Foi Apenas um Acidente
Críticas AdoroCinema
4,5
Ótimo
Foi Apenas um Acidente

Sem abrir mão das complexidades humanas, Jafar Panahi utiliza humor para reverberar os horrores da guerra

por Diego Souza Carlos

O excesso de filmes que retratam a guerra é um ponto interessante de se refletir quanto às movimentações da indústria cinematográfica. Pode até parecer um tema exaustivo e repetitivo, mas há um motivo muito claro por trás disso: uma vez que Hollywood domina todo o mainstream, as mesmas visões - ou ideias similares dos eventos que marcaram o mundo - ganham enxurradas de adaptações por exaltação militar e por puro alimento do interesse público, especialmente masculino, por ideais de heroísmo banhados aos recursos de ação e drama.

Essa produção em massa está vinculada a um revisionismo sobre quem são os heróis da guerra (se é que dá para encontrar um lado bom na barbárie) ou pela curiosidade da audiência quanto a um recorte "inédito" desses períodos. Nesse cenário, existem longas que conseguem subverter o lado comercial para denunciar problemas sociais e nutrir o estado educativo do “lembrar para não repetir”. Quando uma história ganha contornos com esse frescor nas telonas, como é o caso de Foi Apenas Um Acidente, é preciso fazer uma pausa e se questionar: “Como essa trama assustadora faz parte do cotidiano de pessoas reais?”.

O projeto de Jafar Panahi é, sim, um filme de guerra, mas também um retrato da rebeldia daqueles que sofreram e ainda sofrem as consequências da violência de uma disputa sem fim. É um respiro, ainda que doloroso e estranhamente cômico, sobre o que entendemos quanto à temática na sétima arte. Isso não está vinculado apenas ao fato de ser um filme que retrata as marcas da tragédia, mas porque opta por se aprofundar em personagens fragilizados e errantes, que vivem em estado de sobrevivência apenas por não aceitarem o autoritarismo.

Foi Apenas Um Acidente?

Imovision/Divulgação

Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes deste ano, o longa acompanha um mecânico chamado Vanid (Vahid Mobasseri) que foi, certa vez, aprisionado pelas autoridades iranianas, interrogado de olhos vendados e torturado sem escrúpulos. Um dia, anos após os traumas do seu passado, ele encontra um homem que parece seu torturador. Impulsionado pela vingança, ele busca ajuda de outros ex-prisioneiros para tentar descobrir se o homem com quem cruzou é, de fato, o agente do Estado que os dilacerou emocional e fisicamente.

É preciso fazer uma breve introdução sobre Panahi, o diretor iraniano que concebeu o projeto a partir das próprias vivências, do tempo que ficou preso por ser considerado um inimigo do Estado apenas por questionar as atitudes do governo. Por se opor ao totalitarismo, o cineasta viveu no cárcere em algumas ocasiões e mesmo solto foi proibido de exercer seu trabalho como realizador. Assim, encontrou subterfúgios para fazer filmes como podia, como é o caso de Táxi. Na necessidade deste ofício, ele produziu diversos projetos na surdina. Foi Apenas Um Acidente é um deles, que, embora tenha sido gravado em um período "ameno" quanto à vigília, precisou ser feito sob sigilo para evitar qualquer tipo de represália.

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Em poucos dias de produção, o cineasta criou uma dramédia tão palatável quanto inesperada. Há certa simplicidade em suas tomadas e um apreço constante pela espontaneidade dos atores, o que nos leva a uma sensação de urgência - sentida dentro e fora da tela - para se chegar ao fundo dessa história. O improviso parece fazer parte deste exercício de atuação livre, com uma montanha-russa que leva o grupo dos momentos mais comicamente absurdos aos mais dramáticos em uma única tomada. É admirável, pois sem grandes recursos, cria-se uma história sobre pessoas com investimento de tempo, respeito e conhecimento ao que a trama se propõe.

Aos poucos, enquanto descobrimos o passado de cada um, nos vemos compelidos a opinar sobre o que devem fazer no presente. A impunidade deve ser barrada pelas próprias mãos quando se há oportunidade? A dignidade da vida alheia deve ser resguardada mesmo em situações ameaçadoras? Viramos monstros quando rebatemos às ações de quem nos machucou? É possível superar um trauma tão grave? Enquanto eles debatem e trazem o público às discussões acaloradas, até há certo didatismo aqui e ali, certa exposição para explicar detalhes mais específicos, mas isso é amenizado por uma nítida entrega de todos os artistas envolvidos.

O que você faria se reencontrasse seu maior trauma?

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O título do filme brinca com os grandes absurdos que a casualidade da vida reserva. Independentemente da identidade deste homem que pode ou não ser responsável por tanto sofrimento dos personagens apresentados, o filme transgride o espaço comum para demonstrar, de forma visceral, como marcas deixadas pela violência criam raízes profundas na vida das pessoas. No entanto, para um filme com temas tão densos, o diretor opta por mesclar o humor e o drama com as afinidades que ambos os gêneros compartilham na vida fora das telas.

Vanid é um personagem naturalmente tragicômico, e sua energia oscila entre a frustração de sua vida atual com um dilema moral que o impede de ir até às últimas consequências. Os demais surgem aos poucos e revelam essa dualidade: enquanto tentam seguir com suas vidas, há um buraco enorme deixado pela tortura e pelo isolamento.

Uma fotógrafa, um casal às vésperas do casamento e um homem explosivo se juntam nessa jornada que pode até flertar com o road trip, mas apenas avança geograficamente na história para compartilhar o crescimento da angústia destes personagens. Eles se veem com uma chance única de vingança, mas são atormentados não apenas pelos fantasmas do passado, mas pela sombra da incerteza e pelos questionamentos da própria moralidade.

Imovision/Divulgação

Jafar Panahi usa de uma suposta simplicidade para camuflar sua genialidade narrativa. Em um dos melhores filmes dos últimos tempos, o cineasta iraniano apresenta uma jornada palatável para todos os públicos. A decisão de alimentar esse enredo com toques de humor é fundamental para burlar qualquer burocracia tradicional a temas mais severos. Isso humaniza os personagens, é claro, mas também brinca com o público: enquanto o riso pega a audiência de assalto, o coração se abre para a compreensão deste cenário de horror.

Ao fim, com duas sequências capazes de criar nós nas gargantas em qualquer um, Foi Apenas Um Acidente é coerente com todos os seus personagens e, embora comova quem estiver assistindo por sua intensidade, nunca será parte de uma emoção passageira - assim como alguns sons que jamais deixarão a mente dos torturados.

Filme assistido na 49ª edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

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