The Cleaners
Críticas AdoroCinema
4,5
Ótimo
The Cleaners

A ética das imagens

por Bruno Carmelo

Para onde vão as imagens violentas publicadas no Facebook? As fotografias eróticas divulgadas no Twitter? Os vídeos de decapitações no YouTube? Os algoritmos dessas empresas se responsabilizam por banir parte do conteúdo, mas para o material restante, cabe aos moderadores de conteúdo decidirem o que é apropriado ou não ao meio virtual. Este documentário se aventura pelo mundo secreto e anônimo das empresas terceirizadas cujos funcionários analisam milhares de fotografias e vídeos por dia, recebendo um salário miserável em troca da exposição maciça à violência.

O projeto seria redutor caso se reduzisse à denúncia desta situação. Felizmente, os diretores Hans BlockMoritz Riesewieck vão muito além, investigando a produção de conteúdo, a impressão de liberdade e de anonimato estimulada pelas redes, o interesse de Facebook e afins em encorajar conteúdos polêmicos e a incongruência de comparar a nudez a uma imagem de violência explícita. O discurso avalia casos exemplares de fotografias banidas, mas também se aventura por situações limítrofes, quando a decisão é mais difícil a tomar. Acima de tudo, questiona o valor dessas imagens: às vezes, a violência pode ser necessária, a exemplo das denúncias de atos de guerra cometidos contra civis na Síria. Em outros momentos, constitui uma manifestação artística. Em que medida se pode censurar a arte em nome da proteção ao público?

Mesmo sem saturar a narrativa de depoimentos, o filme conversa tanto com os moderadores quanto com especialistas em tecnologia e redes sociais e produtores de conteúdo (de direita e de esquerda) que tiveram seus conteúdos censurados. Estes discursos distintos, favoráveis ou contrários à repressão, são colocados lado a lado com materiais de arquivo bem escolhidos e editados. Os silêncios se tornam particularmente eloquentes nos momentos da intimação aos representantes de Facebook, Twitter e Google para comparecerem ao Senado norte-americano por supostamente favorecerem a influência russa nas eleições presidenciais, além dos discursos sanguinários do presidente filipino Rodrigo Duterte, que sonha em exterminar os dependentes de drogas em seu país. Neste momento, The Cleaners analisa a retroalimentação entre imagem e discurso, ressaltando o evidente posicionamento político dos moderadores ao aprovarem ou censurarem uma imagem.

Além disso, o documentário enfrenta um desafio cinematográfico dos mais interessantes, no caso, representar o que não pode ser representado: abordar pessoas anônimas, empresas secretas, falar de fotografias que não podem ser expostas, e trocas virtuais cujos “zeros” e “uns” não podem ser vistos. Os cineastas encontram maneiras criativas de ilustrar a troca de informações digitais (por gráficos em 3D), expondo uma mínima quantidade de conteúdo sexual e agressivo para se fazer entender. Deste modo, evitam transformar a denúncia do fetichismo em algo igualmente fetichista, ao passo que contornam a possibilidade de praticar a censura que pretendem denunciar. Block e Rieseweck andam sobre uma linha tênue, encontrando soluções memoráveis a dilemas morais - vide a esclarecedora entrevista com uma moderadora que expõe seus pesadelos enquanto ouvimos gemidos dos vídeos eróticos no computador ao lado.

The Cleaners se conclui com um olhar alarmante não às redes sociais nem ao ímpeto humano de se agredir, e sim à nossa relação cada vez menos controlada com o volume e o valor de nossas imagens. Em última instância, estes moderadores que acreditam agir como “policiais”, protegendo a população, apenas contêm a parte mais visível de um problema muito maior. Assim como lembra uma personagem, um vídeo pode levar ao bullying, pode desencadear uma guerra, pode provocar o suicídio. Mas em tempos de discursos polarizados e manipulação política das redes, quem pode dizer qual fotografia é arte, e qual é pornografia? Quem define os limites entre liberdade de expressão e discurso de ódio? O filme escancara o dilema desta época em que se perderam os marcos civilizatórios essenciais.

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