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    Elvis
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    Elvis

    O homem, a lenda e a extravagância

    por Aline Pereira

    Em 2018, a representação da história de Freddie Mercury em Bohemian Rhapsody deixou uma impressão amarga: faltou fôlego e coragem para mergulhar mais fundo no universo de um dos maiores artistas de todos os tempos. Quatro anos depois, a mesma expectativa surge em torno de Elvis, cinebiografia assinada por Baz Luhrmann, diretor de Moulin Rouge e O Grande Gatsby. São muitos os desafios para uma obra como essa - da complexidade da trajetória de Elvis Presley aos malabarismos para evitar caricaturas de uma figura já tão imitada à exaustão -, o novo longa se apressa em alguns momentos, mas reverencia o espírito do fenômeno cultural.

    Elvis (2022) percorre a trajetória do músico da juventude até a morte trágica após uma parada cardíaca aos 42 anos de idade, em 1977. Baz Luhrmann acerta logo na largada, ao escolher um viés original e instigante para contar esta história: o longa aborda, em especial, o relacionamento entre Elvis e seu empresário, Coronel Tom Parker, uma figura controversa interpretada por um Tom Hanks de visual completamente transformado - e, ele sim, caricato.

    Elvis Presley x Tom Parker

    Parker gerenciou a carreira de Elvis Presley durante mais de 20 anos, sempre com rédeas curtas e obsessão por controle: o empresário quase não permitiu que o cantor se apresentasse fora dos Estados Unidos, além de ter sido autor de contratos absurdos em benefício próprio.


    “Um bandido barato que jogava sujo”, definiu Tom Hanks em coletiva de imprensa concedida em Cannes. Embora o trabalho extravagante do ator dê conta de apresentar tanto o lado vilanesco quanto a aposta incondicional de Parker na força de Elvis, faltam estes elementos no roteiro.




    O filme se atém mais à superfície de uma relação cheia de complexidades - que talvez seja mais familiar para as gerações anteriores mas, certamente, não para o público mais jovem. São ótimos os momentos em que a narração de Tom Hanks entrega a visão do empresário sobre seu artista, mas, sem ilustrar as contradições com mais detalhes, Elvis se torna uma figura passiva de sua própria história.


    É um viés que encontra um bom caminho novo e “desconhecido” para falar de uma das pessoas mais famosas do mundo, mas que ganharia força com uma visão mais detalhista. 

    Visual luxuoso se destaca em história picotada


    Ao escolher retratar a carreira de Elvis, praticamente, do começo ao fim, Baz Luhrmann abraçou o desafio de condensar mais de 20 anos em pouco mais de duas horas. Nesta corrida desenfreada, alguns momentos passam em um piscar de olhos, o que pode ser um problema para quem já conhece a vida do cantor: episódios importantes (como a presença da mãe, o trabalho de Elvis como ator ou mesmo a relação do artista com a comunidade negra em que cresceu) são pincelados para dar lugar a takes mais longos do período de residência em Las Vegas -  passagem crucial para contar a história, claro, mas não a única.

    Em geral, a sensação é de que Elvis tem um número enorme de cenas que impressionam no visual e na montagem, mas que têm muitos lapsos entre si. O tempo anda rápido demais e fica difícil fazer as conexões, de forma natural, entre as etapas que levaram o músico a se tornar o Rei do Rock’n’Roll. Piscou, perdeu. Uma sensação de vertigem que fica ainda mais intensa com a marca visual forte do diretor - é tudo o que ele colocou em Moulin Rouge e um pouco mais.




    A paixão e a habilidade Baz Luhrmann para criar extravagância é forte e, sem dúvidas, onde o cineasta se sente completamente à vontade. Assim, a montagem das apresentações do Elvis Presley são o ponto alto da cinebiografia. Não é à toa que hits como Suspicious Mind, I Can’t Help Falling in Love, entre outros, têm uma energia imortal. O diretor tira máximo proveito dessa genialidade musical para criar cenários mágicos e imersivos, que conseguem trazer para a tela a essência do magnetismo e do impacto de Elvis Presley.

    Mesmo com passagens muito rápidas e a sensação de estar assistindo a trechos soltos de uma grande história, os momentos em que o protagonista faz suas performances são de fazer arrepiar. E aqui entramos em uma parte fundamental: os méritos de Austin Butler.

    Austin Butler é um bom Elvis Presley

    Vindo de produções teen como The Carrie Diaries e Zoey 101, Austin Butler recebeu a missão quase impossível de não se tornar mais um entre os incontáveis sósias e imitadores de Elvis Presley. E conseguiu.


    É notório o
    estudo que o ator de 30 anos fez sobre seu personagem e a clareza de sua visão sobre o trabalho que precisava executar. “Vemos Elvis como um ícone e foi uma felicidade encontrar uma forma de tirar isso da frente, encontrar a naturalidade”, disse na coletiva de imprensa em Cannes. De fato, esta foi a chave para o trabalho bem-sucedido de Butler: encontrar o homem além da lenda.




    O Elvis Presley que encontramos no filme parece profundamente vulnerável, muitas vezes absorto em seu próprio universo e funcionando em uma frequência diferente das outras pessoas. Não há nada de “heroico” no personagem e Austin oferece uma performance sensível - mas que não deixa de lado o carisma e o magnetismo que tornaram o artista um ímã de paixões incontroláveis.


    Esse empenho, vale notar, vai até onde o roteiro permite: a sensação é de que Butler poderia ir ainda além se o filme desse a ele mais espaço, mais tempo e menos saltos temporais. 


    Criar um espetáculo em torno de uma figura dessa magnitude virá sempre sob expectativas altas - nenhuma culpa do público nisso. Elvis Presley, assim como Freddie Mercury, são ícones cujas histórias já são amplamente conhecidas: nós já sabemos que as vidas desses artistas foram cheia de altos muito altos e baixos muito baixos. A vontade é de ter uma visão melhor dos detalhes, ter uma ideia de como funcionava a mente de pessoas tão geniais, que se destacaram tanto e se tornaram imortais na história.


    Em 2019, Rocketman acertou em cheio ao escolher uma
    narrativa quase lúdica, mas cheia de espírito, para contar a história de Elton John e Elvis, mesmo com alguns tropeços, se aproxima mais desse lado do que de Bohemian Rhapsody.


    Faz falta um mergulho mais fundo no filme de 2022, é verdade, mas há uma personalidade que faz brilhar os olhos por sua identidade própria, e que explica ao público mais jovem como surgiu uma das maiores avalanches culturais de todos os tempos e por que Elvis Presley é um fenômeno irresistível.


     

     

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