Tom Cruise podia pilotar aviões, pendurar-se em prédios e lotar cinemas. Mas convencer uma lenda de Hollywood era uma missão muito mais impossível.
Tom Cruise ocupa há mais de quatro décadas um lugar que pouquíssimos atores conseguiram manter. Ele passou de Negócio Arriscado e Top Gun - Ases Indomáveis a liderar Missão Impossível, trabalhar com Stanley Kubrick em De Olhos Bem Fechados e arriscar o corpo em cenas que qualquer outra estrela resolveria com um dublê. Para milhões de pessoas, ele é um dos últimos grandes rostos capazes de levar o público aos cinemas apenas por aparecer no pôster.
Sua entrega física quase nunca é questionada, mas sua figura pública já provocou conversas muito mais complicadas. Em meados dos anos 2000, seu relacionamento com Katie Holmes, aquele salto no sofá de Oprah Winfrey e a forma como misturou sua vida pessoal com a divulgação de Guerra dos Mundos o transformaram no centro de uma atenção difícil de controlar. Uma das figuras mais respeitadas da era de ouro de Hollywood observou tudo isso e decidiu não guardar absolutamente nada para si.
Lauren Bacall não considerava Tom Cruise um grande ator
A atriz era Lauren Bacall, estrela de Uma Aventura na Martinica, À Beira do Abismo, Prisioneiro do Passado e Paixões em Fúria. Bacall estreou ao lado de Humphrey Bogart em 1944. Sua voz, seu olhar e sua maneira de proferir cada diálogo a transformaram imediatamente em uma figura marcante do cinema noir. Décadas depois, ela continuava trabalhando e opinando sobre Hollywood com a mesma franqueza que demonstrava diante das câmeras.
Em uma entrevista à revista Time publicada em 2005, perguntaram a ela sobre a facilidade com que a indústria utilizava palavras como "grande" ou "lenda". Bacall respondeu que esses termos deveriam significar algo e citou Cruise como exemplo de alguém que não pertencia a essa categoria em seu ponto de vista. "Quando você fala de um grande ator, não está falando de Tom Cruise", disse ela, sem deixar muito espaço para interpretações.
Sua crítica não se limitou ao trabalho em frente às câmeras. Ela também classificou o comportamento público dele como escandaloso, inadequado e vulgar, especialmente por transformar um relacionamento amoroso em parte do burburinho comercial em torno de um filme. Para Bacall, usar a intimidade como ferramenta promocional ultrapassava os limites e refletia uma cultura de celebridade que tinha pouco a ver com atuar bem.
O romance com Katie Holmes provocou seus comentários mais duros
Cruise havia iniciado um relacionamento com Katie Holmes durante a divulgação de Guerra dos Mundos. Em maio de 2005, ele apareceu no The Oprah Winfrey Show, pulou no sofá e falou com enorme entusiasmo sobre sua nova namorada. Pouco tempo depois, anunciou o noivado após pedi-la em casamento na Torre Eiffel. Essa história estampou capas de revistas por semanas e coincidiu com o lançamento de uma das maiores estreias daquele verão americano.
Bacall não acreditava que essa exposição fosse espontânea. Ela via um astro usando a vida privada para alimentar uma campanha de marketing e considerava isso impróprio para alguém que desejava ser tratado como uma figura séria. Sua maneira de expressar isso foi muito menos diplomática e ela chegou a falar daquele comportamento como se fosse uma espécie de doença. Ela estava avaliando a engrenagem montada ao redor de Tom Cruise fora dos cinemas.
Sua amizade com Nicole Kidman endureceu ainda mais sua postura
Em 2008, Bacall voltou a mencionar Cruise em um perfil da revista Elle dedicado a Nicole Kidman. Ela lembrou de ter conhecido a atriz australiana durante as filmagens de Dogville e de vê-la como alguém profissional e encantadora, mas que também estava abalada pela fase que atravessava após o divórcio. Ao comentar sobre a maneira como Cruise conduzia sua vida, chamou-o de "maníaco" e disse que não conseguia compreender as decisões pessoais dele.
Nicole Kidman sobre mentiras de seu casamento com Tom Cruise: "Éramos um casal feliz graças a De Olhos Bem Fechados"A essa altura, Bacall podia falar de uma posição difícil de contestar. Ela havia atravessado mais de seis décadas de cinema, trabalhado com diretores como Howard Hawks e John Huston e construído uma filmografia que superou a marca de 50 títulos. A atriz recebeu sua única indicação competitiva ao Oscar por O Espelho Tem Duas Faces e, em 2009, a Academia lhe entregou uma estatueta honorária por sua trajetória.
Cruise continuou sendo um dos maiores astros do mundo e sua carreira não foi definida por aquelas palavras. Bacall também não estava tentando iniciar uma rivalidade para alimentar manchetes por anos. Ela deu uma opinião duríssima a partir de uma visão muito particular de Hollywood. Para ela, uma lenda era construída com tempo, ofício e uma certa maneira de se comportar quando as câmeras paravam de gravar.