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    Cine Holliúdy 2 - A Chibata Sideral
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    Cine Holliúdy 2 - A Chibata Sideral

    O doidinho dos filmes

    por Francisco Russo

    A saga de Cine Holliúdy se confunde com a do próprio Brasil, ou ao menos o Brasil de antigamente, ao explorar a ingenuidade para ressaltar o fascínio provocado pelo cinema em uma época onde as telas não estavam tão disseminadas como na atualidade. Com muita habilidade e uma boa dose de picardia, o diretor Halder Gomes deu cores locais ao "Cinema Paradiso brasileiro", tornando-o intrínseco ao Ceará a partir de seu linguajar tão peculiar. Muito do sucesso local vem desta identificação, tanto no modo de ser quanto no coração.

    Com o salto temporal de uma década, Cine Holliúdy 2 chega a 1980 de forma descrente: a TV explodiu e fez com que a pequenina sala de cinema no interior do estado seja fechada. Morando na casa da sogra, Francisgleydisson tem uma experiência alienígena que resulta em uma ideia inusitada: um filme de ficção científica onde Lampião e seus cangaceiros enfrentam seres extra-terrestres. Acredite: a imagem dos grupos se digladiando, na base da peixeira e de sabres de luz, é das mais divertidas feita pelo cinema nacional em muito tempo.

    É a partir dos esforços para que o longa-metragem seja rodado que esta sequência retoma a essência do original: a paixão pelo cinema, agora manifestada não pela descoberta do mundo visto pelas telas mas pela construção de tal magia, nos bastidores. Para tanto, Halder Gomes expande seu universo rumo à política e à religião de forma a ambientar as dificuldades (e interesses) inerentes à produção de um filme, sempre com personagens exagerados, caricatos e bem populares. Esta é também a essência da agora franquia e, obviamente, um dos motivos de tamanho sucesso.

    Entretanto, há em Cine Holliúdy 2 algo novo: o subtexto político, muito bem inserido pelo também roteirista Halder Gomes de forma que envie mensagens sem ser panfletário. Com citação implícita ao atual presidente Michel Temer, o longa-metragem ainda relembra o famoso Powerpoint que incriminava o ex-presidente Lula para fazer piada com o protagonista, assim como encarna em Samantha Schmutz uma vertente raivosa da direita que se opõe aos artistas, de uma forma geral - "odeio gente que pensa", ela brada. Da mesma forma, os críticos de cinema em geral são também representados em cena, como o integrante da trupe que a todo instante aponta incoerências. Ou seja, se esta continuação segue com o fascínio causado pelo cinema como norte, há no roteiro uma certa sofisticação inexistente até então, travestida em meio a trocadilhos e piadas populares de todo tipo - inclusive a gays, deficientes e religiosos, por vezes beirando o limite do ofensivo.

    No mais, vale também destacar as adições ao elenco: Milhem Cortaz e Samantha Schumtz brilham em personagens bem construídos, enquanto Chico Diaz se destaca pelo pitoresco e Sérgio Malheiros surge em uma ponta divertida. Tudo capitaneado pela empolgação típica de Edmilson Filho, o eterno sonhador, que agora se divide também na pele do apóstolo. Sua eterna paixão pelo cinema é a alma de Cine Holliúdy, pela qual tudo vale a pena.

    Com Cine Holliúdy 2, Halder Gomes mais uma vez demonstra sua capacidade em falar com o povo, de forma divertida e apaixonada. Ao fazer do exagero sua matéria-prima, ele é capaz de absurdos como uma luta entre mulheres no melhor estilo videogame e duelos entre cangaceiros e alienígenas sob justificativas insólitas, mas perfeitamente orgânicas dentro da história. Com uma coleção de coadjuvantes riquíssimos e um punhado de belas sacadas implícitas, esta sequência avança em relação ao longa original sem perder a capacidade de fazer rir.

    Filme visto em novembro de 2018, no Festival do Rio.

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    Comentários

    • Roberlan C
      Eu particularmente, gostei mais do primeiro filme. Mas o segundo também é muito bom. Não sou nenhum crítico de cinema, que fala com termos técnicos e expõe os detalhes da direção e do roteiro, mas posso dizer que o segundo filme conta com um pouco mais de exagero que o primeiro (não estou dizendo que é ruim).
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