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    Desencantada
    Críticas AdoroCinema
    2,5
    Regular
    Desencantada

    Um conto de fadas pelo avesso

    por Katiúscia Vianna
    Amy Adams tem 6 indicações ao Oscar (deveria ter 7 considerando que ela foi esnobada por A Chegada), porém é inegável que um de seus trabalhos mais populares é Encantada. O filme de 2007 é divertido, charmoso e brinca com o universo da Disney, revelando a força da atriz para ser a protagonista de uma grande história. Durante anos, muitos questionaram se Encantada ganharia uma sequência, até que esse momento finalmente chegou.

    Aposta exclusiva para o Disney+, Desencantada segue a jornada de Giselle numa nova aventura. Mas será que conseguiu manter o encanto? E olhe que não estamos falando do Encanto da Família Madrigal… Desculpe, não resisti à piada. Vamos seguir com a crítica:

    Qual é a história de Desencantada?



    Também conhecido em nossos corações como "Encantada 2", Disenchanted (no original) acompanha Giselle (Amy Adams) ainda casada com Robert (Patrick Dempsey), 10 anos após os acontecimentos do primeiro filme. Agora, Morgan passa a ser interpretada pela novata Gabriella Baldacchino em sua fase adolescente rebelde e tem uma uma pequena irmã, Sophia.

    Com a chegada do novo bebê, Giselle e Robert decidem se mudar para Monroeville, no subúrbio, o que causa descontentamento em Morgan. Os problemas familiares se complicam, mas a protagonista se encontra diante de um desejo mágico e pede para que sua vida volte a ser um conto de fadas. Só que esse pedido pode não sair como o planejado e afeta até mesmo o reino de Andalasia, comandado por Edward (James Marsden) e Nancy (Idina Menzel).

    Para piorar, existe a vilã Mavina (Maya Rudolph), que tem uma espécie de autoridade na cidade de Monroeville e vê Giselle como uma ameaça ao seu status. Para seus planos, ela conta com o apoio de duas leais e atrapalhadas ajudantes, Rosaleen (Yvette Nicole Brown) e Roby (Jayma Mays).

    Amy Adams se diverte com Giselle



    Assim, Desencantada entra para a lista de continuações tardias do cinema que sempre despertam uma questão na mente do público: era algo necessário? Na mais honesta das opiniões: não muito. Porém, isso não significa que a continuação de Encantada seja um desastre total. Pelo contrário, existem momentos divertidos, principalmente na grande reviravolta do filme: afinal, Giselle é uma madrasta agora — figura bem polêmica nos contos de fadas.

    E, nessa dualidade, Amy Adams arrasa. Sua personagem está passando por uma transformação extrema a contragosto, então, por diversas vezes, ela transita entre a doçura e inocência de Giselle até a vibrante maldade de uma vilã de contos de fadas. Brincando com os clichês desse gênero, a atriz entrega mais uma performance incrível e carrega o filme com grande simpatia.

    Foi inteligente, da parte dos produtores, investir no relacionamento entre Giselle e Morgan, ao invés do romance com Robert, pois ela já teve sua história de amor. Agora, é a vez de se enxergar como mãe de uma adolescente que não acredita mais em magia — apesar dela ainda conviver com o povo cantante de Andalasia. E Gabriella Baldacchino é realmente um achado no papel da jovem, com uma voz suave e personalidade forte até quando se torna a doce enteada do conto de fadas.

    Desencantada traz retorno discreto de Patrick Dempsey



    O problema é que, tirando esse aspecto bacana, Desencantada não possui grandes destaques. Robert embarca numa jornada onde parece que os roteiristas não sabiam muito bem o que fazer com ele, então literalmente o jogam de um lado para o outro, tentando fazer piada. A participação de Nancy e Edward até que faz sentido na história, mas também não acrescenta muito além de um conselho amigo em formato de canção, servindo mais agudos de Idina Menzel na Disney. Você achou que "Let It Go" era o fim? Que nada. (Sinceramente, ela pode cantar em todo filme da Disney que eu não vou ligar, mas tudo bem!)

    Já os novos personagens são ok. Malvina deveria ser uma grande vilã, mas nunca é bem desenvolvida. Não sabemos quais são suas motivações além de querer “mais poder” — o que, teoricamente, funcionaria num conto de fadas, mas não combina com a dualidade que a história acompanha. Maya Rudolph é sempre divertida, é claro, mas não brilha perto da rainha Narissa do primeiro filme, com a potência de uma Susan Sarandon.

    Sem falar que é um desperdício ver os talentos Yvonne Nicole Brown, Jayma Mays e Oscar Nuñez com papéis tão limitados. Afinal, estamos falando de astros de sucessos como CommunityGlee e The Office, mas ficam apenas sentados no banco de reservas, esperando dois minutos para brilhar.

    Vale a pena ver Desencantada?



    Visualmente, Desencantada é um primor. A transformação de Monroeville em conto de fadas é algo divertido e colorido — cheio de easter-eggs sobre produções da Disney. Nesse ponto, o diretor Adam Shankman joga bem com os clichês, só que, de uma forma geral, a continuação não parece ter o mesmo charme do primeiro filme. Claro que, atualmente, olhamos para Encantada com nostalgia, mas existia um frescor naquela brincadeira. Talvez seja mais divertido ver o conto de fadas caindo no mundo real do que o contrário, apesar das ideias funcionarem na teoria. A prática foi o problema.

    Uma prova disso são as músicas do longa. Não foi à toa que Encantada recebeu três indicações ao Oscar de melhor canção, quinze anos atrás. Por sua vez, Desencantada parece tentar emular os clássicos contos da Disney, ao invés de criar algo marcante. Longe de mim criticar gênios como Alan Menken e Stephen Schwartz, mas não são obras tão apaixonantes (ou com refrões tão viciantes). A exceção fica pelo dueto de Giselle com Malvina, certamente a faixa mais inspirada da trilha sonora. Até mesmo o grande número musical da transformação de Monroeville em conto de fadas não parece ter a mesma energia de um “That’s How You Know”.

    Enfim, Desencantada não é uma obra desnecessária e até se torna uma opção bacana para ver com a família, debaixo das cobertas no meio da preguiça de um domingo à tarde. Mas musicais devem impactar o espectador com faixas e personagens mágicos — principalmente sendo um conto de fadas do mundo real. A cobrança fica ainda maior quando notamos que o público apaixonado espera por essa sequência por quinze anos. Tinha tudo pra dar certo e, em alguns aspectos até dá, mas fica apenas no “ok”. O que é legal, mas não é encantado.
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