Visceral, totalmente selvagem, politicamente incorreto e acima de tudo belo. O filme do argentino Damián Szifron (Tempos de Valentes) busca nas entranhas do instinto humano a tragicomédia banalizada por situações rotineiras da sociedade. Relatos Selvagens é um filme de trechos (episódios) que nos eleva ao questionamento da linha tênue que separa a civilização da barbárie, do racional ao irracional, da paz a guerra, do controle ao descontrole, um pleno soco "na boca do estômago" de uma sociedade mesquinha e hipócrita. Os 6 relatos que o longa descreve, perpassam pela insanidade da violência incontida dentro de cada um de nós, das implosões de raiva, insatisfação, traição, rancor e ódio presentes na índole social. Os episódios são costurados de forma cirúrgica ao roteiro de Damián Szifron que é uma espécie de Quentin Tarantino com Pedro Almodóvar (Produtor do filme). Um diretor altamente qualificado em termos técnicos, conhecedor de enquadramentos e ângulos inusitados, que fazem do longa uma obra exuberante, semioticamente falando. A fotografia de Javier Juliá é minuciosa e altamente esplêndida em diversos takes que transgridem os episódios "Pasternak", "Las Ratas", "El Más Fuerte", "Bombita", "La Propuesta", "Hasta que la muerte nos separe", um verdadeiro show de planos, contraplanos e iluminação. Relatos Selvagens é um filme perspicaz e pragmático, uma obra de grande relevância ao cinema Argentino/Espanhol e mundial, algo que foge da caixa programada e muitas vezes quadrada de Hollywood, um filme autoral, super interessante e altamente argumentativo e reflexivo, que custou pouco dinheiro mais imenso esforço de seus realizadores. Acredito veemente que esta produção vai mexer com seus conceitos por ser um longa moralmente desafiador. Filme totalmente subversivo em sua nuance narrativa.