Críticas AdoroCinema
2,5
Regular
Um Homem Só

Versão nacional

por Francisco Russo

Basta pensar em ficção científica que logo vem em mente efeitos especiais grandiosos e elaborados, em tramas envolvendo o espaço sideral ou situações futuristas, como robôs, viagens no tempo e todo tipo de monstro. Tal associação é fruto especialmente de Hollywood, que usa e abusa do gênero na produção de blockbusters. Só que, de vez em quando, surge uma ficção científica mais calcada na história do que propriamente em efeitos, por mais que eles até sejam utilizados. Este é o caso de Um Homem Só, primeiro filme dirigido pela também roteirista Cláudia Jouvin.

Com vasta experiência na TV, especialmente na comédia, Cláudia resolveu fazer de seu primeiro filme a representação maior de seu lado nerd. Enfrentou as dificuldades inerentes à ínfima produção de ficções científicas no cinema brasileiro e entregou um longa-metragem calcado na realidade, que poderia muito bem ser situado nos dias atuais. Nele, um homem cansado de sua vida em casa e no trabalho ouve falar de uma clínica capaz de produzir uma réplica de si mesmo. É a chance perfeita de deixá-la ocupando seu lugar no mundo, o que lhe possibilitaria uma vida nova.

Por mais que Um Homem Só não entre na seara moral de criar uma réplica de si mesmo, chama a atenção a completa naturalidade com a qual tal situação é apresentada, como se fosse algo corriqueiro, algo impulsionado também pela direção de arte e figurino contemporâneos. Outro aspecto que também chama a atenção é a justificativa dada para tal decisão: o medo em não viver é maior que o de morrer. Cabe a Vladimir Brichta interpretar o tal protagonista, explorando algumas sutilezas de forma a que o espectador saiba quem é a versão original e quem é o clone - o que nem sempre funciona a contento, intencionalmente.

Por mais que a construção do jogo envolvendo os duplos do personagem principal seja interessante, o roteiro peca pela necessidade em estabelecer dependências amorosas em ambos os lados - e, pior ainda, com personagens femininas bastante dependentes à sua versão de Vladimir. Este é o caso tanto de Aline (Ingrid Guimarães, apagada) quanto de Josie (Mariana Ximenes, bem), cujo visual exótico chama a atenção. Ruiva, sardenta e praticamente sem sobrancelhas, Josie se destaca também pelo lado espevitado da personagem, trazendo algum brilho a uma história quase sempre morna.

Apesar de ser um tanto quanto esquemático e até didático na apresentação de sua trama, Um Homem Só chama atenção pelo inusitado, como gênero no cinema brasileiro e dentro da própria ficção científica. Trata-se de um filme fantástico com poucos elementos fantásticos, o que amplifica o holofote em torno de como a narrativa é construída e nas próprias atuações. Interessante, especialmente pelas questões conceituais que aborda.