Sem abrir mão das complexidades humanas, Jafar Panahi utiliza humor para reverberar os horrores da guerra
por Diego Souza CarlosO excesso de filmes que retratam a guerra é um ponto interessante de se refletir quanto às movimentações da indústria cinematográfica. Pode até parecer um tema exaustivo e repetitivo, mas há um motivo muito claro por trás disso: uma vez que Hollywood domina todo o mainstream, as mesmas visões - ou ideias similares dos eventos que marcaram o mundo - ganham enxurradas de adaptações por exaltação militar e por puro alimento do interesse público, especialmente masculino, por ideais de heroísmo banhados aos recursos de ação e drama.
Essa produção em massa está vinculada a um revisionismo sobre quem são os heróis da guerra (se é que dá para encontrar um lado bom na barbárie) ou pela curiosidade da audiência quanto a um recorte "inédito" desses períodos. Nesse cenário, existem longas que conseguem subverter o lado comercial para denunciar problemas sociais e nutrir o estado educativo do “lembrar para não repetir”. Quando uma história ganha contornos com esse frescor nas telonas, como é o caso de Foi Apenas Um Acidente, é preciso fazer uma pausa e se questionar: “Como essa trama assustadora faz parte do cotidiano de pessoas reais?”.
O projeto de Jafar Panahi é, sim, um filme de guerra, mas também um retrato da rebeldia daqueles que sofreram e ainda sofrem as consequências da violência de uma disputa sem fim. É um respiro, ainda que doloroso e estranhamente cômico, sobre o que entendemos quanto à temática na sétima arte. Isso não está vinculado apenas ao fato de ser um filme que retrata as marcas da tragédia, mas porque opta por se aprofundar em personagens fragilizados e errantes, que vivem em estado de sobrevivência apenas por não aceitarem o autoritarismo.
Imovision/Divulgação
Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes deste ano, o longa acompanha um mecânico chamado Vanid (Vahid Mobasseri) que foi, certa vez, aprisionado pelas autoridades iranianas, interrogado de olhos vendados e torturado sem escrúpulos. Um dia, anos após os traumas do seu passado, ele encontra um homem que parece seu torturador. Impulsionado pela vingança, ele busca ajuda de outros ex-prisioneiros para tentar descobrir se o homem com quem cruzou é, de fato, o agente do Estado que os dilacerou emocional e fisicamente.
É preciso fazer uma breve introdução sobre Panahi, o diretor iraniano que concebeu o projeto a partir das próprias vivências, do tempo que ficou preso por ser considerado um inimigo do Estado apenas por questionar as atitudes do governo. Por se opor ao totalitarismo, o cineasta viveu no cárcere em algumas ocasiões e mesmo solto foi proibido de exercer seu trabalho como realizador. Assim, encontrou subterfúgios para fazer filmes como podia, como é o caso de Táxi. Na necessidade deste ofício, ele produziu diversos projetos na surdina. Foi Apenas Um Acidente é um deles, que, embora tenha sido gravado em um período "ameno" quanto à vigília, precisou ser feito sob sigilo para evitar qualquer tipo de represália.
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Em poucos dias de produção, o cineasta criou uma dramédia tão palatável quanto inesperada. Há certa simplicidade em suas tomadas e um apreço constante pela espontaneidade dos atores, o que nos leva a uma sensação de urgência - sentida dentro e fora da tela - para se chegar ao fundo dessa história. O improviso parece fazer parte deste exercício de atuação livre, com uma montanha-russa que leva o grupo dos momentos mais comicamente absurdos aos mais dramáticos em uma única tomada. É admirável, pois sem grandes recursos, cria-se uma história sobre pessoas com investimento de tempo, respeito e conhecimento ao que a trama se propõe.
Aos poucos, enquanto descobrimos o passado de cada um, nos vemos compelidos a opinar sobre o que devem fazer no presente. A impunidade deve ser barrada pelas próprias mãos quando se há oportunidade? A dignidade da vida alheia deve ser resguardada mesmo em situações ameaçadoras? Viramos monstros quando rebatemos às ações de quem nos machucou? É possível superar um trauma tão grave? Enquanto eles debatem e trazem o público às discussões acaloradas, até há certo didatismo aqui e ali, certa exposição para explicar detalhes mais específicos, mas isso é amenizado por uma nítida entrega de todos os artistas envolvidos.
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O título do filme brinca com os grandes absurdos que a casualidade da vida reserva. Independentemente da identidade deste homem que pode ou não ser responsável por tanto sofrimento dos personagens apresentados, o filme transgride o espaço comum para demonstrar, de forma visceral, como marcas deixadas pela violência criam raízes profundas na vida das pessoas. No entanto, para um filme com temas tão densos, o diretor opta por mesclar o humor e o drama com as afinidades que ambos os gêneros compartilham na vida fora das telas.
Vanid é um personagem naturalmente tragicômico, e sua energia oscila entre a frustração de sua vida atual com um dilema moral que o impede de ir até às últimas consequências. Os demais surgem aos poucos e revelam essa dualidade: enquanto tentam seguir com suas vidas, há um buraco enorme deixado pela tortura e pelo isolamento.
Uma fotógrafa, um casal às vésperas do casamento e um homem explosivo se juntam nessa jornada que pode até flertar com o road trip, mas apenas avança geograficamente na história para compartilhar o crescimento da angústia destes personagens. Eles se veem com uma chance única de vingança, mas são atormentados não apenas pelos fantasmas do passado, mas pela sombra da incerteza e pelos questionamentos da própria moralidade.
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Jafar Panahi usa de uma suposta simplicidade para camuflar sua genialidade narrativa. Em um dos melhores filmes dos últimos tempos, o cineasta iraniano apresenta uma jornada palatável para todos os públicos. A decisão de alimentar esse enredo com toques de humor é fundamental para burlar qualquer burocracia tradicional a temas mais severos. Isso humaniza os personagens, é claro, mas também brinca com o público: enquanto o riso pega a audiência de assalto, o coração se abre para a compreensão deste cenário de horror.
Ao fim, com duas sequências capazes de criar nós nas gargantas em qualquer um, Foi Apenas Um Acidente é coerente com todos os seus personagens e, embora comova quem estiver assistindo por sua intensidade, nunca será parte de uma emoção passageira - assim como alguns sons que jamais deixarão a mente dos torturados.
Filme assistido na 49ª edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo