mais do que nunca para proteger a si mesmas e ao reino.

    O trabalho mais importante de Viola Davis até agora

    “Magnum opus” é a palavra que Viola Davis tem utilizado para descrever o impacto de A Mulher Rei em sua trajetória no cinema. O termo derivado do latim significa uma obra notável, a maior da carreira de um artista. Embora já tenhamos visto-a brilhar em papéis que lhe renderam prêmios como Oscar, Tony e Emmy, este filme tem sua razão de ser o trabalho mais relevante da história da atriz.

    A Mulher Rei não é apenas importante por tudo o que representa e nos apresenta sobre a história real de grupos poderosos no continente africano, mas também conta com uma organização bem estruturada. Ao mesmo tempo em que é didática, a narrativa não se compromete em entregar tudo mastigado para digerirmos. Enquanto descobrimos sobre as Agojies e o reino de Daomé, também nos vemos imersos em um conto com início, meio e fim, com viradas inteligentes no roteiro, surpresas e sequências de luta intensas que tornam a experiência ainda mais inebriante.



    As cenas de embate corporal delineiam a força do exército feminino liderado por Nanisca e são bem coreografadas desde o treinamento pesado até o momento em que precisam enfrentar, de fato, um inimigo. É quando notamos que o filme se preocupa em ser realista até mesmo nos detalhes que poderiam ser mais fantasiosos, através de cenas que nos relembram que essas mulheres, apesar de sua imponência, podem ficar cansadas, sentir dores, perder uma luta ou se sentirem incapazes de continuar. Tudo isso de forma mais assertiva do que o conceito girlboss que comumente vemos nos cinemas.

    Elenco respeitável

    Quando falamos dessas personagens femininas, não podemos deixar de mencionar o elenco que entendeu exatamente a proposta do filme. Viola Davis é brilhante em seu papel como a líder Nanisca, mas sua performance emotiva e potente como a mente pensante deste exército não é novidade para quem acompanha a carreira da atriz. A grande surpresa do casting, dessa vez, são as atrizes Sheila Atim e Lashana Lynch, intérpretes de Amenza e Igozie, as duas guerreiras de maior confiança no reino, depois da própria Nanisca.

    Thuso Mbedu também merece um destaque especial. A atriz tem uma carreira relativamente curta em comparação com suas colegas de cena, mas desempenha com maestria a jovem Nawi, personagem que seria originalmente interpretada por Lupita Nyong’o. O papel vivido por ela tira Nanisca de sua zona de conforto e a coloca no centro do enredo por diversas vezes, trazendo uma dinâmica interessante de troca de protagonismo ao longo da história.



    Como se não bastassem as performances respeitáveis do elenco, o retrato das personagens ganha ainda mais força pela riqueza estética que o filme carrega. O espectador pode se ver preso no enredo e nas atrizes principais, mas sem forma alguma consegue desviar a atenção de outros elementos que as tornam as guerreiras Agojies. Isso pode ser percebido em diversos acenos do longa-metragem para os figurinos, maquiagem e penteados, algumas vezes preparados pelas próprias personagens em cena.

    História que não pode passar despercebida

    A Mulher Rei é o ponto de partida para que mais histórias menos conhecidas sobre os povos africanos sejam inseridas no mainstream. Passamos anos da nossa vida estudando e consumindo produções épicas focadas no eixo América do Norte-Europa e, inevitavelmente, conhecemos sobre grandes momentos históricos em que os mocinhos são sempre pessoas brancas e os personagens negros são lembrados apenas por terem sido colonizados e escravizados. É como se as verdadeiras histórias de suas ancestralidades e origens nunca tivessem existido.

    O novo filme de Viola Davis é um lembrete de que existe o outro lado da moeda e este não pode mais ser apagado. Existem guerreiros, reis, heróis, vilões, mitos em todos os anos de história do continente africano que ainda não conhecemos nas telas, porque Hollywood não se interessa. Mas, quantos filmes com a excelência de A Mulher Rei estamos perdendo com essa decisão?
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