Filme inspirado em história real mergulha no caos e nos absurdo para dar a Timothée Chalamet o melhor papel de sua carreira (até agora).
por Aline Pereira“Se eu confiar no meu taco, o dinheiro vai vir”, diz Timothée Chalamet em um determinado momento de Marty Supreme no qual todos já sabem – menos o protagonista – que as coisas estão longe de serem simples assim para ele. Sob o comando de Josh Safdie (co-diretor de Joias Brutas junto com o irmão, Benny Safdie), o drama inspirado na história real do tenista de mesa Marty Reisman nos traz um personagem bem elaborado, inserido em um universo caótico e dominado por uma avalanche de palavras.
Um ano depois de aparecer nas telas como um morno Bob Dylan em Um Completo Desconhecido, Chalamet retorna para mais um papel de pessoa real, desta vez com muito mais pulso e, ao que parece, com mais liberdade poética. Digo isso porque a presença do ator é o primeiro aspecto que salta aos olhos em Marty Supreme: aqui, o astro de Duna passa duas horas e meia falando, falando e falando quase que ininterruptamente, sem deixar cair o ritmo. Prometo que vou evitar trocadilhos com o ping-pong da bolinha de tênis de mesa, mas a sensação da trama, de forma geral, é justamente a de uma partida acelerada, de lá para cá e vice-versa.
Marty (Timothée Chalamet) é um jovem talento do tênis de mesa que, vivendo em uma Nova York da década de 1950, tem ambições demais e receios de menos. Determinado a ser reconhecido por sua excelência em um esporte visto com desdém pela sociedade, o atleta se embrenha em um universo de apostas, esquemas duvidosos, muita lábia e tentativas de todos os tipos para alcançar a glória. E tudo isso se sucede em um fluxo de eventos frenético e levemente ansiogênico, em um clima que lembra o trabalho do diretor em Joias Brutas – assim, aparentemente o estilo caótico é uma marca que vem mais do trabalho de Josh do que do irmão Benny Safdie, que nesta mesma temporada de premiações assina a direção de Coração de Lutador: The Smashing Machine.
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Marty Supreme é o melhor trabalho de Timothée Chalamet até agora e tenho uma forte sensação de que continuará sendo um enorme destaque em sua carreira por muito tempo. Saí da sessão com a sensação de que as principais habilidades artísticas dele fizeram um ótimo match com o estilo de direção de Josh Safdie. Com isso, quero dizer que Chalamet coloca em cena tanto um jeitinho juvenil e inocente, quanto uma personalidade afiada – ele entendeu exatamente o que precisa fazer com Marty.
O resultado é um protagonista que cativa em frentes diferentes: é tão admirável, quanto detestável sua forma de correr atrás de seus objetivos custe o que custar, deixando para trás o que for necessário e usando a seu favor qualquer ferramenta que tiver em mãos. Se precisar quebrar alguns ovos no caminho, tudo bem. A “raiz” das escolhas dele nos trazem para perto: estamos diante de uma pessoa inegavelmente talentosa e apaixonada, mas que está presa a amarras que a oprimem implacável e sistematicamente. Diante de um mundo que não vai facilitar em nada sua vida, Marty busca seu lugar ao sol como consegue.
Ao mesmo tempo, a esperança e a confiança em um futuro grandioso estão em uma linha finíssima com uma ganância egoísta e individualista. Marty está sempre com os olhos no jogo e quem estiver com ele tem chances consideráveis de virar efeito colateral – do amigo com recursos financeiros à antiga paixão de infância que tem o curso de sua vida definido pela relação entre os dois.
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No campo das relações do protagonista, Kay, uma ex-estrela de cinema interpretada por Gwyneth Paltrow, assume um papel muito interessante, tão incômodo, quanto sedutor. Mais velha do que Marty, Kay carrega grandes frustrações artísticas e um casamento frio que a levam diretamente aos braços do tenista, quase como um outro prêmio, além do tênis de mesa, a ser conquistado. Ela, que não é inocente, nem boba, também encontra no protagonista uma forma de escapar de outros tipos de opressões impostos a ela.
O encontro entre os dois também é um ping-pong (perdão!) de utilidades: o desejo romântico ou sexual até existem, é claro, mas parecem estar longe de ser o ponto principal desta relação. O que acontece é uma troca de estabelecimento de poderes, de validação. Marty acende em Kay uma nova pulsão de vida, ao passo que dá a ele acesso a pessoas e espaços restritos necessários para conquistar o objetivo profissional. Desta forma, não há vítimas propriamente ditas e sim uma tensão para descobrirmos quem vai perder primeiro. E isso é ótimo.
Gwyneth Paltrow é monotônica em sua atuação, mas, neste caso, a presença “apagada” até passa sem grandes machucados já que há outras inúmeras coisas acontecendo em tela ao mesmo tempo. Aqui, vale destacar ainda o marido magnata de Kay, interpretado por Kevin O’Leary, que surge justamente como a personificação do sistema que atropela Marty – não há paixão, nem talento, nem súplicas que falem mais alto do que o dinheiro e este talvez seja o principal confronto do tenista de mesa. A ambição dele também envolve a boa vida do conforto e da ostentação, mas não é ele quem dita as regras para isso e este entendimento é um processo doloroso.
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Não só o ritmo do roteiro e da dinâmica da história, mas também as escolhas estéticas sob a batuta de Safdie tornam Marty Supreme uma obra com um estilo próprio cheio de qualidades visuais. A ambientação na década de 50, com a sociedade retratada ainda vivendo um clima pós-guerra é convincente e imersiva, combinada a boas escolhas de fotografia e figurino.
O visual agradável faz da experiência de assistir a Marty Supreme ainda mais satisfatória: a cadência das cenas e das trocas exasperadas entre os atores, é claro, são o ponto de partida para a adrenalina que o longa causa, mas o conjunto de elementos, é claro, são um complemento bem elaborado para que aquele universo pareça real, ainda que – ou talvez justamente porque – seja dominado pelo absurdo.