Dias antes de subir ao altar, o que deveria ser a consolidação de um conto de fadas moderno se transformou, para mim, num campo minado psicológico. Fui assistir a O Drama esperando um romance inusitado e levei um soco no estômago disfarçado de sátira social. A premissa gira em torno de uma confissão chocante que colocou em xeque a minha percepção de moralidade, de empatia e da fragilidade das aparências nessa nossa era de escrutínio constante. Já aviso de antemão: se você for ao cinema esperando uma comédia romântica leve, vai dar de cara com um espelho bem desconfortável das nossas próprias hipocrisias.
Confesso que Borgli tem um talento inegável para criar puro desconforto. Ele pegou eventos super normais, tipo um jantar entre amigos íntimos, e transformou a cena numa panela de pressão prestes a estourar. Senti a ansiedade subir sem me dar folga em momento algum. Mas, sinceramente, essa tática cobrou o seu preço e me alienou um pouco no meio do caminho. Tive a impressão clara de que o diretor sentiu um prazer enorme em testar os meus limites, focando excessivamente num sadismo visual para chocar, em vez de se importar de verdade com a humanidade daquelas pessoas.
Para mim, a atuação de Zendaya é disparada um dos pontos mais fortes da produção. Eu a vi construir uma Emma tão contida, pesando a mão no silêncio e nas microexpressões de pura angústia. Humanizar uma personagem dona de uma bagagem tão repulsiva não é para qualquer um, e ela me entregou reações incrivelmente autênticas sem precisar apelar para grandes escândalos. Mesmo reprovando as atitudes da protagonista, fui obrigado a reconhecer a habilidade gigantesca que a atriz teve em carregar os temas mais sombrios da trama nas costas.
Senti que Pattinson abraçou a espiral de loucura do Charlie com muita vontade. Ele entregou uma performance que viaja da adoração total pela noiva até uma paranoia obsessiva e sufocante. A transição que ele faz, misturando o humor de constrangimento e a dor crua de um cara sendo corroído por dentro, me prendeu demais a atenção. Mas o obstáculo que notei aqui não foi o talento dele, e sim a bagunça que o roteiro vira na reta final. Charlie começa a tomar atitudes vilanescas exageradas, e as decisões perdem tanto o controle que fugiram drasticamente de quem ele era no início, quebrando a minha empatia pelo cara.
Achei que eles mandaram muito bem juntos nas cenas de falsidade social. A sequência do ensaio de fotos pré-casamento já nasceu icônica. Ver Zendaya e Pattinson forçando sorrisos de comercial de margarina enquanto o mundo desabava internamente me rendeu boas risadas de puro nervosismo. O erro estrutural imperdoável que percebi, porém, foi a falta de afeto prévio na tela. A história já me jogou direto no meio da crise. Como eu nunca entendi de fato por que eles se apaixonaram ou sequer vi eles compartilharem memórias genuínas, o término não me doeu de verdade. Sem me provar que a base era sólida, a relação ganhou uma cara triste de conveniência burguesa desde o primeiro minuto.
Notei que o elenco de apoio sofre de altos e baixos bem bizarros. Alana Haim me pareceu um trunfo gigante na pele de Rachel. Ela funcionou como a faísca na crise moral do grupo e representou perfeitamente aquele lado cínico de uma sociedade que ama consumir a tragédia alheia de perto. Só que aí vi atores talentosos como Mamoudou Athie deixados totalmente de lado. O personagem dele serviu puramente de espelho para as reações morais dos brancos ricos da trama, o que achei um baita desperdício. E foi impossível eu não ficar chocado com a gafe gigantesca no casting dos flashbacks. A garota escolhida para viver a Emma pré-adolescente não tem absolutamente nenhuma semelhança com a Zendaya. Aquela forçação visual para tentar me convencer da síndrome do "patinho feio" me arrancou do filme na hora.
Senti que o jeito como o filme foi filmado escolhe andar pelo lado seguro da rua. A linguagem visual até é eficiente, com aquela luz polida, limpa e padronizada que eu costumo esperar das grandes distribuidoras. Mas faltou personalidade nisso tudo para mim. Um tema tão claustrofóbico e doente emocionalmente me pedia uma câmera muito mais visceral, suja ou experimental. A fotografia acabou apenas documentando o caos psicológico de uma forma um pouco passiva demais, desperdivando a chance de me deixar ainda mais tonto com a loucura deles.
Esqueça qualquer melodia romântica agradável; a trilha é entupida de texturas dissonantes que bateram em mim feito um ataque de pânico direto na cabeça. Os efeitos sonoros ditaram a tensão o tempo todo. Confesso que entendo quem classifica essa agressividade no som e os cortes brutais no meio do silêncio como manipulação emocional barata. Eu mesmo me peguei pensando se o diretor não aumenta o volume da trilha só para disfarçar a sua incapacidade de gerar tensão usando a narrativa de forma honesta.
Achei que o texto atira para todos os lados tentando matar as convenções sociais modernas. Os diálogos são rápidos e cheios de um humor muito ferino, e adorei a coragem de fugir de finais arrumadinhos. Forçar a plateia a engolir no seco a ambiguidade ética daquelas pessoas é um ponto positivo para mim. Contudo, achei que o miolo da história perde o fôlego completamente. Passado o baque da revelação, as cenas estacionaram e começaram a rodar em círculos infinitos de brigas passivo-agressivas que esgotaram a minha paciência. Ver pessoas sofrendo colapsos nervosos severos enquanto vomitam frases intelectuais milimetricamente ensaiadas soou incrivelmente irreal para mim. Acabou parecendo esticado além da conta.
Senti a asfixia no ar ficar pesada bem rápido. A trama cutuca tabus delicados e questiona aquele moralismo tóxico de quem está sempre pronto para cancelar o coleguinha. O calcanhar de Aquiles aqui foi não saber focar num gênero só. Vi o Borgli bater a cabeça tentando ser um suspense denso, um estudo dramático sobre o fracasso e uma farsa social histérica na mesma rodada. O resultado não me agradou totalmente. O humor focado de forma doentia no constrangimento não bateu bem para mim o tempo todo. Em vários momentos, assistir ao filme virou só uma sessão cansativa de sofrimento sem lição alguma.
Eu mesmo me senti, junto com uma parcela considerável do público, um tanto enganado pela campanha promocional. O marketing me vendeu a ideia de um romance ácido e estiloso, algo que combinasse perfeitamente com o carisma das estrelas no pôster. Mas, dei de cara com um filme gélido, niilista e muito mais agressivo do que qualquer trailer que eu tinha visto sugeriu. Essa discrepância entre a promessa comercial e a experiência real que eu tive gerou uma frustração genuína em mim.
O final me deixou incrivelmente dividido, mas, sendo muito sincero, soou mais como pura preguiça do que como uma escolha artística corajosa. Ao se recusar a me oferecer uma resolução minimamente clara para conflitos tão pesados, o filme me deixou com uma sensação tremenda de abandono. Para mim, o encerramento não foi exatamente um convite à reflexão, mas sim uma saída fácil para o roteirista que simplesmente não soube como amarrar a complexa arapuca que ele mesmo montou. A ausência de consequências claras para os atos dos protagonistas acabou invalidando, na minha visão, grande parte do desgaste emocional que eu investi ao longo daquelas duas horas.
A verborragia dos personagens foi outro ponto que me incomodou bastante. Mesmo quando estavam em meio a um ataque de pânico ou um colapso nervoso, os envolvidos nunca perderam a compostura sintática. Eu via as personagens expelindo frases de efeito sofisticadas, parágrafos ensaiados de cinismo filosófico e monólogos perfeitamente estruturados. Como alguém que busca uma conexão real com o que assiste, foi quase impossível para mim acreditar naquelas pessoas. Elas funcionaram muito mais como fantoches do diretor para reproduzir seus sermões pessimistas do que como seres humanos reais.
Definitivamente, "O Drama" não tentou ser o meu novo filme favorito de fim de semana. Ele acertou muito em me entregar debates complexos suportados por performances absurdas das suas estrelas principais, mas caiu nas próprias ciladas de ritmo e pretensão. Se você tem estômago para cinismo em excesso e, assim como eu em certos dias, gosta daquelas obras difíceis que deixam pontas éticas soltas pelo chão, garanta a sua poltrona. A minha experiência variou entre o exaustivo e o genial, e a única maneira de descobrir como você vai sobreviver a essa panela de pressão de sentimentos é indo ver com os próprios olhos.