Notas dos Filmes
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    Roma
    Críticas AdoroCinema
    5,0
    Obra-prima
    Roma

    Poesia e cinema

    por Lucas Salgado
    Antes mesmo de ser visto pela primeira vez, Roma já era um dos filmes mais comentados do ano. Dado como certo na competição do Festival de Cannes 2018, foi cortado do evento após a decisão da organização de banir os filmes da Netflix da programação. O diretor Alfonso Cuarón até tentou fazer um lobby para a empresa e o evento entrarem em sintonia, mas não rolou. Com isso, o filme foi guardado para o Festival de Veneza, de onde saiu com o Leão de Ouro de Melhor Filme. Agora, na programação do Festival de Toronto, desponta como forte concorrente ao Oscar do ano que vem.

    E uma coisa é certa... O filme é merecedor de toda louvação que está recebendo. Gosto de acreditar que um filme, para ser considerado uma obra-prima, deve também vencer uma batalha contra o tempo, permanecendo relevante com o passar dos anos. Assim, qualquer aposta nada mais é do que um exercício de imaginação. Mas uma coisa é certa, Roma tem sim potencial para ser considerado uma obra-prima.


    Conhecido por trabalhos variados que vão de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban à Gravidade, Cuarón entrega sua obra mais bem acabada. Que, curiosamente, parece ser uma reunião de todas as suas obras. Temos o lado juvenil de A Princesinha, o cenário intimista de E Sua Mãe Também, a fotografia insana de Filhos da Esperança e até elementos de Gravidade.

    O Roma do título não remete à capital italiana, mas ao bairro de classe média da Cidade do México, onde se passa a história. Na verdade, a escolha do título e a relação com a Itália não parece ser coincidência, afinal há fortes referências ao neorealismo italiano na produção, desde a opção pela fotografia em preto e branco aos momentos de crítica social, que lembram Roma, Cidade Aberta, de Roberto Rossellini.

    Dirigido, escrito, produzido, fotografado e montado por Cuarón, Roma conta a história de Cleo (Yalitza Aparicio), uma jovem que trabalha como babá e doméstica de uma família de classe média do México. No período de um ano, muitos acontecimentos irão abalar a vida deste núcleo familiar, desde a gravidez de Cleo à separação de seus patrões. 

    Cuarón sempre primou por uma bela fotografia em suas obras, e agora ele mesmo assumiu o posto de diretor de fotografia. Aqui, opta por quase sempre fixar a câmera em um ponto e movimentá-la levemente, ora da esquerda para a direita, ora da direita para a esquerda. Desta forma, temos sempre a sensação de ampliação do cenário e dos ambientes. É basicamente como se uma pessoa estivesse tirando uma foto panorâmica em seu celular. 

    São raros os momentos em a câmera não está parada em um ponto fixo. Mesmo em tomadas nas ruas, em que a câmera corre ao lado do objeto de cena, o que temos é a utilização de um trilho. Há um permanente estado de estabilidade visual, que contrapõe à instabilidade do dia a dia dos personagens e mesmo do México.


    É curioso notar que o diretor foi capaz de construir uma obra essencialmente intimista, mas que, ao mesmo tempo, também é épica. O foco está no desenvolvimento dos personagens e no retrato fiel da sociedade mexicana, mas em alguns momentos somos jogados em situações de catástrofes ambientais e sociais absolutamente inesperadas. Com isso, o filme se torna quase sempre imprevisível e instigante.

    O texto de Cuarón é elegante e repleto de metáforas sociais, com o fato das pessoas mais ricas em cena terem dificuldades em dirigir. Neste sentido, chega até a investir em pitadas de surrealismo, ao inserir uma aula de artes marciais no meio de tudo.

    Inteligente, envolvente, impactante e, acima de tudo, instigante. Roma é um filme que vai ficar em sua cabeça por bastante tempo. É cinema em seu estado mais puro e sublime.

    Filme visto durante o Festival de Toronto, em setembro de 2018
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    Comentários

    • Crïstîän Dsgn
      Sim, pra quem já está domesticado pelo cinema clássico hollywoodiano, fica difícil mesmo, e uma narrativa mais 'realista' pode 'ferir sentimentos'. Esse 'qualquer um' a quem você se refere deveria evitar de assistir, e evitar mais ainda de comentar algo que não teve alcance de apreender. Estamos no Brazil, né, 'qualquer um' fala qualquer coisa sobre qualquer assunto. Estão até lançando livros!
    • Elizete Barroso
      Eu vou resumir: o pior filme que já vi.
    • DefendaSeuDinheiro
      Vi, gostei, muito bom, merecidos todos prêmios que ganharam.
    • La Porte
      Olha, acho que dizer que nem todo mundo tem a capacidade intelectual de digerir uma obra como essa é um pouco desonesto. Eu entendi seu ponto e concordo que as pessoas tendem a não gostar do que incomoda e, querendo ou não, filmes que falam sobre classes contra-hegemônicas nos tiram do conforto dos privilégios que nos adornam, para refletirmos que estes só existem em detrimento de outrem que não o possui. Mas, nadar contra a corrente e ter uma libertação para se pensar dessa forma, requer também privilégios, como estar inserido no ambiente acadêmico, ter um recurso econômico para te proporcionar acesso a filmes como esse (seja no cinema, seja na netflix, seja no computador).
    • La Porte
      Como assim roteiro fraco? roteiro não é só diálogo, amigo. Roteiro é tudo que está ali. E assim, pensando que pelos poucos diálogos para as mais de 2h de duração do longa, com certeza o desafio foi manter a narrativa com elementos diferentes do cinema clássico e hollywoodiano que estamos habituados. A montagem é bem menos frenética do que estamos acostumados, a narrativa é conduzida de forma mais observacional e reflexiva que explícita e, se pararmos pra pensar, faz muito mais sentido ser assim, não? Afinal, o relato é muito mais subjetivo e reflexivo por se tratar de memórias da infância.
    • Edvaldo Junior
      Quem tem olhos de ver, que veja. Para fazer um bom filme, basta retratar a sociedade, e retrata:- A empregada, que apesar de toda consideração, sempre será sempre a empregada. - A base da pirâmide social formada por indigenas, e os brancos no topo da sociedade. E os indigenas são maioria. - As mulheres são as oprimidas, as humilhadas, e as que arcam com as com as consequências do direito natural dos homens buscar a felicidade e suas realizações. Não importa a classe social. - Tornaram o autoflagelo natural. A mulher, ou o oprimido, sempre se culpa pelo insucesso da vida. Nunca é a organização da sociedade. As experiências liberta. - A América latina sendo a américa latina, sempre subjulgando o seu povo de forma violenta, para manté-los na miséria, em prol da manutenção da riqueza de uma elite que pouco se importa com o que acontece lá embaixo. Prefere gastar seu tempo em diversõe fúteis, balas ao vento, a se importar com os outros.- Um povo oprimido é mudo. Desejo de todo autoritário e ditador.
    • Harley
      Nem todas as pessoas possuem a capacidade intelectual e emocional de apreciar uma obra dessas. Ainda mais sendo de uma minoria (negro) que sempre sofreu com a negligência da sociedade e do estado, assim como Cleo que é indígena e marginalizada.
    • Harley
      Filme sublime, em mais de 2h de filme eu não fiquei nem um pouco entediado, pelo contrário, só consegui contemplar as cenas, diálogos e situações profundas e reais transmitidas em tela. Qualquer pessoa que vive realmente na América Latina se sente tocado pela história, até um homem conseguiria ter a sensibilidade de se colocar no lugar de Cleo. E acredito que não tenha nenhuma pessoa que não torceu para que o bebê nascesse morto, por isso a importância absoluta da legalização do aborto, enfim. Um retrato fiel e atemporal da América Latina, pois essa história poderia se passar tranquilamente em 2019 (e pelo jeito que as coisas estão, no futuro também). Mas somente as pessoas sensíveis, empáticas e com uma consciência profunda do meio em que vivem conseguirão contemplar essa verdadeira obra prima.
    • Fabiano Pinto
      Raso, largo, profundo... Como disse Raul em Gita, que para muitos não faz o menor sentido, e para outros é pura poesia e diz tudo, essa é a melhor forma que encontrei de definir este filme.Que é lindo, muito bem cuidado em todos os sentidos, aborda temas interessantes, mas é lento, cansativo, disconexo e podia ser menor, se economizasse em algumas passagens.Fiquei esperando o filme acontecer ao longo da primeira hora e logo me conformei que tudo o que tinha que acontecer já estava ali, agora era só aguardar o desfecho dos dramas, que teve o ponto alto, se é que posso dizer assim, o parto da Cleo, pq foi o único momento em que eu torci pela protagonista, foi quando eu vivi o drama, depois foi só curtir a comunhão dela com a família que acabava de se reinventar e passava a integra-la aquele novo contexto.Não venham me dizer que eu esperava ver um filme de ação, pq isso não é o fato, pois sou fã de filmes como O Carteiro e o Poeta, Cinema Paradiso e o tão comparado Que horas ela volta?, filmes poéticos com andamento lento, mas que possuem conexão ao longo de toda a história e envolvem o espectador.
    • Ewelin Canizares
      Amo Cuáron desde seus primeiros filmes essencialmente mexicanos.. E,nesse ele parece de volta à casa, mas com a maturidade dos anos. O filme é singelo, mesmo nas situações mais difíceis e pesadas consegue ter leveza. Não via isso faz tempo... Na verdade, ando feliz que vários filmes de arte, como Roma, No portal da Eternidade, Green Book, e agora o Todos já Sabem. Para mim, é como se o cinema, finalmente, voltou, e, seja bem vindo! Ah, mais uma coisa, para mim, o nome Roma tem outro significado além do aqui exposto, pra mim é um trocadilho com a palavra amor, que é o que a personagem mais fala e o que permeia a relação das mulheres, e crianças, no filme. E, a mensagem de que andamos precisando de muito mais amor, nesses dias.
    • adeilton l
      Parabéns pelo texto, Lucas! Belo filme! A julgar por alguns comentários aqui neste painel, algumas pessoas parecem estar mais receptíveis aos filmes de ação das TV's, tipo sessão da tarde ou domingo maior, do que se permitir a mergulhar nas simbologias e sutilezas de um filme como Roma!
    • Alexandre Albuquerque
      Cuarón deve ser a carta marcada do baralho para 2019. Qualquer filme que ele fizesse seria indicado com altos índices. A Academia, já foi séria, mas ultimamente parece pagar dívidas. Cuarón devia ter mais afinco em Filmes como Gravidade, onde ele foi Diretor.
    • Alexandre Albuquerque
      Acho que Lucas Salgado foi pro cinema com o celular ligado e ficou falando com a namorada o tempo todo no Whatsapp. Só pode
    • Alexandre Albuquerque
      huahuahuahuahuahuahua, boa
    • Alexandre Albuquerque
      Novela Mexicana chega ao Cinema Não tem como não dormir neste filme.... A GRAVIDADE atua com força total nas pálpebras. Pelo menos deu para colocar o sono em dia....
    • Rafael C.
      Uma porcaria isso sim! Perdi 1 hora da minha vida me forçando a ficar na frente da Tv. Horrível!
    • Wandelson Soares
      O filme é como novela mexicana, onde desgraça pouca é bobagem. Sem graça.
    • Livia Araújo
      Não sei o que dizer... O filme é bem monótono. Traz situações que nos provocam, mas que são desconexas pra mim, não se integram. Talvez para os especialistas, entendidos no assunto, seja mesmo uma sacadas o fato de ser em preto e branco, a movimentação das câmeras. Acho que o sentido é que justamente por não ter muito sentido estamos sempre sendo provocados a procurar o motivo disso ou aquilo, forçados a pensar e se fosse colorido?... Pra mim faltou algo, uma surpresa, faltou um encanto sutil na interpretação, como há em A forma da água, por exemplo. Não me encantou. Pareceu aquele livro que a gnt termina de ler só porque começou e pronto.
    • EDUARDO GONCALVES PIRES
      Filme chato. Machado de Assis era um gênio, mas chato. Temos a mania do que é muito inteligente ser o máximo, mas essa época passou. Temos cineastas que foram gênios e nunca nem concorreram. Agora, ficamos com vergonha de falar que é chato pq vai ter sempre alguém tentando te convencer que é muito inteligente, sensível, blá blá blá.
    • Frederico Magalhães
      O filme é um cu!!! Que filme merda do caraio. Esses críticos de cinema São tudo maconheiro pra gostar de uma merda dessa.
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