Assisti a uma das novelas mais polêmicas da história da Globo: Após 8 anos de sua estreia, hoje tenho uma opinião completamente diferente
Ketlyn Ribeiro
-Redatora
Apaixonada por cultura pop e com um grande acervo de curiosidades aleatórias na memoria, Ketlyn ama enaltecer produções nacionais.

Em 2018, uma trama de João Emanuel Carneiro foi amplamente criticada, mas só agora, ao revisitar a obra, pude perceber o quanto ela é problemática, apesar de suas qualidades.

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Hoje faz exatos oito anos que uma das novelas mais polêmicas da Globo foi ao ar: Segundo Sol (2018). Coincidentemente, hoje também é o dia em que eu terminei de assisti-la pela segunda vez. A primeira foi quando passou da TV aberta e, na época, eu era muito jovem. Agora, com mais maturidade e capacidade de olhar tudo de outra forma, resolvi rever a trama e cheguei a uma conclusão que tirou toda a magia que pensava que a novela tinha.

Muitos detalhes das novelas sempre ficam marcados na memória dos fãs, incluindo a trilha sonora. Aqui em casa, isso aconteceu com o hit "Axé Pelô" do cantor Beto Falcão, vivido por Emílio Dantas. Até hoje, enquanto minha mãe lava louças, de vez em quando a ouço entoando o refrão – a única parte da música que nós duas sabemos e nos divertimos cantando.

Então, embalada pela vaga lembrança musical e curiosa para saber o que me aguardava, dei play na obra de João Emanuel Carneiro, o mesmo responsável por uma das minhas novelas favoritas: Avenida Brasil, atualmente no ar no Vale a Pena Ver de Novo. É exatamente por isso que eu tive altas expectativas e, de fato, minha intuição de que a trama era boa não estava errada. A surpresa é que também está conectada com grandes problemáticas.

A verdade por trás de Segundo Sol

Sei que, para muitos, 2018 parece ter sido ontem, mas naquela época eu ainda era uma adolescente que não tinha acesso livre à internet, então não sabia das discussões que rolavam sobre a novela das 21h. Atualmente, basta fazer uma pesquisa simples para descobrir que o folhetim foi absurdamente criticado pelo "embranquecimento" da Bahia e representação caricata de Salvador, algo que é escancarado para o espectador a todo o momento.

É inegável que Segundo Sol é uma novela sedutora, assim como a maioria das criações de seu autor. Desde o início, a história me prendeu tanto que assisti a muitos capítulos em um único dia. A trama tem personagens marcantes e sempre traz uma nova reviravolta, além de provocar diversas emoções: em alguns momentos fiquei emocionada; em outros, tensa e com raiva. Isso, para mim, é um bom termômetro para saber quando uma produção é boa.

No entanto, quando parei de me deixar levar pela história de amor e todos os mistérios que rondavam o relacionamento de Beto Falcão (Dantas) e Luzia (Giovanna Antonelli), foi que notei pontos muito importantes e profundamente incômodos. Não é difícil perceber, mas para mim, que sou de família baiana, fica claro que a novela apaga a identidade cultural e racial do povo baiano, além de escancarar o racismo estrutural na TV brasileira.

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O único ator negro com um certo destaque na trama é Roberval (Fabrício Boliveira), que tem uma história tão triste quanto absurda. A mãe, empregada doméstica, teve um caso com o patrão, que, por sinal, era branco, e não quis criar o filho por ele ser negro.

Ele cresceu, ficou rico e se tornou uma pessoa vingativa, capaz de cometer atrocidades. O núcleo desse personagem foi, sinceramente, o que mais me causou desconforto. Teve sobrinha fingindo que ele a violentou, teve pai chamando-o de “negrinho” e muitos outros absurdos.

Um polêmico triângulo amoroso

Também não posso deixar de citar o triângulo amoroso que surge na metade de Segundo Sol, formado por Maura (Nanda Costa), Selma (Carol Fazu) e Ionan (Armando Babaioff). Tudo começou com o relacionamento entre as duas, mas, quando decidiram engravidar e escolheram Ionan como doador de sêmen, tudo foi por água abaixo.

Esse ponto não é “apenas” sobre militância. Na verdade, até achei o romance entre Maura e Ionan muito bonito, e acompanhar a evolução dos dois desperta aquela ansiedade do “fiquem juntos logo!”. Afinal, vidas bissexuais também importam, viu?!

No entanto, Maura e Selma enfrentaram muitos preconceitos para ficarem juntas e, justamente o único casal LGBTQIA+ da novela, acabou abalado por um homem. Pura frustração.

Segundo Sol não é um desastre

Não, eu não estou aqui apenas para criticar a novela da Globo, apesar de parecer. A verdade é que, se todos esses pontos tivessem recebido mais atenção, especialmente a ausência de atores negros no centro da narrativa, Segundo Sol poderia ter sido um sucesso ainda maior. A ideia da trama é boa e conseguiu me prender do início ao fim.

Também deixo aqui uma menção honrosa à trilha sonora, que foi uma grata surpresa da experiência. Não sou do tipo que presta tanta atenção nas músicas que aparecem nas novelas, mas, dessa vez, foi impossível não notar. Foram elas que realmente me transportaram para a Bahia e, sem dúvida, fizeram toda a diferença na história, até mesmo as canções engraçadas criadas por Clovinho (Luis Lobianco), que me arrancaram boas risadas.

Certa vez, li uma matéria aqui do AdoroCinema em que Emílio Dantas dizia se arrepender de ter protagonizado essa novela, justamente pelo peso de ter interpretado um cantor de axé baiano, personagem que certamente deveria ser vivido por um homem preto. Mesmo assim, não posso deixar de destacar a atuação brilhante do artista.

O elenco da novela, aliás, é um espetáculo à parte. Ver Adriana Esteves e Deborah Secco como uma dupla imbatível de vilãs é incrivelmente contagiante, bem como acompanhar a atuação de outros nomes como Chay Suede, Leticia Colin, Giovanna Antonelli, Vladimir Brichta e Fabiula Nascimento.

Com certeza, era um elenco dos sonhos que tinha apenas um problema: foi escolhido para a novela errada. Afinal, se a arte imita a vida, onde fica a real representatividade?

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